Descrição de chapéu The New York Times Cinema

Cinemas drive-in voltam a fazer sucesso nos Estados Unidos durante quarentena

Com casas de espetáculos fechadas por causa do coronavírus, pessoas buscam se entreter isoladas em seus carros

Alyson Krueger
The New York Times

Jen Philhower, de 48 anos, que trabalha em tempo parcial em Austin, no estado americano do Texas, como administradora de um escritório, é uma entre os muitos americanos que estão tentando se adaptar ao cancelamento de quase todas as atividades coletivas, agora que as pessoas estão ficando isoladas em casa para evitar a difusão do novo coronavírus.

“Meu filho mais novo vai a uma escola de natureza, e até ela fechou”, disse Philhower. “Quando até brincar no bosque está proibido, as coisas começam a parecer estranhas.”

Por isso ela ficou surpresa –entusiasmada, na verdade– ao perceber que existia uma forma de entretenimento coletiva ainda em funcionamento —o Blue Starlite, um cinema drive-in local que no momento vem admitindo até 35 carros por sessão.

Localizado em uma colina e com o “skyline” de Austin como pano de fundo, o cinema parece “um ferro-velho bacana”, de acordo com o proprietário, Josh Frank, que o abriu uma década atrás. Desde que o vírus atingiu os Estados Unidos, o cinema vem passando filmes como “Curtindo a Vida Adoidado” e “Clube dos Cinco”.

Espectadores assistem ao “O Grande Lebowski” no drive-in Blue Starlite Urban, em Austin, no Texas
Espectadores assistem ao “O Grande Lebowski” no drive-in Blue Starlite Urban, em Austin, no Texas - Eli Durst/The New York Times

Nesta terça-feira (24), os espectadores assistiram a curtas-metragens que deveriam ter estreado no festival South by Southwest, que foi cancelado, e a um longa do festival originalmente marcado para este mês.

Quando os filhos de Philhower, que têm 20, 16 e 12 anos, eram mais jovens, a família frequentava o drive-in. Os garotos adoravam se acomodar no topo do carro e mastigar doces sob a luz das estrelas.

“Houve um ano em que assistimos ‘Os Goonies’ três vezes”, disse ela. Mas a família não tinha pensado em voltar ao cinema até que se viram irritados de tanto ficar em casa, por obra das novas diretrizes de saúde pública.

"Faz perfeito sentido”, continuou Philhower. “Podemos ficar sentados em nossos carros, distantes uns dos outros, e fazer alguma coisa divertida.”

Os cinemas drive-in podem parecer coisa do passado, algo vindo das décadas de 1950 ou 1960. Muita gente da geração “baby-boom” [os americanos nascidos entre 1946 e 1964] não vai a um drive-in há décadas; e as pessoas da geração X e da virada do milênio talvez nunca o tenham feito.

Mas continuam a existir 305 deles nos Estados Unidos, de acordo com a Associação dos Proprietários Unidos de Cinemas Drive-In, sediada em Stephens City, no estado da Virgínia. A associação diz que há cinemas drive-in em todos os estados americanos, com exceção de Alasca, Dakota do Norte, Delaware, Havaí e Louisiana.

Embora a maior parte dos cinemas drive-in funcione no verão, alguns dos proprietários decidiram começar suas temporadas mais cedo neste ano, a fim de oferecer às famílias uma forma de escape durante a pandemia.

Uma família se aconchega no drive-in Blue Starlite Urban, em Austin, no Texas
Uma família se aconchega no drive-in Blue Starlite Urban, em Austin, no Texas - Eli Durst/The New York Times

Agora que os shoppings, casas de espetáculos e restaurantes estão fechados, elas podem se entreter isoladas em seus carros. “Quem imaginaria que filmes em um drive-in voltariam a ser uma opção de entretenimento atraente?”, disse Frank.

Outros proprietários estão operando com cautela, observando uma situação que muda a cada dia. “Creio que essa seja uma oportunidade afortunada”, disse Stephen Sauerbeck, dono do Sauerbeck Family Drive-In Theater, em LaGrange, no estado de Kentucky. “Mas também fico imaginando se não seria algo bom demais para ser verdade.”

Sauerbeck tem razão. Ele passou uma semana discutindo a situação com o governador e o comissário de saúde pública do Kentucky. Embora a opção de exibir filmes pareça descartada, as autoridades estão permitindo que ele venda pipocas, nos finais de semana, e que empreste o local para que igrejas façam seus cultos (os fiéis se sentam nos carros e ouvem os sermões no rádio).

Para ele, nada disso é definitivo. “Parece mudar a cada dia", afirmou.

"Temos a responsabilidade, de nossa parte, de sermos o mais seguros que pudermos”, disse Sauerbeck. “Não quero que a coisa funcione com base em uma lacuna que encontramos, e nos permita operar de forma meio clandestina um negócio que o governo está tentando fechar.”

Mundo do cinema

Mesmo antes da chegada do coronavírus, o setor de cinemas drive-in estava passando por um modesto renascimento.

No final de fevereiro, Frank abriu um segundo Blue Starlite, em Round Rock, uma cidade 40 quilômetros ao norte de Austin. A cada final de semana, ele realiza entre três e cinco sessões ali, e os ingressos quase sempre se esgotam dias antes.

“Foi realmente algo de impressionante”, afirmou ele. “Se eu tivesse aberto um cinema em Round Rock anos trás, talvez estivesse três décadas mais perto de me aposentar.”

Sauerbeck abriu seu drive-in em agosto de 2018, depois que a última sala regular de cinema, controlada pela Regal Cinemas, fechou as portas em LaGrange. “O ano de 2019 teve um verão perfeito para nós. 'O Rei Leão’, ‘Toy Story’, ‘Homem-Aranha’ e todos esses filmes foram bons para o nosso faturamento, e aumentamos nosso público a cada mês, porque o clima cooperou”, disse ele.

O cinema pode parecer um campo de terra batida, mas cada um de seus componentes foi planejado. “Não temos alto-falantes ou suportes para eles, como alguns dos drive-ins mais velhos”, explicou Sauerbeck. “Também temos um estacionamento com piso de cascalho, o que nos permite operar se estiver chovendo.”

No recente filme “Era Uma Vez... em Hollywood”, de Quentin Tarantino, um drive-in que continua ativo em Paramount, na Califórnia, serve como substituto para um cinema desse tipo que ficava em Van Nuys e foi demolido há muito tempo.

O cineasta Spencer Folmar acredita que cinemas drive-in são o passado e também o futuro do cinema que ele está construindo, que prometer ser o maior deles, em Eustis, na Flórida, a cerca de 45 minutos de Orlando, com 500 vagas para carros. O projeto planeja ser uma experiência visual de imersão e terá um farol em posição central do qual espectadores poderão ver telas se estendendo em todas as direções.

O objetivo de Folmar é oferecer uma cena tão deslumbrante que não haverá maneira de reproduzi-la no sofá de casa. “Um cineplex pode ser uma experiência genérica. Dá na mesma assistir em casa”, disse ele. “Quero criar um mundo do cinema com design único.”

Comida por telefone

Ficar trancado em casa não impediu americanos de postarem no Instagram e em outras redes sociais –na verdade, encorajou alguns deles a postarem ainda mais–, e muitos cinemas drive-in estão tentando ajudar a oferecer conteúdo seguro e inovador.

Bailey Denise Nichols, 20, trabalha em um local que hospeda cachorros em Houston. Quando as pessoas deixaram de viajar e com isso o fluxo de clientes caninos do lugar caiu, ela queria fazer algo de novo e diferente com seu tempo livre.

Por isso, levou a prima ao Showboat Drive-In Theater, na saída da cidade. Elas se acomodaram no assento traseiro do carro, com travesseiros e cobertores, iluminadas por fios luminosos que haviam levado com elas por diversão, e comeram nuggets que compraram no McDonald’s a caminho do cinema.

“Fiquei surpresa ao descobrir que o som do filme vem por uma frequência de rádio, e isso certamente foi uma experiência”, disse ela . “Não sei como, exatamente, eu achava que ouviria o filme; deve ser porque sou da geração Z.”

Na semana passada, Clay Lundquist, 43, proprietário de uma companhia de marketing e produção em Redmond, no estado de Washington, viajou a Phoenix para assistir aos treinamentos da principal liga de beisebol americana. Quando os jogos de pré-temporada foram cancelados, ele saiu em busca de algo divertido e seguro para fazer. “Não teríamos ido a um cinema comum”, ele disse. Mas um drive-in parecia divertido.

Lundquist não ia a um drive-in havia 20 anos, e sua mulher, Amber Lundquist, 40, nunca tinha visto um filme desse jeito.

Eles foram ao West Wind, um estabelecimento antiquado em Glendale, no estado do Arizona, com playgrounds (abandonados) e um fliperama, e viram os longas “O Homem-Invisível” e “A Caçada”.

Havia até pessoas dançando ao lado de seus carros, no intervalo, embora exista uma regra de que elas precisam ficar dentro dos carros o tempo todo, exceto para ir ao banheiro.

“Fizemos a escolha de aproveitar ao máximo o nosso tempo”, disse Lundquist. “Sinto que se as pessoas tentarem ir a um drive-in, veriam a magia da experiência.”

Os cinemas drive-in em funcionamento estão tomando precauções adicionais para garantir o isolamento social. No Blue Starlite, basta mostrar pela janela do carro o celular contendo o ingresso, para ser admitido.

Muitos drive-ins adotaram um sistema de pedidos de comida por telefone. Funcionários usando luvas de látex levam a comida até os carros para que não se formem multidões diante dos balcões.

Alguns cinemas drive-in adorariam estar em funcionamento, mas estão impedidos, por restrições das autoridades ou pelas preocupações de seus proprietários.

Depois de anunciar nas redes sociais que funcionaria sete dias por semana, no período de fechamento das escolas, o Summer Quartet Drive-In, em Memphis, foi forçado a fechar em 18 de março; ele é parte da rede de cinemas Malco, e a companhia fechou todos os seus cinemas.

Brian Francis, que opera o 99W Drive-In Theatre, em Newberg, Oregon, recebeu 30 mensagens de espectadores pedindo que ele abrisse mais cedo, na semana passada. “O pessoal acha que o drive-in é a única maneira de ver um filme respeitando o isolamento social e que esta é uma oportunidade fugaz para que os drive-ins brilhem antes de desaparecer”, ele escreveu em um email.

Mas Francis hesita em abrir antes de ter certeza de que o estado do Oregon não decretará quarentena. Ele está em contato com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, com a Autoridade de Saúde do Oregon e com o deputado estadual de seu distrito, para saber “quando, se e como" poderão abrir na temporada de 2020. “Quero fazer minha parte para achatar a curva”, afrmou ele.

Tradução de Paulo Migliacci

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