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Como o movimento MeToo vem acabando com o teste do sofá em Hollywood

Após acusação e condenação de Harvey Weinstein, mulheres promoveram mudanças na indústria do cinema

Elizabeth A. Harris
The New York Times

Uma quadra de basquete no Park City Municipal Athletic and Recreation Center, nos Estados Unidos, foi convertida em sala de exibição, e o mesmo aconteceu com uma sinagoga próxima e um auditório de uma escola local de ensino médio. As ruas da velha cidade mineira de Park City estão congestionadas de veículos.

E a procuradoria do estado americano de Utah montou uma linha de denúncias que funciona 24 horas para qualquer pessoa que seja assediada sexualmente ou ameaçada durante o Festival Sundance de Cinema.

Independentemente da condenação decretada de Harvey Weinstein em Nova York nesta quarta-feira (11), as revelações sobre a maneira pela qual ele usava seu poder sobre as mulheres mudaram Hollywood de grandes e pequenas maneiras.

Há novas regras sobre quando e onde realizar reuniões, mudanças nas leis que facilitam que uma mulher abra processos por assédio sexual e novas maneiras de denunciar quando alguma coisa de errado acontece –tudo isso como parte dos esforços para tornar Hollywood um pouco mais segura.

Embora o setor continue dominado pelos homens, as mulheres começaram a conquistar mais trabalhos como diretoras e mais cargos executivos, as posições de poder que determinam a direção em que a cultura caminha.

Hollywood é um ramo em que free-lancers saltam de um projeto a outro, e essa forma de organização torna difícil conter os predadores e agrava os riscos para quem se dispõe a denunciá-los. Mas ativistas e profissionais do setor dizem que estão sendo tomadas medidas que representam atenção continuada à questão, alguma melhora nas condições cotidianas de trabalho e talvez sinais de uma mudança real de postura.

“Acredito que a maioria das pessoas gostaria de ver uma situação em que alguém possa ir ao trabalho e se sentir bem sobre o ambiente”, disse Gail Berman, produtora de cinema e copresidente da Producers Guild, o sindicato dos produtores de Hollywood, que agora oferece sessões de prevenção de assédio sexual para projetos independentes.

“Isso significa que acabamos com o comportamento predatório no ramo? Eu diria que essa seria uma suposição ridícula. Mas posso afirmar que existe muita sinceridade da parte de muita gente quanto a mudar essa cultura”, complementa.

Uma luta que começou um século atrás

O caso de agressão sexual contra Weinstein que foi a julgamento em Manhattan, e terminou com sua condenação a 23 anos de prisão, se concentrava em duas mulheres. Uma era assistente de produção em um filme e diz que Weinstein a forçou a fazer sexo oral, em seu apartamento. Outra era uma aspirante a atriz que o acusa de estuprá-la em seu quarto de hotel. Os advogados de Weinstein afirmam que “emails amorosos” entre ele e as acusadoras demonstram que tudo foi consensual.

Harvey Weinstein pega 23 anos de prisão em caso mais emblemático do MeToo
Harvey Weinstein pega 23 anos de prisão em caso mais emblemático do MeToo - Carlo Allegri/Rruters

Mas, para muita das dezenas de mulheres que o acusaram de desvios de conduta sexual, a história foi a mesma. Atrizes dizem que ele as encurralou em quartos de hotel e lhes ofereceu papéis como forma de coerção —durma comigo e seja uma estrela, ou não o faça e eu vou arruinar sua carreira.

Pelo menos duas mulheres acusaram Weinstein de estuprá-las ou abusar sexualmente delas durante o Sundance, o principal festival de cinema independente dos Estados Unidos. Em 2018, poucos meses antes que explodissem as acusações contra Weinstein, o festival anunciou a criação da linha para denúncias, que agora é divulgada em cartazes espalhados por Park City e nas credenciais para o festival.

Um porta-voz da Justiça do Utah disse que embora o departamento não mantenha registros sobre as denúncias recebidas pela linha de assistência, os investigadores relatam ter recebido uma denúncia em 2018 e nenhuma no ano passado.

Embora o processo de seleção de elenco tenha sido profissionalizado há anos, as preocupações sobre o “teste do sofá” –um eufemismo para exigir sexo em troca de um trabalho– existem desde que Hollywood surgiu.

Os cineastas começaram a chegar a Los Angeles por volta de 1910, de acordo com Denise McKenna, historiadora que pesquisou sobre os primeiros anos de história da indústria cinematográfica, e já em 1915 um pastor chamado Charles Selecman estava em campanha contra o que definiu como “as condições morais de Los Angeles”.

Surgiram artigos na imprensa local insinuando que mulheres estavam sendo forçadas a fazer sexo em troca de trabalho, sob manchetes como “Garota conta a Selecman sobre os riscos do vício no cinema” e “Males dos estúdios precisam ser combatidos até o fim, diz pastor”.

Uma divisão da polícia de Los Angeles chamada Birô Maternal da Cidade foi criada nos estúdios para verificar que as jovens atrizes recebessem pagamento suficiente e tivessem onde ficar, para que não se tornassem responsabilidade do governo municipal.

Um dos primeiros exemplos de teste do sofá não veio do cinema, mas da Broadway. Em seu livro “Boys From Syracuse: The Shuberts’ Theatrical Empire”, Foster Hirsch descreve “um boudoir elegantemente mobiliado” que o proprietário de teatros Lee Shubert mantinha perto de seu escritório e usava para sexo com as atrizes principais de suas peças e estreantes promissoras. Ele mantinha um quarto esparsamente mobiliado, muito mais simples, com “basicamente um sofá”, a fim de fazer sexo com as coristas.

Essa forma de comportamento predatório era amplamente comum nos estúdios de cinema. O livro “Lion of Hollywood: The Life and Legend of Louis B. Mayer” descreve que a MGM de Mayer –como todos os demais estúdios– abrigava “uma ampla oferta de chamadas ‘garotas com opção de seis meses’ para servir os executivos”.

O livro cita um produtor como tendo dito, sobre o executivo cinematográfico Darryl Zanuck, que “você precisa entender uma coisa: a cada vez que Darryl leva uma garota para a cama, nasce uma estrela”.

O comportamento abusivo ia além dos grandes estúdios. Um dos pontos cegos expostos pelo movimento MeToo é a forma pela qual o sistema de Hollywood, em que os estúdios em muitos casos não têm controle sobre os empregados de produtores independentes poderosos como Weinstein, faz com que os trabalhadores não tenham a quem reclamar em caso de queixas.

Entre as mudanças recentes no setor, o estúdio Warner Bros., por exemplo, criou uma equipe de recursos humanos designada para acompanhar cada produção em que a companhia esteja envolvida. E a Hollywood Commission, presidida por Anita Hill, está criando um sistema pelo qual qualquer trabalhador do setor que não tenha a quem prestar queixas poderá denunciar assédio ou discriminação.

Os atores agora são encorajados a evitar reuniões pessoais em locais privados. O sindicato dos atores, SAG-AFTRA, divulgou diretrizes que aconselham seus membros a não participar de reuniões em hotéis e residências, e que, caso considerem necessário fazê-lo, que o façam acompanhados.

Sharon Bialy, diretora de elenco em Los Angeles, sempre tem pelo menos mais uma pessoa na sala com ela durante audições. É uma prática que ela seguia pessoalmente há muito tempo e, agora, insiste em que toda sua equipe respeite.

Embora reuniões privadas certamente ainda aconteçam, mesmo em quartos de hotel, alguns profissionais do setor mencionaram que reuniões em hotéis agora podem acontecer nos saguões e que reuniões que antes aconteceriam em casa acontecem, agora, em cafés.

“Todo mundo está ciente das impressões que isso causa, agora”, disse Bialy. “E sinto que as pessoas estão sendo mais cuidadosas e conscientes sobre isso.”

Levando a câmera para baixo das cobertas

O que pode fazer com que alguém se sinta mais vulnerável do que tirar a roupa em uma sala cheia de gente e fingir fazer sexo com um colega?

Difíceis nas melhores circunstâncias, cenas de sexo podem facilmente sair do controle. De acordo com a organização Time’s Up, que combate o assédio sexual em Hollywood, atores às vezes chegavam ao estúdio no dia da filmagem e eram pressionados a mostrar mais de seus corpos do que o previsto no contrato ou descobriam depois da rodagem de uma cena que membros da equipe haviam gravado com seus smartphones vídeos que os mostravam nus e postado as imagens online.

Houve atores que foram instruídos a fazer sexo em lugar de apenas simulá-lo.

O Time’s Up divulgou regras sobre como lidar com cenas de intimidade e sexo simulado e sobre o que os atores devem fazer em audições se alguém pedir que “ajam de um jeito mais sexy”.

Novas leis em vigor na Califórnia e outro estados facilitam processar produtores e diretores por assédio sexual e restringem o uso de acordos de confidencialidade, que impedem as vítimas de falar e permitem que os responsáveis por abusos continuem com seu comportamento nocivo.

E, nos últimos dois anos, as produções vêm recorrendo mais e mais a coordenadores de intimidade, cuja função, que fica no meio do caminho entre a de coordenador de dublês e terapeuta, é a de tornar as cenas o mais confortáveis que possam para os atores, e ainda assim produzir um resultado convincente.

Há diálogo sobre limites e sobre doenças sexualmente transmissíveis. Os coordenadores garantem que os atores tenham roupões para usar entre as tomadas, e que seus órgãos genitais fiquem cobertos durante a filmagem. Também conversam sobre exatamente o que será e não será mostrado e verificam que esses limites sejam mencionados em contrato, na forma de “cláusulas de nudez”.

“Era comum, especialmente na televisão, que um ator tivesse uma cláusula que se aplica a uma série, e que a cláusula dissesse que ‘tal ator concorda em aparecer e nu e fazer cenas de sexo durante esta série’ –e isso era tudo”, disse Claire Warden, que trabalha como coordenadora de intimidade.

“Agora há cláusulas para cada cena em cada episódio, que dizem coisas como ‘a atriz mostrará o topo e a lateral dos seios mas não os mamilos’. Ou eles concordam em mostrar três quartos das nádegas, mas não as nádegas inteiras”, disse ela.

Há alguma resistência, porém, especialmente da parte de diretores que acreditam que coordenadores de intimidade restrinjam sua liberdade de criação ou interfiram em seu relacionamento com os atores.

Teniece Divya Johnson, coordenadora de intimidade que trabalha em Nova York, recorda ter ouvido no set que só deveria falar quando alguém falasse com ela.

Mas os coordenadores dizem que os diretores em geral terminam por aceitar seu trabalho.

“Há uma aceitação”, disse Warden, “de que esse é um assunto que precisa de atenção”.

Pondo as mulheres no poder

Como parte do movimento MeToo, está acontecendo um esforço visível para levar mais mulheres e pessoas não brancas a posições de poder em Hollywood.

Isso, dizem os ativistas, é essencial para mudar a cultura da indústria do cinema, bem como o tipo de histórias que são celebradas e contadas. (O Oscar foi criticado este ano por indicar praticamente só brancos na categoria de melhor ator e por desconsiderar completamente as mulheres na categoria de melhor direção).

Darnell Hunt, professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que produz um relatório anual sobre diversidade em Hollywood, disse que embora a proporção de mulheres dirigindo e estrelando grandes filmes tenha crescido, ainda é muito inferior ao que deveria. Mulheres dirigiram 4% dos 200 maiores filmes de 2011, ele disse. Em 2017, a proporção tinha subido para pouco menos de 13%.

Tradução de Paulo Migliacci

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