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Em HQ, Violeta tem mãe que remete ao Partido Democrata e pai de cor republicana

Quadrinista consagrado, Craig Thompson lança 'Space Dumplins', inspirado pela polarização política nos EUA

São Paulo

Hoje é comum certo desdém em relação à obra que fez a fama do quadrinista Craig Thompson. Para alguns, "Retalhos" não é lá tudo isso. Apontam prolixidade em suas 592 páginas, um sentimentalismo exagerado e inclusive certo sexismo. Mas quem estava lá, em 2003, quando a obra foi lançada, sabe do impacto do álbum de estreia de Thompson, na época com 28 anos, para o universo das HQs indies e autorais.

"Retalhos" foi eleito o melhor quadrinho de 2003 pela revista Time ao narrar o primeiro amor do autor, criado em uma família evangélica do interior dos Estados Unidos. O livro rendeu a Thompson dois Eisner Awards e quatro Harvey Awards, as principais premiações do mercado americano, e o prêmio da crítica do Festival de Angoulême, na França. Foi aclamado por Art Spiegelman, Neil Gaiman e Alan Moore.

Oito anos depois veio "Habibi". Apesar de ter recebido críticas por suposta apropriação cultural ao narrar uma história de amor fantástica de 672 páginas situada no mundo árabe, também vieram novos elogios. Entre eles comparações com Charles Dickens e Will Eisner e presença em uma lista recente da BBC de cem livros mais inspiradores de todos os tempos. Também foi além da bolha habitual de leitores de histórias em quadrinhos.

Hoje aos 44 anos, Thompson já não tem as mesmas aspirações literárias presentes em seus primeiros trabalhos, está em busca de outros públicos e demonstra certo cansaço do formato de graphic novels.

“Faz tanto tempo que os quadrinistas vêm tentando provar que ‘gibis não são mais só para criança’ que deixamos este mercado de lado”, diz o artista, sobre o ponto de partida de seu terceiro álbum longo e primeiro quadrinho infantil "Space Dumplins", recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras. “Já era hora na minha carreira de retribuir ao meu eu criança, que se apaixonou por essa mídia aos nove anos de idade.”

Lançado há cinco nos Estados Unidos pela gigante editorial Scholastic, a mesma casa de "Harry Potter" na América do Norte, "Space Dumplins" é uma ficção científica protagonizada pela jovem Violeta Marlocke, filha de uma estilista e de um coletor de cocô de baleias espaciais, valiosa fonte de energia intergalática. Uma “diarreia baleiesca” causa um desastre ambiental que separa a menina de seus pais e põe sua vida em risco enquanto ela tenta desvendar o ocorrido.

Thompson não se propôs as mesmas ambições literárias de seus trabalhos prévios. Ele queria uma aventura mais simples, em três atos, que rendesse ao menos uma gargalhada por página e ainda tratasse de temas caros a ele —como conflito de classes e a crise ambiental. Sua inspiração foi o modelo dos filmes dos estúdios Pixar —não se voltar exclusivamente no público infantil e dar atenção também aos pais e outros leitores adultos.

“Violeta está tentando lidar com a relação problemática dos pais, que se resume praticamente a conflito de classes”, explica o autor.

O nome da mãe de Violeta, Ceruleana, é uma referência ao tom de azul, cor dos progressistas democratas na política americana. O nome do pai dela, Garnett, deriva da gema vermelha homônima, mesma cor dos republicanos conservadores. A ponte entre esses dois mundos está em Violeta. O mesmo vale para seus dois ajudantes em sua jornada, o galinho Elliot, parte de uma elite rica e instruída, e o alienígena órfão Zaqueu, que nunca terminou seus estudos.

O principal diálogo de "Space Dumplins" com os trabalhos prévios de Thompson está em sua arte, seus desenhos de página inventivos e seu virtuosismo no uso do nanquim. O álbum foi ilustrado no computador, mas finalizado no papel com pincel de aquarela. O diferencial maior em relação a "Retalhos" e "Habibi" está na presença de cores, assinadas pelo colorista Dave Stewart.

“Foi difícil abrir mão de parte do controle criativo. No fim das contas, eu acho que meu trabalho, por conta da linha grossa no lápis, fica melhor em preto e branco. Seria incrível se um dia eu pudesse lançar uma versão especial sem cores. Por outro lado, as cores do Dave renderam muita atmosfera e profundidade nas páginas. E ele é um dos melhores no ramo”, diz.

O lançamento da edição brasileira de "Space Dumplins" coincide com a publicação do novo projeto de Thompson nos Estados Unidos, a série "Ginseng Roots", obra documental inspirada nos dez anos que ele e o irmão trabalharam em lavouras de ginseng, raiz medicinal muito valorizada na medicina chinesa e plantada no estado americano de Wisconsin. Publicado bimestralmente em edições de 32 páginas, o quadrinho é uma reação do autor ao seu incômodo com as graphic novels longas e luxuosas.

“Como consumidor, é esmagador ver quantas graphic novels chegam às livrarias e às lojas de gibis todo mês”, diz o autor. “Bem mais do que eu teria como comprar ou teria espaço para pôr em casa. Sinto falta da simplicidade e da humildade da revistinha. É um formato maravilhoso para conhecer novos autores, novos personagens. Não exige tanto da sua atenção nem do seu bolso.”

“Além disso, pode-se argumentar que o entretenimento em série ressurgiu. Há quem faça maratonas de seriados e na Netflix. Mas você também pode prolongar o prazer de consumir uma história quando ela é parcelada em bocadinhos.”
 

Space Dumplins

  • Preço R$ 84,90 (320 págs.)
  • Autor Craig Thompson
  • Editora Companhia das Letras.
  • Tradução Érico Assis

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