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Em Paris, Kanye West faz show-culto-gospel e Stella McCartney critica matança de animais

Guerras e escalada conservadora no mundo inspiraram criações da Balenciaga apresentadas na semana de moda

Paris

Kanye West já disse ter sonhado ser estilista da Hermès. Não deu. Então, o rapper criou a própria marca, a Yeezy, e passou a dar as caras na semana de moda de Paris para respirar o ar fashionista. Após crises pessoais, teria sido “salvo por Jesus”, abraçou, junto à mulher, Kim Kardashian, o programa de governo nacionalista de Donald Trump, e, por fim, nesta temporada, resolveu fazer algo diferente. Mandou todo mundo rezar com ele —e por ele.

Levou editores e estilistas famosos a um teatro no norte da cidade para apresentar, no domingo (1º), seu show-culto-gospel Sunday Service, que semanalmente conduz nos Estados Unidos. Foi de bege, assim como o coral e os dançarinos da reza, adotando a cor tendência do último ano.

O pastor fashion, no entanto, tinha segundas intenções. Nesta segunda (2), levaria a Paris um desfile surpresa de sua grife, que desde 2018 não lança nova coleção. Agora, ao espírito “streetwear” das roupas ele deve acrescentar também o santo. Dizem, sua moda será sustentável.

Esse molho cristão, que brotou do nada nesta temporada de outono-inverno 2021, dialoga com o meio entre luz e trevas exposto nos desfiles. Enquanto uns adotam a narrativa de um mundo melhor, ainda que ele seja caríssimo, outros explodem dinamite ao apontar nas roupas os podres do milênio.

Balenciaga, uma das mais incensadas deste calendário, não tratou apenas de volumes, roupa clássica e cortes brilhantes da roupa gótica como fez parecer seu estilista, o georgiano Demna Gvasalia. Ele buscou no arquivo do espanhol Cristóbal Balenciaga os primeiros looks que o costureiro e pai do vestido de festa sem alça produziu para uma marquesa ir à Igreja.

Os devotos do novo século, segundo Gvasalia, usam as túnicas pretas, golas altas e são cobertos por pano negro, às vezes vermelho sangue. É uma imagem que, para ele, tem um significado ainda mais importante porque seu país, majoritariamente cristão, sofreu com a sanguinolência das guerras desde o final do século 20.

É por meio desse mundo bélico e pela escalada conservadora que o aflige, que decidiu inundar, literalmente, o teatro onde realizou o desfile —como se as calotas polares tivessem derretido, o céu tivesse sido tomado por fogo e não houvesse sobrado nada mais que celulares nas mãos das pessoas, como sugeriram os modelos.

Gvasalia pinta a imagem do pós-apocalipse, sem vida nem cor. Entre as sobras de um mundo minimalista, ele imagina apenas a possibilidade de fundir silhuetas. Nos ombros há ombreiras gigantes apontadas para o alto, como chifres, que deformam a imagem de quem veste.

Foi sobre esse banho de sangue, mas o dos animais abatidos para virar bolsas e roupas, que a maior crítica do sistema de produção da moda versou nesta segunda-feira (2). Stella McCartney riu da indústria ao levá-la ao templo da nobreza, a Ópera de Paris, para ela ser recebida por animais de pelúcia que, de jeito fofo, tiravam fotos com os convidados. Era um protesto, uma espécie de piada embebida do humor tão britânico quanto a estilista.

Muitos desses fashionistas estavam paramentados com acessórios feitos da mesma carcaça da vaca, do coelho, do crocodilo, da raposa e do cavalo que os recebiam.

McCartney é considerada, hoje, a precursora da moda sustentável no mercado de luxo. Quando toda a moda agora fala em rever seus métodos de produção para zerar emissões de carbono, eliminar o uso de água na lavagem das peças e outras boas práticas, ela apontou nesta coleção o que poucas grifes ainda têm coragem de deixar para trás.

O “couro” costurado às barras das capas, os pelos que compuseram os casacos de “pele”, o tecido sedoso que embalava os conjuntos de calça e blusa do tipo pijama e o “cashmere” dos robes atoalhados eram iguais a boa parte do discurso sustentável em voga na moda. Falso.

Em uma das coleções mais veganas e, possivelmente, sustentáveis já feitas por uma grife de luxo —ela extirpou até o PVC da confecção dos acessórios.

Seu maior feito na moda, agora exposto com todas as modelagens e materiais possíveis, foi ter provado que sustentabilidade não significa usar o padrão bege, sem graça e pouco inventivo ao qual ele foi vinculado no passado.

McCartney explora sua experiência nos ateliês da Savile Row, o templo da alfaiataria londrina, para criar terninhos, roupas soltas e visual confortável que em nada lembram esse estereótipo verde. E ainda acrescenta a ele um frescor artístico, porque nesta coleção ela se uniu ao espólio do ilustrador Erté (1892-1990) para pincelar nos looks imagens do trabalho do artista.

Uma das poucas vozes da moda que condenou o desmatamento da Amazônia antes mesmo de a floresta ter queimado como poucas vezes se viu —por isso, a designer virou quase a estilista oficial dos longos usados pela modelo “verde” Gisele Bündchen—, McCartney distribuiu mudas de árvores.

É que se os pedidos da ciência para que a moda mude suas práticas não funcionam nem com a reza brava de Kanye West, pode ser que uma planta grifada aguce e a adoce a consciência do mundinho.

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