Descrição de chapéu The New York Times

Galerias de arte respondem ao surto do coronavírus com exposições online

Mostras virtuais substituem eventos que foram cancelados por causa da pandemia da Covid-19

Robin Pogrebin
The New York Times

Em 2017, depois de perceber quantos negócios sua galeria fechava por meio de mostras online antecipadas, antes da abertura de feiras de arte, o marchand David Zwirner decidiu desenvolver salas de exposição online.

Atualmente, com o cancelamento de feiras de arte, fechamento de museus, e as casas de leilão considerando a possibilidade de adiar seus leilões do segundo trimestre, em resposta ao coronavírus, a atitude de Zwirner parece presciente.

Esta semana, a Art Basel pela primeira vez oferecerá salas de exposição online, para substituir a feira que realizaria em Hong Kong neste mês e foi cancelada devido à pandemia. Mais de 230 negociantes de arte que planejavam levar obras à Ásia oferecerão, em vez disso, algumas das cerca de 2.000 peças cuja presença estava prevista, com valor estimado em US$ 270 milhões, ou R$ 1, 3 bilhão, por meio de uma feira virtual, que envolverá 70 itens com preço superior a US$ 1 milhão, ou R$ 5 milhões.

Galerias em todo o território dos Estados Unidos estão considerando exibir trabalhos na internet e organizar exposições online montadas por curadores.

Feira contemporânea Art Basel em junho de 2019
Feira contemporânea Art Basel em junho de 2019 - Fabrice Coffrin/AFP

O futuro “chegou muito antes do esperado”, disse Zwirner. “Se as galerias estiverem fechadas, de que forma poderemos vender arte? A plataforma online é algo que imaginamos como uma parte importante do que fazemos.”

“É engraçado perceber o atraso do mundo da arte, se comparado a outras experiências de varejo”, acrescentou.

Muita gente dirá que uma sala de exposição online não é capaz de substituir a experiência de ver um quadro ou escultura de perto, em primeira mão. Mas colecionadores se acostumaram a comprar peças após verem imagens em PDF do trabalho, oferecidas por galerias confiáveis.

Tanto as galerias quanto as casas de leilão já realizaram algumas vendas significativas com base em imagens postadas no Instagram. E, quando visitar uma obra de arte em pessoa se torna impossível, um substituto digital é melhor do que não ver a peça.

Alguns apontam para os benefícios que as salas de exposição online podem oferecer, como o contexto histórico em forma de ensaios acadêmicos que acompanham as imagens; a capacidade de atingir colecionadores que não têm facilidade para viajar a galerias ou feiras de arte e o impacto ecológico muito menor, porque o método elimina o transporte e as viagens para feiras de arte.

As feiras de arte online também poderiam fomentar uma potencial democratização ao remover o fator de intimidação que visitar uma galeria ou casa de leilões acarreta e, ainda mais notável, revelar preços sobre os quais o mercado da arte costuma ser opaco.

“Será preciso ver as coisas em pessoa, em algum momento”, disse a artista Lisa Yuskavage. “Mas a disseminação agora é digital, e isso tem um lado positivo. Ninguém precisa saber que uma pessoa está vendo as peças. Não é preciso ser comprador de arte para visitar as salas de exposição.”

Marc Spiegler, diretor mundial da Art Basel, disse que a transição rápida para salas online de exposição –que estão disponíveis para convidados especiais desde quarta-feira (18) e para o público geral a partir de sexta (19)– só foi possível por causa de uma decisão tomada algum tempo atrás de desenvolver salas virtuais a fim de suplementar a experiência de uma visita à feira. “A infraestrutura já estava instalada”, disse ele.

Experiências de compra virtual como essa podem se tornar cada vez mais necessárias para o mercado da arte, tendo em vista as restrições atuais à congregação de pessoas em espaços públicos. A feira Tefaf Maastricht fechou no começo da semana passada, depois que um expositor foi identificado como contaminado pelo coronavírus.

A Art Cologne, a mais antiga das feiras de arte do planeta, foi adiada de abril para novembro. Determinar se a Tefaf New York acontecerá em maio, como planejado, ou se a Art Basel acontecerá em junho na Suíça, ainda não é possível, mas a realização desses eventos parece improvável se negociantes de arte europeus estiverem impedidos de entrar nos lugares em que eles acontecem.

Depois que o museu Metropolitan em Nova York anunciou a decisão de fechar as portas temporariamente, em 12 de março, o restante do mundo da arte caiu como uma fileira de dominós, com um grande museu após o outro seguindo o exemplo da instituição, assim como praticamente todas as galerias –ainda que algumas tenham mantido as portas abertas, mas apenas para visitas agendadas.

As galerias estão se ajustando a essa nova realidade. Nem todos os participantes da feira de arte de Hong Kong participam da versão online do evento (Spiegler calculou que cerca de 85% dos expositores estejam participando).

Algumas galerias estão encorajando potenciais frequentadores a “visitar e explorar as exposições online”, como anunciou a Van Doren Waxen em um email recente no qual anunciava seu fechamento temporário, “e a exposição de Richard Diebenkorn que está acessível”.

A galeria Jack Shainman, em Manhattan, disse em seu anúncio que ”visitas digitais” a mostras das artistas Becky Suss e Vibha Galhotra “estão disponíveis para os interessados”.

Ainda que a Acquavella vá operar uma sala de exposição na feira online, essa galeria de arte de alto preço não se apressou em embarcar no trem digital. “Com certeza pensamos a respeito, mas não tomamos as medidas necessárias para fazê-lo da maneira apropriada”, disse Nick Acquavella, um dos sócios da galeria. “Não queremos manter as mentes fechadas quanto a algo novo que poderia ser benéfico, mas também não queremos estar na vanguarda da mudança.”

A expectativa talvez seja a de que os artistas não demonstrem muito entusiasmo por terem suas peças compradas como se fossem roupas ou sapatos (ainda que, por enquanto, não seja possível clicar e comprar, já que os interessados precisam contatar a galeria por email). Diversos deles se declararam intrigados por essa nova fronteira.

“É uma sensação muito pessoal, muito íntima”, disse o artista Jeff Koons sobre as salas de exposição online. “Adoro ver as imagens. Ver a imagem de uma pintura de Manet online me faz tão feliz quanto vê-la em pessoa. O que importa é o estímulo que a peça causa.”

“É claro que ver o original é ótimo, mas às vezes a iluminação pode não ser tão boa”, acrescentou. “Sempre haverá prós e contras quanto a tudo, mas o aspecto positivo de ter essas plataformas é que elas são boas para o diálogo da arte.”

A galeria Pace, que começou a oferecer salas online a convidados no ano passado, na segunda-feira (16) as abriu ao público, começando por obras do artista Sam Gilliam. O espaço cultural levará adiante o processo com uma série de exposições online temáticas, entre as quais mostras de cerâmica e fotografia, durante o fechamento temporário de sua sede física.

Zwirner operou 50 salas de exposição virtuais nos três últimos anos e disse que as vendas online aumentaram em 400% no ano passado.

A exposição virtual da galeria para a Art Basel Hong Kong –sua maior até o momento, com obras em valor total de mais de US$ 16 milhões, ou R$ 82,2 milhões– mostrará um novo trabalho de Koons, assim como obras de Noah Davis, Marlene Dumas, Kerry James Marshall e Alice Neel.

E, embora as vendas online em geral envolvam trabalhos de preços mais baixos, em junho a mostra Basel Online de Zwirner exibiu mais de 20 peças com valor total superior a US$ 5,6 milhões, ou R$ 28,8 milhões, incluindo trabalhos novos de artistas como Yuskavage e Jordan Wolfson, e outros antigos de pessoas como Donald Judd e Dan Flavin. Uma escultura de abóbora de Yayoi Kusama foi vendida online por US$ 1,8 milhão, ou R$ 9,2 milhões.

As salas de Zwirner já incluem vídeos dos profissionais trabalhando nas peças em seus estúdios; o site também oferece links para podcasts dos artistas.

Esses atrativos adicionais têm seu custo e, portanto, não estão disponíveis com tanta frequência nas pequenas e médias galerias, que já enfrentam dificuldade para pagar o aluguel e as taxas de inscrição nas feiras de arte. Mas elas também estão entrando no novo movimento.

A galeria JTT, em Nova York, por exemplo, planejava mostrar quadros de Arca, uma musicista e artista performática, mas em lugar disso está considerando uma performance online dela, na qual as pessoas poderão assistir com o conforto de suas casas.

Scott Ogden, da Shrine Gallery, que divide espaço com a galeria Sargent’s Daughters no bairro do Lower East Side, disse que a crise do coronavíruys havia acelerado seu uso da loja online da galeria –embora ela seja tecnologicamente modesta.

”Para nós, será o Squarespace –uma solução simples e caseira”, disse ele, se referindo ao serviço de construção de sites. “Mas acho que vamos ter que descobrir bem rápido como fazer a coisa funcionar.”

Tradução de Paulo Migliacci

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