Jovens continuam indo para a balada em Berlim, apesar do coronavírus

Centenas de pessoas frequentam festas com pouco espaço e muita gente em áreas de risco

Thomas Rogers Alex Marshall
Berlim | The New York Times

Às 2h desta quinta-feira (12), a pista de dança do Tresor, em Berlim, na Alemenha, mostrava poucas indicações de que o país está sofrendo uma pandemia.

Cerca de 150 pessoas se espremiam no principal espaço do famoso clube de techno, que fica sob uma antiga usina de energia. Poucas pareciam estar seguindo as “dicas importantes sobre o coronavírus” que constavam no cartaz afixado ao lado do posto dos seguranças parrudos, na porta de entrada. Entre as dicas, há “manter a distância” nos espaços confinados e “não compartilhar bebidas”.

Mercedes Sánchez, de 22 anos, estava na casa celebrando o fim de seus exames na escola de medicina, acompanhada por dois amigos. “Sabemos que não é uma ideia assim tão boa, mas imaginamos que viríamos hoje e depois nunca mais”, disse ela.

As pessoas que estavam com Sánchez, segundo ela, vinham tomando as “medidas apropriadas”, como “não tocar em ninguém" e "não fazer novos amigos”.

O plano original era ir ao KitKatClub, disse Sánchez, um clube de fetiches e dança nas imediações, onde não é incomum que os frequentadores façam sexo no local. “Mas achamos que o risco de infecção
seria mais alto lá.”

Tresor, uma casa noturna no centro de Belim, na Alemanha, em 11 de março de 2020
Tresor, uma casa noturna no centro de Belim, na Alemanha, em 11 de março de 2020 - Gordon Welters/The New York Times

Na terça-feira (10), as autoridades municipais de Berlim fecharam todos os teatros, casas de ópera e dança operados pelo Estado.

O Berghain, o maior e talvez mais famoso dos clubes de techno de Berlim, anunciou no seu site na quarta que ficaria fechado até o dia 20 de abril “no interesse da saúde de nossos funcionários, artistas e
convidados”.

Mas, numa cidade na qual as casas noturnas são vistas como parte do tecido cultural e como um importante setor da economia, a ideia de que elas representam uma ameaça, na era do coronavírus, teve respostas contraditórias.

De acordo com um email da Comissão de Clubes, um órgão setorial, existem 140 casas noturnas em Berlim. Quase todas têm capacidade inferior a mil pessoas e, por isso, muitas continuavam em funcionamento, na noite de quarta.

Do lado de fora do Tresor, na madrugada da quinta, alguns dos frequentadores disseram estar cientes dos perigos, mas tentando simplesmente aproveitar as férias ao máximo.

Nicholas Wessel, de 26 anos, que veio de Seattle, nos Estados Unidos, para uma viagem a diversas cidades europeias, disse que decidiu “correr o risco” porque aquela seria sua única oportunidade de visitar um clube em Berlim.

“É a parte de Berlim que todos aprendemos a apreciar”, disse ele, acrescentando que teria sido “triste” não experimentar a famosa cena do techno na cidade.

Duas casas noturnas berlinenses já tiveram seus nomes ligados à difusão do coronavírus. Nove pessoas que estiveram no Reed, um clube no centro da capital, em 27 de fevereiro, foram detectadas como portadoras do vírus, até a terça-feira, de acordo com reportagens na imprensa local, e o mesmo se aplica a 17 pessoas que visitaram o Trompete, outra casa noturna, em 29 de fevereiro.

Jennifer Rohn, pesquisadora do departamento de medicina da Universidade de Londres, afirmou em email que as casas noturnas apresentavam risco especial de transmissão do vírus. “A vida noturna envolve locais superlotados nas pistas de dança, e os frequentadores inevitavelmente suam, o que pode ajudar o vírus a persistir em superfícies que os corpos delas tenham tocado”, disse ela.

As pessoas também precisam chegar mais perto uma das outras para se fazerem ouvir por sobre a música alta, “o que representa uma boa oportunidade para que partículas do vírus saltem para um novo hospedeiro via umidade bucal”, apontou. Fechar as casas noturnas não seria uma reação excessiva, disse Rohn.

Alguns proprietários de casas noturnas berlinenses discutiram a possibilidade de fechar as portas. Lutz Leichsenring, porta-voz da Comissão de Clubes, disse em entrevista por telefone que “os frequentadores são em sua maioria pessoas jovens e saudáveis, e por isso o risco direto não é alto, para elas”. A questão é que podem espalhar o vírus fora dos clubes, para pessoas em maior risco, acrescentou.

As casas noturnas de Berlim já estavam sob ameaça por conta da alta nos aluguéis causada pelo aburguesamento da cidade, disse ele, e muitas faliriam caso precisassem fechar as portas, mesmo que por apenas alguns dias.

“Temos de encontrar um equilíbrio entre evitar a falência e prevenir a doença”, acrescentou Leichsenring.

Nesta quarta-feira (11), a comissão escreveu às autoridades de Berlim solicitando € 10 milhões, ou R$ 54 milhões, para a criação de um fundo de resgate que ajude as casas noturnas que precisam fechar. “É previsível que a difusão do coronavírus leve muitos operadores de casas noturnas à ruína econômica”, a carta afirmava.

Daniel Bartsch, porta-voz do departamento cultural da prefeitura, disse em entrevista por telefone que as autoridades haviam recebido a solicitação e estavam cientes de que “no final disso tudo, haverá um
custo”.

No entanto, ele afirmou que “no momento a saúde pública é a consideração mais importante”.

Nos últimos anos, o governo municipal vem destinando verbas a casas noturnas para ajudá-las a melhorar o isolamento acústico, a fim de evitar reclamações dos vizinhos. Mas a maioria dos estabelecimentos de
Berlim, diferentemente dos teatros e salas de concerto operados pelo Estado, são empreendimentos comerciais, dirigidos sem grande ajuda das autoridades.

A exceção é o Berghain, que foi designado oficialmente como “instituição cultural” por um tribunal local, em 2016, o que significa que a casa paga menos impostos.

Outros países da Europa estão tomando medidas que afetam as casas noturnas, como restringir o número de pessoas autorizadas a se reunir em um lugar. Na terça-feira, a Áustria adotou medidas muito severas,
proibindo todos os eventos realizados em ambientes fechados e envolvendo mais de cem participantes.

Nesta quarta-feira (11), a Dinamarca anunciou limite semelhante.

O Reino Unido –onde o governo ainda não impôs limites a eventos públicos– é uma exceção, com casas noturnas ainda funcionando sem qualquer restrição.

Alex Parsons, porta-voz do Fabric, um bem conhecido clube de Londres, afirmou em email que não desejava “especular sobre hipóteses até que haja ação oficial por parte do governo”.

Leichsenring disse que a Comissão de Clubes de Berlim estava recomendando que as casas operassem com capacidade reduzida a 70%, para que as pessoas tivessem mais espaço para dançar distanciadas, e que a organização estava solicitando que as casas recolhessem endereços de email de todos os frequentadores para que pudesse rastrear pessoas em caso de contágio.

Mas nem todos os dirigentes de casas noturnas concordam com as recomendações da comissão. “O fechamento de todas as casas seria um movimento comum”, disse Fabio Boxikus, um empresário da noite, em mensagem de Facebook ao The New York Times.

Na semana passada, Boxikus e outros organizadores de eventos noturnos com quem ele trabalha decidiram cancelar a festa Gegen, evento muito popular que organizam no KitKatClub.“Não creio que reduzir o público dos eventos a um máximo de mil pessoas ajudará tanto assim. Isso significa que, caso haja uma só pessoa infectada, em duas semanas teríamos mil casos novos”, explicou.

Boxikus acrescentou que era impossível fazer com que os frequentadores mantenham distância segura um dos outros, dentro das casas noturnas.

Do lado de fora do Tresor, alguns frequentadores disseram que fechar os clubes seria exagero. Mieke Schiemann, de Berlim, que disse estar celebrando seu 19º aniversário, afirmou “não ter medo algum” do vírus. “Se vier agora, veio agora; se vier mais tarde, virá mais tarde”, disse. Sua amiga, Maria Gauditz, disse que embora o vírus possa ser desagradável para pessoas mais velhas, “se você tem 19 anos, nem é tão ruim”.

As duas, então, decidiram não ir ao Tresor e interromperam a conversa. Em lugar disso, se aproximaram de um grupo de escandinavos que estava de passagem e decidiriam ir todos a uma outra casa noturna.

Tradução de Paulo Migliacci

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