Descrição de chapéu

Krzysztof Penderecki uniu vanguardas a religiosidade solene

Músico morto neste domingo foi um dos maiores nomes da cena erudita no pós-Guerra

Os 24 violinos são divididos em quatro grupos; as dez violas, em dois, assim como os dez violoncelos e os oito contrabaixos. Uma linha em zigue-zague mostra a ordem de entrada de cada grupo. Não há notas definidas, e o tempo de cada seção é medido em segundos.

Assim é o início da partitura de "Trenódia para as Vítimas de Hiroshima". Seu compositor, o polonês Krzysztof Penderecki –um dos mais importantes nomes da música clássica do pós-Segunda Guerra Mundial– morreu neste domingo (29) aos 86 anos (ele não foi vítima da Covid-19).

A composição, originalmente denominada “8m37s”, ganhou fama após associar sua sonoridade, ao mesmo tempo estruturada e aleatória, às vítimas da bomba atômica lançada sobre a cidade japonesa em 1945 –a expressão “trenódia” se refere a um canto ou lamento fúnebre.

No momento em que Penderecki (pronuncia-se Penderétski) começou a chamar atenção no cenário internacional, duas forças principais dominavam o debate da música clássica –o pensamento estrutural, presente no serialismo radical de Boulez e Stockhausen, e a indeterminação aleatória, que começava a emergir das vanguardas de Nova York por meio de John Cage.

Penderecki não apenas conciliou, a seu modo, as duas correntes, mas resgatou uma religiosidade que parecia fora de propósito –até mesmo “fora de moda”– para os líderes do pensamento musical contemporâneo, mas que nunca deixou de ser fundamental nas culturas eslavas.

De fato, grande parte da produção do polonês é dedicada à música sacra, da “Paixão de São Lucas”, de 1966, à “Lachrimosa”, de 1980, esta última originalmente encomendada para uma cerimônia do sindicato Solidariedade, em Gdańsk, na Polônia, e posteriormente incorporada ao magistral “Réquiem Polonês”.

A escrita gráfica desenvolvida por Penderecki em suas partituras é engenhosa e prática, o que torna mais orgânica a execução de suas obras –ao menos quando as comparamos às de alguns de seus colegas de geração.

Antes de tudo ele grafa o movimento geral da obra, a transformação contínua das texturas, timbres e intensidades, tendo como base o tempo concreto do relógio –ele marca em segundos a duração de cada evento.

Quando necessário, tudo é esmiuçado –aparecem as claves, pequenos pentagramas, e as próprias notas musicais, muitas vezes também com instruções para alterações e distorções. A sonoridade é solene, forte, e ao mesmo tempo escura e melancólica, características que acompanham as suas diversas fases poéticas.

Mesmo quando radical e experimental, sua arte gélida parece exercer uma inesperada atração sobre o público. Há uma autenticidade em Penderecki, que combina com o olhar triste e os passos pesados com que se dirigia ao centro do palco para reger.

Talvez por isso sua música tenha sido tão bem-sucedida no cinema, o que inclui a utilização em trilhas de clássicos como “O Exorcista”, de 1973, e em obras de diretores tais como Stanley Kubrick (“O Iluminado”, de 1980), Martin Scorcese (“Coração Selvagem”, de 1990) e David Lynch (tanto em “Ilha do Medo”, de 2010, e, em 2017, na série de TV “Twin Peaks”). Ele também colaborou com o cinema de seu compatriota Andrzej Wajda.

Em seu período de maturidade, Penderecki passou a evitar os formalismos vanguardistas em nome de um peculiar resgate dos –antes renegados– elementos musicais tradicionais. Emerge daí um contraponto virtuosístico, em obras com camadas estáticas superpostas a uma movimentação ininterrupta, como na “Sinfonia n. 4", de 1989, que ele regeu como convidado da Osesp, na Sala São Paulo em 2017.

Esse programa memorável abriu com o “Hino a São Daniel”, de 1997, escrito para celebrar os 850 anos da cidade de Moscou, com formação de coro, contrabaixos, percussão e sopros (com destaque para clarinetes e fagotes). Mais do que a sua regência, foi a beleza da obra, ela mesma, que deixou o público concentrado, em silêncio total.

Anos antes, em 2012, ele havia dirigido um programa da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde apresentou o seu “Concerto para Viola”, de 1983, escrito para celebrar os 200 anos de nascimento de Simón Bolívar, e a histórica “Polymorphia”, de 1961. A performance foi espetacular.

Nos anos 1970 ele foi professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e ao longo de muitas décadas alternou a composição com a regência, chegando a dirigir 60 concertos por ano em todos os continentes. Esteve muitas vezes na América do Sul, tendo sido próximo do compositor argentino Alberto Ginastera.

Ao lado de Henryk Górecki, Penderecki faz parte de uma geração extremamente influente de compositores poloneses, que obteve amplo reconhecimento internacional.

Sua história passa pela guerra mundial e pela Guerra Fria sob a cortina de ferro. Sentiu na pele a repressão religiosa e vivenciou igualmente as contradições vindas da ascensão de um papa polonês –João Paulo 2°– e dos movimentos sindicais pioneiros em sua terra.

Tudo isso está em sua personalidade poética escura, pesada, extremamente interiorizada.

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