'La Casa de Papel' estreia temporada às voltas com MeToo e coronavírus

Quarta safra da série espanhola, que é líder de audiência no Brasil, chega à Netflix no dia 3 de abril

São Paulo

O coronavírus chegou a “La Casa de Papel”, série espanhola que lança sua quarta temporada no dia 3 de abril. Itziar Ituño, que interpreta a inspetora Raquel Murillo, foi diagnosticada com a Covid-19.

A pandemia também afetou todo o plano de divulgação do seriado no Brasil.

“Deixe o caos começar” parecia um bom slogan em 2019, bem antes de a Organização Mundial da Saúde ter decretado pandemia da doença que já matou milhares. Os trailers para o público brasileiro, no entanto, mantiveram a frase. Só bem depois de o caos ter se espalhado pelo mundo de verdade, a Netflix afirmou que sua equipe de marketing decidiu que o momento atual pedia algo mais adequado. Decidiram por “não existe plano perfeito”.

É comum que as chamadas mudem no decorrer da campanha que antecede as estreias na plataforma
de streaming, haja Covid-19 ou não. Mas, é claro, o contexto é sempre levado em conta.

Mas foi uma outra frase da série que caiu nas graças do público, virou meme e estampa de camiseta —“empieza el matriarcado”, dita pela personagem Nairóbi.

E começou o matriarcado na vida real? “Não”, responde a atriz Alba Flores, que interpreta a dona da frase. “No meu país, na Espanha, nenhuma diretora foi indicada ao Goya [maior prêmio do cinema espanhol, em 2019]. Esse é um sinal claro de que há um longo caminho a ser percorrido.”

Atrás das câmeras, homens dominam cargos de mando no processo de realização desta série. Na conversa num hotel de São Paulo, Flores consegue se lembrar de só uma exceção a essa regra —Cristina López Ferraz, a quem chama de “Titi”, a diretora de produção, premiada pela Academia de Ciências e das Artes de Televisão da Espanha por seu trabalho no ano passado.

“‘La Casa de Papel’ não é uma série feminista na sua essência. O que acontece é que há personagens dentro da série que representam essa maneira de pensar”, diz a atriz.

Na trama, um grupo de criminosos invade a Casa da Moeda espanhola para, a princípio, imprimir € 2,4 bilhões, ou R$ 13 bilhões, fugir com a grana e deixar economistas mais ortodoxos de cabelo em pé.

Mas antes que alguém venha dizer que a premissa da série lembra aventuras monetárias malsucedidas —como o encilhamento de Ruy Barbosa— o ator Pedro Alonso, que interpreta o inclemente Berlim, diz que a equipe de “La Casa de Papel” se encontrou com um ex-dirigente da Casa da Moeda da Espanha que ficou impressionado com o plano do Professor, o protagonista da série.

Na trama, os bandidos usam máscaras de Salvador Dalí e vestem macacões de um vermelho de tonalidade almodovariana. Parecem usar símbolos espanhóis para fazer televisão de um modo mais americanizado —e com isso, a terceira temporada se tornou a estreia mais popular no Brasil em 2019 e foi vista 34 milhões de vezes no mundo, melhor resultado de série em língua não inglesa.

O que não ecoou na Espanha foi o MeToo, pelo menos segundo Alba Flores.

“Temos uma indústria [do audiovisual] muito pequena, e as pessoas botariam o seu trabalho em risco [caso denunciassem assédio]. É muito difícil e requer muito mais coragem para falar. Mas eu confio que isso vai acabar acontecendo.”

La Casa de Papel

  • Quando Estreia no dia 3 de abril, na Netflix
  • Elenco Úrsula Corberó, Itziar Ituño, Álvaro Morte, Alba Flores
  • Produção Espanha, 2020
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.