Descrição de chapéu
Cinema

Max von Sydow foi, sem dúvidas, um dos maiores atores do cinema

Com sua voz, que transmitia força, determinação, sapiência e imposição, o artista dignificava quase qualquer filme

São Paulo

Um cavaleiro medieval, sua espada, uma figura sinistra (a morte) e um tabuleiro de xadrez. Essa imagem, de "O Sétimo Selo" (1957), estampou diversas matérias na internet desta segunda-feira (9), quando surgiu a notícia da morte do ator sueco Max von Sydow, o cavaleiro em questão, de 90 anos.

Essa imagem de incrível força na composição e no uso da luz é capaz de chamar a atenção das mais diversas gerações. É a imagem que resume uma carreira rica em grandes obras e simboliza a força de uma presença diante da câmera. E foi realizada quando o ator tinha apenas 27 anos e estava apenas em seu quinto longa.

O sueco Ingmar Bergman, diretor do filme, foi um dos que mais souberam usar a persona de Sydow em papeis que se aproximavam da figura da morte. Juntos, fizeram 13 filmes, incluindo "O Rosto" (1958) e "Vergonha" (1968).

Sydow também era eclético. Atuou em "Star Wars – O Despertar da Força" (2015), quando a saga já começava a se desfigurar. E "Game of Thrones", série que passou de coqueluche a equívoco em poucos anos. Nada que manchasse sua brilhante carreira, marcada por um dos olhares mais poderosos do cinema.

Mas não é só o olhar do ator que importa. Sua voz é essencial. E a voz de Sydow transmitia força, determinação, sapiência e, quando necessário, imposição. Era uma voz de impacto, mas que permitia, por vezes, papéis de personagens sofredores ou mesmo fracos, como os de "A Fonte da Donzela" (1959) e "Luz de Inverno" (1963), ambos de Bergman.

Em Hollywood, viveu Jesus Cristo em "A Maior História de Todos os Tempos" (1965), de George Stevens. Quem poderia interpretar Cristo melhor do que aquele que enfrentou a morte personificada? Apesar do inchaço da produção e do tema "maior que a vida", o filme resiste com dignidade, em grande parte pela atuação de Sydow.

Metia-se também em fiascos. "Havaí" (1966), de George Roy Hill, é desses mastodontes cafonas que Hollywood fazia com frequência nos anos 1960. A trama, que tem três horas de duração e envolve missionários tentando converter nativos religiosamente, tem no elenco Sydow, Julie Andrews e Richard Harris, mas foi merecidamente soterrado pela história.

Anos depois, Sydow interpretaria o principal padre em "O Exorcista" (1973), grande sucesso de William Friedkin, representante da Nova Hollywood que chegava para enterrar os mastodontes. Ninguém melhor do que Sydow para expulsar o demônio do corpo da menina Regan.

O ecletismo fez com que brilhasse igualmente em filmes populares como "Conan, o Bárbaro" (1982), de John Milius e "007: Nunca Mais Outra Vez" (1983), de Irvin Kershner, ou naqueles que não tiveram o merecido reconhecimento, como "Morte nos Sonhos" (1984), de Joseph Ruben.

E por falar em sonhos, foi nesse mesmo ano de 1984 que Sydow atuou em "Duna", megaprodução malfadada de David Lynch. Trata-se de um filme desconjuntado, mas não de todo mal, em que ele deixa mais uma vez sua marca, mesmo com lentes exageradamente azuladas, que disfarçam seu poderoso olhar.

Um de seus maiores filmes é "Hannah e Suas Irmãs" (1986), o melhor de seu autor, o hoje infelizmente cancelado Woody Allen. Nesse longa de maturidade, Sydow é um professor casado com a irmã interpretada por Barbara Hershey, e a cena em que discutem o relacionamento após ele ter visto um programa sobre o nazismo serve como credencial para premiações.

Em 1992, aliás, protagonizou um dos melhores filmes do irregular diretor polonês Krzystof Zanussi: "O Toque do Silêncio", em que interpreta um compositor erudito que sobreviveu ao Holocausto.

Daí em diante, a lista de longas importantes em que atuou é interminável. Brilhou como coadjuvante em filmes de Scorsese, Spielberg, Wenders. Tornou-se definitivamente um ator internacional.

Foi também diretor, mas seu único esforço por trás das câmeras, "Katinka" (1988), se não é um fiasco, também não alterou em nada a história do cinema.

A força de Max von Sydow estava mesmo na atuação, no olhar intenso e na voz marcante. Era da estatura de um Alec Guiness, com quem podia até ser confundido. Sua presença dignificava quase qualquer filme. É um desses raros atores que podem ser considerados autores.

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