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The New York Times Cinema

Melhores versões de Sondheim na tela são cenas dentro de cenas

Onipresença de alusões ao compositor na cultura pop contrasta com escassez de adaptações diretas

Margaret Lyons
Nova York | The New York Times

No ano passado, parecia que todos estavam fazendo algo de Stephen Sondheim, fosse nos filmes "História de um Casamento", "Entre Facas e Segredos" e "Coringa" ou na série "The Politician".

Foi um momento feliz para os fãs do compositor e letrista, que completa 90 anos neste domingo (22). Mas os exemplos citados estão longe de serem os únicos —seu trabalho parece onipresente na TV e no cinema.

Sondheim fez uma participação especial em "Os Simpsons", e há um episódio de "South Park" que o imagina "conversando com os manos". Os títulos dos episódios de "Desperate Housewives" são todos nomes de canções de Sondheim, e Andy canta "Sweeney Todd" em "The Office".

Há também homenagens e sátiras do trabalho dele. As séries "My Little Pony: A Amizade É Mágica" e "Crazy Ex-Girlfriend" o citam diretamente.

Ser obcecado por teatro não é requisito para quem quer ser roteirista, mas tampouco atrapalha. E o nome Sondheim é sinônimo de teatro musical erudito de uma forma que nenhum outro autor é —existe um motivo para que Niles e Frasier briguem sobre definir o trabalho do compositor como "ópera leve" ou não na série "Frasier".

A onipresença das alusões a ele é especialmente interessante em contraste com a relativa escassez de adaptações diretas. (Ou trabalhos originais de Sondheim para as telas, como o intrigante mas obscuro especial para televisão "Evening Primrose", de 1966.) Se você quiser, pode assistir aos filmes "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" ou "Caminhos da Floresta". E com certeza existem obras muito piores. Mas também existem outras muito melhores.

A razão pela qual muitas das adaptações de Sondheim não funcionam na tela é a mesma por que truques de mágica e fogos de artifício tampouco o fazem —o esforço é parte do ato, o choque da coisa, o deslumbramento.

No cinema, as coisas devem parecer bonitas, e Meryl Streep em "Caminhos da Floresta" pode repetir a história sobre os nabos tantas vezes quanto precisar. Quero uma bruxa que se esforce para fazer a cena funcionar na minha frente, sem rede de segurança, sem cortes, sem segundas tomadas.

Os filmes não são capazes —ao menos via de regra— de transmitir a agrura vívida e direta da existência. Atores e plateias de teatro têm um pacto diferente daquele que se dá entre os intérpretes e espectadores de filmes, seja em casa ou nas salas de cinema. Um feito de força transcendental, no palco, na tela não passa de um instante vítreo.

Uma outra camada é necessária. É por isso que alguns dos melhores desempenhos de trabalhos de Sondheim na tela não são adaptações diretas, e sim personagens que apresentam uma cena dentro da cena.

Não estamos falando de Adam Driver como Bobby, mas como Charlie em "História de um Casamento". Não consigo imaginar uma produção adolescente bem-sucedida de "Company", mas Anna Kendrick como a vingativa Fritzi cantando "Ladies Who Lunch" no filme "Camp" cria grandeza nesse choque de mundos.

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Anna Kendrick canta 'Ladies Who Lunch', de Steven Sondheim, no filme 'Camp' (2003) - Divulgação/iMDb

Talvez um filme baseado em "Follies" pudesse ser bom, ou talvez fiquemos melhor com Hugh Grant como o vilão de "Paddington 2" apresentando uma versão penitenciária reluzente de "Rain on the Roof", do mesmo espetáculo.

Richard Linklater está filmando uma adaptação de "Merrily We Roll Along" cuja filmagem levará 20 anos, como ele fez com "Boyhood - Da Infância à Juventude". Já existe, porém, um filme perfeito sobre a peça, o documentário "Best Worst Thing That Ever Could Have Happened".

E, falando em acrescentar segundas camadas, "Merrily We Roll Along" fala de otimismo juvenil que se transforma em amargura e alienação na meia-idade, por causa das armadilhas do sucesso do mundo do entretenimento.

Já o documentário sobre o musical fala sobre otimismo juvenil atropelado por um fracasso retumbante e grosseiro, que vira sabedoria e aceitação na meia-idade. O espetáculo funciona em cronologia reversa, e o filme também, de alguma maneira, ao mesmo tempo hagiografia e canonização. E o fracasso que se acabou amado virou um filme sobre o fracasso.

Tradução de Paulo Migliacci

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