Morre Ulay, que viveu relação simbiótica com Marina Abramovic, aos 76 anos

Radicado na Eslovênia, fotógrafo fez de seu relacionamento com a artista uma performance

São Paulo

O artista alemão Ulay, ex-companheiro da sérvia Marina Abramovic, morreu aos 76 anos em Liubliana, na Eslovênia, por complicações de um câncer linfático. A informação foi confirmada nesta segunda (2) por sua galeria, Richard Saltoun.

É Ulay —cujo nome de batismo é Frank Uwe Laysiepen— que aparece retratado em um das performances mais conhecidas de Abramovic. Nela, a artista se posta, completamente vulnerável, diante de um homem que aponta uma flecha para ela.

Homem segura arco e flecha apontado para mulher
Marina Abramovic e Ulay na performance 'Rest Energy' (energia de descanso), de 1980 - Reprodução/MoMA

A obra é parte de uma série batizada de “Relation Works”. Concebidas ao longo dos 12 anos em que o casal conviveu, quase todas elas envolviam as ideias de perigo e resistência e tinham como objetivo anular egos, de modo a tornar Abramovic e Ulay uma única entidade artística.

Outras performances da série envolveram os dois ajoelhados um em frente ao outro, tapeando-se mutuamente com violência crescente, ou sentados em cadeiras opostas por sete horas diárias.

Também o término do casal foi representado numa performance. Em 1988, cada um deles partiu de um extremo da Grande Muralha da China —Ulay do deserto de Gobi, e Abramovic do mar Ocidental (mar Amarelo). Andaram quase 2.500 quilômetros cada um. Ao se encontrarem, no meio do caminho, se despediram quase sem palavras.

Ulay começou a carreira no fim dos anos 1960, em Amsterdã. Antes e depois da parceria com Abramovic, ele baseou sua prática na fotografia, encarada como instrumento de investigação e transformação da identidade.

Um de seus trabalhos mais famosos é uma série de autorretratos em Polaroid em que ele se traveste e se automutila. Nos anos 1990, voltou suas lentes para assuntos como nacionalismo, racismo e desigualdade e os indivíduos marginalizados pela sociedade.

Em 2010, o artista surpreendeu Abramovic ao sentar em frente a ela na performance “O Artista Está Presente”, no Museu de Arte Moderna, o MoMA, em Nova York.

A artista sérvia Marina Abramovic, na performance "A Artista Está Presente", no MoMA, em Nova York, em 2010, e Ulay, com quem viveu entre 1976 e 1988 - Scott Rudd/Divulgação

Um ano depois, ele foi diagnosticado com câncer. Um documentário sobre a convivência de Ulay com a doença, “Project Cancer”, foi lançado em 2013 pelo diretor esloveno Damjan Kozole.

Em 2015, Ulay processou Abramovic sob a alegação de que ela não tinha o creditado devidamente em parte de seus trabalhos conjuntos. Ganhou € 250 mil (R$ 912,5 mil à época), mais os custos da defesa, segundo o jornal The Guardian.

Abramovic lamentou a morte do artista no Instagram. “Ele foi um artista e um ser humano excepcional, cuja ausência será profundamente sentida. Neste dia, é reconfortante saber que sua arte e seu legado viverão para sempre.”

A galeria de Ulay, Richard Saltoun, também homenageou o artista nas redes sociais. “Ulay era o espírito mais livre de todos —um pioneiro e provocador com uma obra radical e unica na história, operando na interseção entre a fotografia e abordagens conceituais da performance e da arte corporal. Sua passagem deixa um gap momentâneo no mundo —que não será facilmente substituído.”
 

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