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Televisão

Na ditadura militar, praga que tirou novela do público não foi um vírus, mas a censura

'Roque Santeiro' foi vetada pelo regime e só estreou dez anos depois, com recorde de audiência

Boni pensou que estava tendo um derrame e foi levado ao hospital. O todo-poderoso da Globo havia acabado de acompanhar, pela TV da sua sala, o anúncio feito no Jornal Nacional de que a nova novela das oito, que estrearia naquela noite, não iria ao ar. Em 27 de agosto de 1975, a praga que tirou do público seu programa preferido não foi o coronavírus, mas a censura.

O veto a “Roque Santeiro” pela ditadura militar era inédito. Nunca uma novela das oito, principal produto da televisão brasileira, havia sido proibida por completo, às vésperas de estrear. No sofá, o público ficou em choque.

Hoje, 45 anos depois, sejamos ou não telespectadores de novela, é um soco no estômago assistir a esse capítulo sem precedentes no qual um vírus obriga a Globo a cancelar as gravações de sua novela do horário nobre, “Amor de Mãe”, e ameaça todos os programas de teledramaturgia.

Em vez de saudosismo de “vale a pena ver de novo”, as reprises terão um sabor de remédio amargo.
“Roque Santeiro”, de Dias Gomes, teve de ser substituída às pressas por uma reapresentação compacta de “Selva de Pedra”, de Janete Clair.

O editorial lido pelo âncora Cid Moreira havia sido escrito por Roberto Marinho, dono das organizações Globo. Era o primeiro desentendimento público entre a ditadura e aquela que havia se tornado, justamente naqueles anos, a maior rede de TV do país.

Escancarar aquela censura inédita no Brasil tinha, obviamente, um viés político. Mas, mais do que isso, estava em jogo o maior faturamento da televisão brasileira. E era preciso deixar claro aos anunciantes e aos telespectadores que a culpa havia sido do governo.

No dizer de Boni, não exibir a novela das oito “desmoralizava as nossas competências”.

No hospital, depois de constatar que o que parecia um derrame fora puro estresse, ele só sossegou quando soube que a reprise de “Selva de Pedra” havia ido bem no Ibope.

O editorial que denunciou a censura se encerrou com a promessa de que uma nova novela estrearia “dentro de alguns dias”. Em menos de três meses, entrou no ar “Pecado Capital”, com o mesmo elenco de “Roque Santeiro”. Quem deu conta do desafio de uma produção tão rápida foi Janete Clair, mulher de Dias Gomes.

Naqueles anos 1970, o casal de autores era o pilar da construção da teledramaturgia brasileira, liderada pela novela das oito, que se tornou um patrimônio nacional.

Depois de uma fase inicial da teledramaturgia recheada de roteiros importados e histórias de príncipes e princesas, uma geração de dramaturgos levou à TV tramas próximas do cotidiano nacional, em tom de realismo. Entre beijos apaixonados, passaram a discutir o país. Foi, assim, na instalação da ditadura militar, que a telenovela se consolidou como o principal produto da indústria cultural brasileira.

Todos tinham interesse naquela audiência que chegava a bater 100% das TVs. Os ditadores a consideravam estratégica pelo potencial de integrar o território nacional, o que facilitava o controle político. Autores de esquerda, que eram a maioria, tentavam driblar a censura para criticar a ditadura nas histórias. E as TVs passaram a lucrar como nunca.

Foi só quando a ditadura acabou que “Roque Santeiro” pôde estrear, em 1985, tornando-se a maior audiência da história da televisão. O último capítulo foi coberto pelos jornais como final de Copa do Mundo.

De lá para cá, muito se falou sobre um possível esgotamento das telenovelas diante do crescimento da TV por assinatura e, depois, dos serviços de streaming.

Nesse cenário de novas mídias, a audiência nem poderia ser a mesma, mas ela segue como alicerce financeiro da programação e como um símbolo da identidade nacional.

Se em 1975 o público tomou um susto ao ser informado de que o governo havia lhe tirado a novela, quase meio século e muitas séries depois, é aterrorizante saber que uma pandemia foi tão longe a ponto de suspender a nossa, como se dizia nos anos 1960, “doce epidemia”.

Laura Mattos é jornalista e mestre pela USP, é autora de ‘Herói Mutilado – Roque Santeiro e os Bastidores da Censura à TV na Ditadura’

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