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Naomi Munakata profissionalizou Coro da Osesp e aquietou egos

Maestrina foi um nome decisivo, transformando grupo em paradigma nacional de excelência

No cenário de profissionalização recente e incipiente do canto coral no Brasil, Naomi Munakata foi um nome decisivo, transformando o Coro da Osesp em paradigma nacional de excelência.

Vale lembrar que, quando o maestro John Neschling assumiu a Osesp, em 1997, a secretaria de Estado da Cultura não sabia muito bem o que fazer com o então Coral Sinfônico do Estado de São Paulo, criado em 1994 e visto como grande e ineficiente. Havia propostas de reduzir o efetivo, de 68 para 48 cantores, que, por sua vez, divididos em dois coros de 24 membros cada um, viajariam pelo interior do Estado.

Liderados por Munakata —que dirigia o coro desde 1995— os cantores protestaram. Neschling estava no começo do processo de reformulação que faria da orquestra um exemplo de eficiência e deixou clara a necessidade de um grande coro, para ser parceiro de uma grande sinfônica.

Assim, fez do grupo –que, em 2001, seria rebatizado de Coro da Osesp– seu aliado e parceiro das grandes apresentações coral-sinfônicas que marcariam época na Sala São Paulo —a começar pela própria inauguração do espaço, com a "Sinfonia No. 2", de Mahler, em 1999.

Se a tradição coral brasileira vinha fortemente ancorada em cantores que pareciam solistas de ópera frustrados (berrando para serem mais ouvidos do que os colegas), viviam de outros empregos, e possuíam formação musical escassa, agora se faziam necessárias vozes que soubessem subordinar seus egos aos objetivos do grupo e conseguissem cantar em outras línguas além das latinas.

A solidez no solfejo e na leitura de partituras também se tornou fundamental e possibilitou que o grupo enfrentasse obras complexas dos séculos 20 e 21 —como, por exemplo, as criações do polonês Krzysztof Penderecki, 86.

Sob a direção de Munakata, o Coro da Osesp participou de algumas das mais convincentes gravações da orquestra. Como, por exemplo, a série completa dos "Choros", de Villa-Lobos, para o selo escandinavo Bis, laureada na França com o prêmio Diapason d'Or. Ou o mais recente registro integral das sinfonias do mesmo compositor, para a gravadora Naxos.

Nesses discos, mostrou-se de forma bastante evidente a diferença que faz um grupo que consiga cantar música brasileira com um português idiomático, apresentando as inflexões de nossa língua sem, ao mesmo tempo, transigir em questões como afinação e precisão rítmica. Características que se fazem notar também nos álbuns que o coro, sem orquestra, gravou sob sua regência em 2009 e 2013, trazendo peças de compositores como Aylton Escobar, Camargo Guarnieri e Marlos Nobre, dentre outros.

O compromisso com as apresentações com a orquestra, contudo, não fez Munakata descuidar do repertório solo do coro. Versátil, ela interpretava as partituras renascentistas e barrocas com o mesmo empenho com que se dedicava às obras românticas e modernas que compunham a base dos concertos com a Osesp.

Mesmo com um currículo tão respeitável, após 20 anos de serviços à casa, ela foi demitida da Osesp em 2015 —horas antes da última apresentação da temporada, o oratório “O Messias”, de Handel. No ano seguinte, porém, seu talento seria resgatado por Neschling, que, então à frente do Teatro Municipal de São Paulo, chamou Munakata para dirigir o Coral Paulistano, que ela chefiou até o fim da vida. A maestrina foi ainda diretora da Escola Municipal de Música e professora universitária, empenhando-se em uma atividade docente que é a garantia da continuidade de seu legado.

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