Nova Chanel mostra amor lésbico em Paris e desafia público mais conservador

Marca mostrou um tipo de crítica poucas vezes vista em casas de luxo

Paris

O último dia da Semana de Moda de Paris reservou uma virada histórica para a casa de costura mais tradicional do mundo. A Chanel fez de seu desfile no Grand Palais, em Paris, uma ode ao amor em todas as suas formas ao reler na passarela a moda dos anos 1960, tendo como base estética o casal lésbico do filme "As Corças" (1968), de Claude Chabrol.

Em transe, a plateia acompanhou o salto imagético e a ousadia da nova estilista da maison, Virgine Viard, que assumiu o posto máximo da grife após a morte de Karl Lagerfeld. Ela apontou a ponta da tesoura para o conservadorismo, que, possivelmente, define o comportamento de uma parcela de seus clientes mais antigos, ao mandar as modelos desfilarem em pares e de braços dados, como as personagens Frédérique e Why.

Em alguns momentos, como no final protagonizado pela modelo Gigi Hadid, elas saíram em três, como no triângulo amoroso que o filme desenvolve e que culmina em tragédia.

Parece pouco? Não para uma marca cujas roupas, ainda que no início tenham quebrado paradigmas do guarda-roupa feminino, viraram uniforme das madames e de suas filhas no século 20.

Viard entrega primor para compensar qualquer melindre de sua audiência. Além dos vestidinhos curtos de tweed, ao estilo sessentista, ela explora os códigos da Chanel, como as correntes; os paetês, que desta vez foram bordados nas juntas dos punhos e dos cotovelos das jaquetas; o vestido preto solto, agora aveludado e com mangas bufantes; e os botões brilhantes, que servem de fechos para fendas.

Este outono-inverno 2021 da marca é essencialmente sexy, ainda que pareça coberto demais se olhado de frente. As aberturas das roupas são discretas, só ampliadas pelos movimentos do corpo.

As transparências são localizadas, aparecem no colo e nos vestidos do tipo lingerie com bordados e aplicações pontuais. É uma Chanel opulenta, de ombros fortes, mas jovem e sem os excessos calculados de Lagerfeld.

Discípula do "kaiser", que, aliás, acaba de ganhar um livro sobre sua trajetória ricamente adornada em pérolas como as correntes das bolsas apresentadas nesta terça, Viard parece solta e menos agarrada ao legado do ex-chefe.

Sentiu-se livre para embutir na coleção um tipo de crítica poucas vezes vista em casas de luxo, dependentes de mulheres dos mais diversos perfis, só que com contas bancárias similares. Desagradar não está nos planos de nenhuma marca, mas, a Chanel parece entender, não são tempos para manter os olhos vendados.

As cruzes bordadas em ouro, pedras e bijoux coloridas remetem à estética do período bizantino, um tempo majestoso para a arte, da qual ela se apropria, mas de pouca permissividade para o diferente.

Esse peso da Igreja colado aos corações, tanto na frente da roupa quanto nos colares, já foi visto em coleções de estetas do passado, a exemplo de Lacroix dos anos 1990. Porém, é uma evidência de que a estilista pode, verdadeiramente, escrever um novo capítulo na história da Chanel, que, por sua vez, voltará a cutucar feridas da burguesia e ajudar a libertar mulheres presas ao espartilho da condescendência --como um dia Gabrielle "Coco" Chanel fez.

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