O show deve continuar? Na Broadway, em NY, o coronavírus não vai deixar

O fechamento será mais longo do que paralisações causadas por greves, nevascas e até os ataques de 11 de setembro de 2001

Michael Paulson
Nova York | The New York Times

O adágio é sinônimo da Broadway: o show deve continuar.

E por décadas, em meio a guerras e recessões, e a momentos de escuridão de toda espécie, a Broadway, o coração do setor de teatro dos Estados Unidos e a principal fonte de renda de muitos artistas, continuou a erguer as cortinas e acender os holofotes a cada dia.

Mas na quinta-feira (12), diante da difusão cada vez mais ampla do coronavírus e de novas limitações a eventos com grande número de espectadores, o setor teatral anunciou que estava suspendendo as apresentações de todas as peças e musicais por 32 dias. A medida entrou em vigor imediatamente.

“A ideia de que nossas veneráveis e majestosas casas estão às escuras e de que as luzes não se acenderão na Broadway... Sei que é romantismo meu, mas isso é o coração da cidade; pensar que elas foram forçadas a se apagar é chocante”, disse Patti LuPone, uma reverenciada estrela da Broadway, que ganhou dois prêmios Tony e estava trabalhando na pré-temporada de uma remontagem do musical “Company”. “Estou chocada por eles terem decidido seguir esse caminho, mas também grata por o terem feito, já que o objetivo é defender a nossa saúde”.

O fechamento —cuja duração será superior à de paralisações causadas por greves, nevascas e até mesmo os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001, em décadas passadas— inevitavelmente custará dezenas de milhões de dólares aos investidores e artistas, e às empresas relacionadas ao setor de teatro, e deve causar o encerramento de algumas peças e musicais, que não serão capazes de sobreviver aos prejuízos e ao tempo perdido.

A decisão surgiu quando o governador Andrew Cuomo e o prefeito Bill de Blasio, de Nova York, adotaram novas restrições a fim de tentar deter a difusão do vírus, que já infectou quase cem pessoas na cidade, um número que deve crescer.

Autoridades estaduais e municipais proibiram quaisquer eventos com público superior a 500 pessoas e exigiram que os espaços menores reduzissem à metade os seus limites de lotação; também impuseram restrições às visitas a casas de repouso. Blasio decretou um estado de emergência, o que lhe confere o poder de tomar medidas como implementar um toque de recolher ou restringir a circulação de veículos, caso as condições se agravem.

Mas as escolas públicas continuarão em funcionamento. O governo mencionou a resistência de muitas crianças ao vírus, e o prefeito expressou preocupação sobre as perturbações que um fechamento das escolas poderia causar.

A Broadway —que ocupa posição central em Nova York e simboliza a cidade— é não só o pináculo do mundo do teatro nos Estados Unidos como um grande negócio. Na temporada passada, o setor faturou US$ 1,8 bilhão (cerca de R$ 9 bi) e atraiu 14,8 milhões de espectadores.

“Não há como estimar os efeitos plenos dessa medida sobre o setor, ainda, mas nossa prioridade tem de ser o bem-estar das audiências e de nossas famílias na Broadway”, disse Thomas Schumacher, presidente da Disney Theatrical Productions (que responde por “The Lion King”, “Aladdin” e “Frozen”), e da Broadway League, a organização setorial do teatro nova-iorquino.

O fechamento dos teatros, que a Broadway League anunciou que duraria até 12 de abril, surgiu depois de uma série de fechamentos de instituições culturais, em todo o território dos Estados Unidos e em outros países do planeta.

Na manhã de quinta-feira, diversas das maiores e mais prestigiosas instituições culturais de Nova York —entre as quais o Museu Metropolitan, o Museu Guggenheim, a Metropolitan Opera, o Carnegie Hall e a Filarmônica de Nova York— anunciariam que fechariam as portas temporariamente. Ao mesmo tempo, a Live Nation Entertainment e a AEG Presents, as duas grandes companhias que dominam o setor de shows musicais, suspenderam todas as apresentações que seus artistas tinham marcadas na América do Norte.

Na Ásia e na Europa, muitos espaços de espetáculos já tinham suspendido as atividades; nos Estados Unidos, casas como o 5th Avenue Theater, de Seattle, o Center Theater Group, em Los Angeles, e também o Kennedy Center, de Washington, cancelaram apresentações.

O setor de teatro vinha mantendo a esperança de evitar um fechamento coletivo, e havia tomado medidas para reduzir o risco de infecção, instalando recipientes para oferecer desinfetante ao público, limpando os assentos com frequência maior, restringindo as visitas aos bastidores e as interações com os artistas na entrada do teatro, e até mesmo cancelando o refil de refrigerantes em copos usados.

Mas a Broadway enfrenta diversos fatores de risco —muitos de seus espetáculos atraem um público mais velho, e pessoas mais velhas parecem especialmente suscetíveis ao coronavírus; o setor depende pesadamente do turismo, que está despencando como resultado da pandemia; e seus teatros, por mais adoráveis que sejam, instalam os espectadores em espaços apertados, o que torna o distanciamento social que é uma das recomendações básicas para combater a doença essencialmente impossível.

As autoridades de saúde pública vinham alertando com cada vez mais intensidade sobre o risco de reuniões públicas com grande número de participantes, e, depois que uma pessoa que trabalhava como lanterninha de um dos teatros em tempo parcial foi identificada como portadora do vírus, a pressão por um fechamento se intensificou.

O Actors’ Equity Association, sindicato que representa 51.000 artistas e técnicos de palco nos Estados Unidos, vinha expressando cada vez mais preocupação.

“Não há maneira de adotar uma medida como o distanciamento social, para os atores –nosso trabalho às vezes requer que beijemos nossas colegas de elenco oito vezes por semana”, disse a atriz Kate Shindle, a presidente do sindicato. “Embora ninguém desejasse o fechamento dos teatros, ao mesmo tempo as pessoas estavam começando a trabalhar com medo, e por bons motivos.”

E os produtores de teatro, diante de quedas severas nas vendas antecipadas de ingressos e preocupados com a saúde dos espectadores e de seu pessoal, vieram a concordar.

“Depois de ver a situação se agravando e de acompanhar a mudança do panorama nas últimas 48 horas, a Broadway League tomou a decisão mais responsável”, disse Sue Frost, uma das principais produtoras do musical “Come From Away”, que estava a ponto de celebrar o terceiro aniversário de sua estreia. “Temos de proteger nossos empregados e nosso público, e se é isso que precisamos fazer, é isso que precisamos fazer”.

O setor queria que Cuomo ou Blasio ordenasse o fechamento, por conta de uma avaliação generalizada de que as apólices de seguro dos espetáculos só garantiriam a cobertura dos prejuízos caso a suspensão das atividades tivesse acontecido por decisão do governo.

E na tarde de quinta-feira, Cuomo atendeu, ordenando a suspensão de qualquer evento com mais de 500 participantes. A ordem abarca todos os 41 teatros da Broadway —casas de espetáculos que, por definição, devem ter mais de 500 assentos. A maioria delas acomoda mais de mil espectadores.

Cuomo anunciou que as restrições às atividades da Broadway entrariam em vigor às 17h da quinta-feira, o que forçou a suspensão temporária das temporadas de 31 peças e musicais em cartaz, de favoritos do público como “Hamilton” e “The Lion King” a novos musicais como “Six”, cuja estreia aconteceria na noite de quinta-feira. Diversos teatros colocaram cartazes informando sobre como obter a restituição do valor dos ingressos (que em muitos casos acontecerá automaticamente, para aqueles que tenham pago com cartões de crédito em sites oficiais dos teatros), e sobre como trocá-los por entradas para novas datas.

Blasio, ao anunciar a medida, disse que as restrições eram necessárias mas difíceis. “É muito, muito doloroso para as muitas, muitas pessoas que trabalham no ramo, e igualmente para tantos nova-iorquinos e pessoas de todo o país que aguardam ansiosamente pela oportunidade de ir a esses eventos, esses shows, esses eventos esportivos. Isso vai deixar um vazio em nossas vidas, e será realmente doloroso”, ele disse. “Não é algo que tenhamos desejado fazer, mas é algo que tivemos de fazer.”

Os teatros da Broadway mantiveram as portas abertas durante a epidemia de gripe de 1918. Mas em anos mais recentes eles fecharam temporariamente devido a questões trabalhistas, tempestades e os ataques terroristas do 11 de setembro. A maioria desses fechamentos durou pouco. (Instada pelas autoridades, a Broadway reabriu dois dias depois dos ataques de 2001.) Em 2007, porém, muitos teatros passaram 19 dias fechados devido a uma greve dos técnicos cênicos; em 1975, uma greve de músicos resultou em um fechamento de 25 dias.

A suspensão foi anunciada em meio a uma apresentação de matinê do duradouro espetáculo “The Phantom of the Opera”. (Outra matinê marcada para a quinta-feira, a de “Moulin Rouge”, já havia sido cancelada porque um membro do elenco estava se sentindo adoentado, e a companhia ficou alarmada.)

No saguão do Majestic Theater, onde “Phantom of the Opera” está em cartaz desde 1988, os trabalhadores pareciam carrancudos, sabendo que a apresentação seria a última até abril. Jim McIntosh, que trabalha como bartender na Broadway, serviu seu último drinque durante a matinê e disse que seus sentimentos eram contraditórios. “Ainda que o fechamento me prejudique financeiramente, é um alívio, de certa forma”, ele disse. “Melhor prevenir que remediar.”

A suspensão acontece em um momento complicado para a Broadway, que tinha 16 estreias marcadas entre a quinta-feira (“Six”) e o dia 23 de abril (“Take Me Out”). Esta última é a data de corte para a estreia de espetáculos que desejem se inscrever para os prêmios Tony de 2020, cuja entrega acontecerá dia 7 de junho. Com a suspensão das apresentações, executivos do setor teatral reconhecem que esse prazo, e a data da cerimônia de premiação, podem ter de mudar.

Dada a duração da paralisação, alguns espetáculos podem optar por cortar os prejuízos e não estrear; alguns produtores disseram antecipar, igualmente, que alguns espetáculos já em cartaz e que estão enfrentando quedas de bilheteria possam optar por encerrar suas temporadas, em lugar de enfrentar a paralisação e reabrir.

Os cancelamentos serão decepcionantes, inevitavelmente, para turistas e moradores locais que confiam na Broadway como fonte de inspiração, entretenimento e arte. Na tarde de quinta-feira, duas visitantes do Brasil, Mariana Marinho e Barbara Anderaos, entraram no Broadhurst Theater para perguntar sobre ingressos para “Jagged Little Pill”, musical construído em torno de canções de Alanis Morissette. Marinho, 36, ama as canções de Morissette desde a adolescência, e as amigas ainda tinham uma semana de sobra para curtir a cultura de Nova York.

Quando perguntaram sobre ingressos e lugares no teatro, um funcionário da bilheteria lhes deu a notícia: todos os espetáculos da Broadway estavam suspensos até o dia 12 de abril.

“Nunca vi um espetáculo da Broadway, e achei que essa seria minha chance”, disse Marinho. “Parece que não”.

Tradução de Paulo Migliacci

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