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Vencedor da Berlinale diz que Revolução Islâmica levou Irã ao isolamento total

Mohammad Rasoulof, diretor de 'There Is No Evil', venceu edição politizada do festival com filme que critica pena de morte

Sara Aridi
The New York Times

Quando “There Is No Evil”, o novo drama do festejado diretor iraniano Mohammad Rasoulof, estreou no Festival de Cinema de Berlim, na sexta-feira (28), o momento foi agridoce para Rasoulof.

Falando com a ajuda de um intérprete antes de seu filme receber o Urso de Ouro, o prêmio máximo do festival, ele explicou que não pôde assistir à première porque foi proibido de sair do Irã e enfrenta a perspectiva de um ano na prisão, resultado da reação do governo iraniano a seu filme anterior, “Lerd”, uma crítica mordaz à liderança religiosa do país.

Castigos como os dados a Rasoulof são lamentavelmente comuns no cinema iraniano contemporâneo, um cenário fértil e internacionalmente respeitado. Porém, apesar das medidas de repressão tomadas pelo governo, cuja aprovação é necessária para filmagens e exibições de filmes, ele e outros diretores vêm externando suas posições mais abertamente em cartas formas, nos palcos de premiações, nas redes sociais e em seus filmes.

Seus protestos se elevam contra um pano de fundo das tensões crescentes na sociedade iraniana.

O clima de desconfiança era intenso em janeiro, quando o comandante da Guarda Revolucionária iraniana, general Qassem Soleimani, foi morto em um ataque de drone americano. O incidente desencadeou receios de uma guerra com os Estados Unidos, exacerbados pelo ataque militar iraniano acidental contra um avião comercial ucraniano que matou todas as 176 pessoas a bordo. Em meio à turbulência, o governo demorou três dias a admitir sua responsabilidade pelo ataque.

Agora, com o aumento dos casos de coronavírus e as informações conflitantes em torno da doença, a credibilidade do governo está sendo questionada novamente.

O período mais recente de turbulência começou em novembro, quando iranianos foram às ruas em todo o país para protestar contra um aumento no preço da gasolina e as forças de segurança usaram armas de fogo para sufocar as manifestações. Centenas de manifestantes foram mortos, mas a população foi avisada de que não devia realizar funerais públicos.

No mesmo mês, mais de 200 profissionais do cinema iraniano, incluindo o indicado ao Oscar Asghar Farhadi (“A Separação”), assinaram carta aberta condenando a censura de “The Paternal House”, drama sobre um “crime de honra”, que foi proibido menos de uma semana após ser exibido no Irã. A carta de protesto foi descrita por um crítico de cinema no Irã como uma das mais explícitas e ásperas de seu tipo.

Desde então, vários cineastas vêm desafiando o governo e falando publicamente sobre os protestos e o avião derrubado. Na entrega dos Prêmios dos Críticos de Cinema Iranianos, em 30 de janeiro, o ator e diretor Homayoun Ghanizadeh dedicou seu prêmio a um engenheiro morto nos protestos de novembro e pediu aos artistas para não se esquecerem dos manifestantes que tombaram.

Rakhshan Bani Etemad, a mais conhecida diretora de cinema do país, foi detida por ter postado uma convocação para uma vigília nacional pelas vítimas da derrubada do avião.

Etemad foi detida e interrogada por algumas horas e acabou retratando sua declaração. "É um ambiente muito difícil no qual ser artista e permanecer fiel à sua visão”, comentou Jasmin Ramsey, diretora de comunicações do Centro de Direitos Humanos no Irã, ONG sediada em Nova York.

A declaração de Ghanizadeh, feita sobre um palco público, com representantes governamentais na plateia, colocou o diretor “em risco tremendo”, disse Ramsey. “Ele corre perigo de todos os tipos.”

Rasoulof disse que a indignação ampla provocada pela derrubada do avião difere de qualquer coisa que ele já tenha visto, levando-o a crer que os iranianos estão externando mais suas opiniões e sua revolta.

“As pessoas superaram pela primeira vez o costume de guardar silêncio sobre as coisas”, disse o diretor. Elas estão “elevando a voz contra as mentiras, a hipocrisia. Não conseguem mais esconder sua raiva.”

A carreira do artista espelha essa fúria crescente. “Para não confrontar o poder diretamente”, explicou Rasoulof, ele usou histórias alegóricas em trabalhos anteriores seus como “The White Meadows”. Mas acabou sentindo que essa era “uma maneira de aceitar o regime tirânico”.

Seus trabalhos mais recentes, como “Manuscripts Don’t Burn” ["Manuscritos não queimam"], baseado na tentativa do governo iraniano de matar escritores na década de 1990, externam suas críticas de modo mais frontal.

Mas essa rebelião tem um preço alto. Em 2010, Rasoulof e o respeitado diretor Jafar Panahi foram detidos enquanto trabalhavam num projeto relacionado à eleição presidencial iraniana de 2009 e sentenciados a seis anos de prisão cada um.

Mais tarde, as sentenças foram reduzidas para um ano, mas até agora nenhum dos dois as cumpriu. Panahi foi proibido de fazer cinema por 20 anos, mas desde então já dirigiu vários filmes premiados.

Rasoulof passou oito dias detido em solitária, incomunicável. Diante do medo do perigo, sua mulher e filha se mudaram para a Alemanha pouco depois.

Em 2017 seu filme “Lerd” recebeu o prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes. Na volta ao Irã, as autoridades confiscaram seu passaporte, o acusaram de propaganda contra o Estado e, em julho, o sentenciaram a um ano de prisão (o Festival de Cannes e outros emitiram uma declaração condenando a sentença).

Alguns cineastas, como o diretor curdo iraniano Bahman Ghobadi radicado em Istambul (“No One Knows About Persian Cats”) ["Ninguém Sabe Sobre Gatos Persas"], optaram por deixar o Irã para trabalhar. Mas há artistas menos conhecidos que não têm recursos para emigrar nem status suficiente para gerar atenção internacional quando o governo os sujeita a castigos brutais.

Hossein Rajabian, por exemplo, foi detido em solitária por dois meses devido a seu filme sobre o direito da mulher ao divórcio no Irã. Mais tarde, foi condenado por três acusações criminais, incluindo a de difundir propaganda contra o Estado, e passou quase três anos na prisão.

O filme em questão nunca foi exibido no Irã. Rajabian o colocou no YouTube antes de ser encarcerado, mas o filme foi removido mais tarde a pedido do Conselho Iraniano de Cinema.

Rajabian recentemente completou um novo filme que pretende lançar online através da BBC Pérsia, para evitar a ação da censura governamental. Falando com a ajuda de um intérprete, ele disse que o filme transmite a desilusão dos jovens iranianos que se sentem aprisionados em seu próprio país.

Ele explicou que depois da Revolução Islâmica de 1979, “a geração anterior prometeu nos trazer liberdade. Mas o que temos, na prática, é o isolamento total do país.”

Tradução de Clara Allain

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