Descrição de chapéu Cinema

Von Sydow jogou xadrez com a morte e teve de Ingmar Bergman a 'Game of Thrones' no currículo

Nenhum ator foi ao mesmo tempo tão pop e tão cult

Estocolmo

“Eu contenho multidões.” Se há alguém que poderia ter usado a frase de Walt Whitman como mantra, esse alguém é Max von Sydow. O ator sueco, naturalizado francês, morto no último domingo, será enterrado com uma bagagem de vida bem maior do que seus 90 anos.

Um dos atores-fetiche de Ingmar Bergman, que ganhou o mundo com o papel do cavaleiro que joga xadrez com a morte em “O Sétimo Selo”, de 1957, Von Sydow fez mais de 120 filmes ao longo da carreira —o último, “Echoes of the Past” está em pós produção.

Nunca foi tão difícil apontar o maior papel de um ator. Quem não se lembra do padre em “O Exorcista”, de 1973? Ou do imperador Ming em “Flash Gordon”, de 1980, seu papel favorito? Quem mais pôde fazer em vida o papel de Jesus —“A Maior História de Todos os Tempos”, de 1965— e também do Diabo —“Trocas Macabras” de 1993? E contracenar com Pelé —“Fuga para a Vitória”, de 1982?

Poucos atores na história do cinema tiveram tanta presença de cena quanto Von Sydow —até por uma questão física. Ele tinha quase dois metros de altura, um rosto longo como seu corpo, brilhantes olhos azuis e uma voz grave inconfundível.

Von Sydow era tão marcante que poderia ter passado a vida toda fazendo figuras icônicas em filmes de fantasia e aventura. E ele, de fato, fez muitas —o rei Osric em “Conan, o Bárbaro”, de 1982, o antagonista de James Bond em “Nunca Mais Outra Vez”, de 1983, um nazista em “Victoria”, de 1981, de John Huston, o sinistro médico de “Minority Report”, de 2002.

Contudo, sua carreira não se limitou a esses papéis. E por uma razão muito simples —Von Sydow tinha um talento de interpretação excepcional. E sua verve de atuação despontou cedo, ao ver, aos 15 anos, uma montagem de “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare. Se foi o cinema que o entregou o mundo, foi o teatro que conquistou Von Sydow e o construiu como ator.

Nascido Carl Adolf von Sydow em 10 de abril de 1929, em Lund, o sueco montou uma trupe amadora de teatro com amigos e, aos 22, adotou o nome Max, emprestado de um integrante de circo de pulgas.

Atuou em teatro e fez alguns papéis menores no cinema, mas sua carreira deslanchou ao ser contratado para o grupo de teatro de Ingmar Bergman em 1955. É da colaboração com o diretor que nasceu o filme marco de sua carreira, “O Sétimo Selo”, encenado, aliás, como peça no início.

Bergman e Von Sydow fizeram 11 filmes juntos. O talento do ator o levou a trabalhar com os maiores diretores —David Lynch em “Duna”, Woody Allen em “Hannah e Suas Irmãs”, Steven Spielberg em “Minority Report”, Martin Scorsese em “Ilha do Medo”, Ridley Scott em “Robin Hood”, Wim Wenders em “Até o Fim do Mundo”, Sydney Pollack em “Três Dias do Condor”— a lista não para.

Von Sydow se consolidou em papéis dramáticos, como o imigrante em “Pelle, o Conquistador”, de 1987, que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar. Foi par romântico de atrizes como Julie Andrews em “Havaí”, de 1966, Liv Ullmann em tantos filmes de Bergman e no potente “Os Emigrantes”, de 1971, Romy Schneider em “Morte ao Vivo”, de 1980. 

Usou a voz grave para construir o essencial prólogo de “Europa”, de Lars von Trier, e a descartou com facilidade para desempenhar um papel mudo em “Tão Forte e Tão Perto”, de 2011, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante.

O ator ainda conseguiu a façanha de renovar sua base de fãs com participações em “O Despertar da Força”, de 2015, na trilogia “Star Wars”, e até na série-fenômeno “Game of Thrones”, fazendo o inesquecível Corvo de Três Olhos. Isso sem mencionar participações em episódios de “Os Simpsons”.

Numa de suas últimas entrevistas, Von Sydow disse não ter “nenhum método patenteado de atuação”. “Tento sempre entender o pano de fundo dos personagens. O que eles querem? Por que agem assim? 
Ainda sou fascinado em por que as pessoas se comportam de forma tão estranha”, disse.

O resultado da fascinação de Von Sydow pelo ser humano ficou registrado em quilômetros de película. Sua voz e imagem estão cristalizados no imaginário do espectador moderno. Nenhum ator foi ao mesmo tempo tão pop e tão cult.

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