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The New York Times Televisão

'A Máfia dos Tigres' causa choque estético ao retratar mundo bizarro

Série documental da Netflix retrata bem a excentricidade dos personagens protagonistas

Jon Caramanica
The New York Times

De todos os choques que a nova série da Netflix sobre crimes reais, “A Máfia dos Tigres”, tem a oferecer –e eles são muitos– poucos são mais singulares, mais estranhamente exóticos, do que as cenas nas quais os protagonistas do programa, especialmente Joe Exotic, o capitão de um zoológico alternativo, interagem com animais.

É uma forma de normalidade inquietante e desorientadora. Como se a televisão na sala de sua casa começasse a se alinhar perfeitamente com a meteorologia do lado de fora. Como se o filtro do Instagram na selfie que você publicou saltasse do celular e se colasse acima do seu rosto real. Ver um tigre no assento do passageiro de uma picape, ou ver Exotic posando para fotos cercado por grandes e perigosos felinos –há algo que não está do jeito que deveria estar.

Duas linhas do tempo que costumam ser paralelas em lugar disso se entrecruzam. É realismo mágico, mas é real.

Os sete episódios de “A Máfia dos Tigres" se tornaram um grande sucesso na Netflix, desde sua estreia há quase duas semanas: uma cascata de momentos espantosos, personagens autênticos e únicos, e reviravoltas de trama às vezes fantasiosas, às vezes criminais, às vezes grotescas.

O programa é filmado de modo seco, muitas vezes com intimidade improvável, e vem embasado por uma quantidade espantosa de documentação em vídeo contemporânea dos acontecimentos que retrata. A série mostra, às vezes alegremente, um comportamento muito dúbio do ponto de vista ético.

Também representa, pela combinação entre animal e humano, uma fonte constante de estética radical e surpreendente.

Praticamente todos os entrevistados são absurdamente decorativos, na forma pela qual escolhem se apresentar. Quase todas as superfícies estão recobertas por estampas animais. Graças ao seu estilo único, sem compromissos, primal e quase bruto, “A Máfia dos Tigres” se tornou a matéria-prima para uma infinidade de memes, inspiração para milhares de fotos. A série quase nunca é visualmente estável –praticamente toda cena é um novo choque.

A absorção da estética animal pelos protagonistas –que na verdade parecem estar se refazendo à imagem de seus companheiros animais– tem importância central entre os atrativos da série.

Sim, o comportamento que o programa documenta é selvagem, mas a maneira pela qual os personagens se apresentam, enquanto se comportam da maneira demonstrada, serve como traço de união –um poço aparentemente inesgotável de excessos que telegrafa a capacidade de escolhas imponderáveis.

Na raiz, há a realeza luxuriante dos grandes felinos –é difícil não se deixar hipnotizar por eles. “A Máfia dos Tigres” adora tomadas langorosas que mostram um animal caminhando por sua jaula determinadamente, de maneira muito muscular.

Os felinos são cobiçados –por apresentadores de programas noturnos de entrevistas que buscam uma atração inusitada, produtores de televisão e de Hollywood, e pessoas comuns que se dispõem a pagar algumas centenas de dólares pela experiência de alguns minutos de convívio e de carícias.

Ao longo da série, os seres humanos e aqueles animais temíveis interagem intima e extensamente, e de certa forma com amor, se é que isso é possível, dado que manter animais selvagens em cativeiro é uma ideia horripilante.

Os felinos também servem de símbolo –de poder, sexo e independência. Jeff Lowe, um sujeito que se descreve como magnata, faz uma parceria com Exotic, e mais tarde, se volta contra ele, falando sobre usar os filhotes de tigre como instrumento para selecionar parceiras sexuais para ele e sua mulher –os felinos são um afrodisíaco, tornando seus proprietários mais sexualmente apetitosos.

Bhagavan Antle, que opera um zoológico privado na Carolina do Sul, monta em um elefante que criou em seu parque e alista uma mulher que trabalha para ele como parceira em um sufocante emaranhado de romance e trabalho.

No caso de Exotic e da ativista dos direitos dos animais Carole Baskin –inimigos dedicados, mas que têm muitas semelhanças surpreendentes–, ambos parecem gostar de se tornarem animalescos.

Baskin, retratada na série como vilã, embora bem intencionada, quase sempre veste roupas com estampas animais. De vez em quando, ela recorre à moda contemporânea. É algo que simboliza simpatia pelos felinos no santuário que ela dirige, um olho para o marketing, e também uma espécie de ilusão, como um esforço por se fazer passar por membro de outra espécie.

Exotic tem algo de mais animalesco –e também demonstra senso de estilo, ainda que de maneira rústica. Ele usa camisas com lantejoulas e calças jeans justas, tem uma falange de brincos de aro, e ostenta no torso tatuagens de marcas de tiros. Quando ele se casa, com dois homens ao mesmo tempo, os três usam camisas iguais, cor de rosa mas em estilo caubói. Em dado momento, ele usa um agasalho com capuz, cujos braços têm listras de tigre pintadas.

O cabelo dele também é feral –de um bege arenoso, com as laterais raspadas rente, e tintura amarela reluzente no topo e na pontinha de seu mullet. Exotic –cujo nome real é Joe Schreibvogel, mais tarde alterado para Joe Maldonado Passage– também é ator coadjuvante, cenarista, cantor country, entusiasta das armas de fogo, candidato improvisado a um cargo político, marido de pelo menos três homens –e mais.

Ele pagou para que um e seus maridos fizesse uma tatuagem na qual se lê “propriedade privada de Joe Exotic" –como se o tivesse marcado a ferro. A vida dele é um ato maravilhoso de autoinvenção.

Inspirados pelos felinos que reverenciam, esses entusiastas se marcam para avaliação externa. Mesmo os personagens secundários o fazem –o administrador de zoológico John Renke e suas pernas prostéticas decoradas bizarramente, estilo motociclista chique (apesar dos problemas de peso) de Lowe. Mesmo Rick Kirkham, ostensivamente o observador neutro, produtor de um reality show sobre Exotic que terminou abandonado, usa um chapéu de safári, como se um leão pudesse aparecer a qualquer instante.

A série também deixa clara a espantosa variedade de produtos com estampas animais que você pode comprar –canecas, toalhas, penteadeiras, travessas, placas para o jardim, armas de fogo e muito, muito mais.

Isso é útil quando você está criando sua realidade. Esses salvadores de animais –quer o zoológico de Exotic em Oklahoma, quer as instalações de resgate de Baskin na Flórida, ou o zoológico de Antle na Carolina do Sul– são ecossistemas autônomos, ou tentam ser.

Os animais exóticos e os empregados desses lugares dependem de entregas de carne ligeiramente vencida, do Walmart, para sua alimentação.

Mesmo as pessoas da série têm dúvidas sobre onde termina a realidade de Exotic e começa as delas. Em uma cena, um tigre o agarra pela perna e começa a arrastá-lo pela jaula. Mas os colegas de trabalho que estão filmando Exotic não interferem, e nem parecem perceber que há algo errado –talvez isso seja normal, na realidade dele?–, até que Exotic saca uma arma e dispara um par de tiros de advertência.

Perturbações como essas são raras, porque Exotic raramente abandona seu personagem. Em dado momento, ele cita o desastre em Waco, no Texas, para discutir o que pode acontecer se as autoridades locais interferirem com seu zoológico. Ele construiu um mundo a seu gosto, em seus termos, e não aceita qualquer intrusão em sua realidade.

Em essência, “A Máfia dos Tigres” é uma saga jurídica: Exotic está preso, tendo sido condenado por uma trama (mal sucedida) para assassinar Baskin, com quem ele brigava há muito tempo. Mas parte imensa do que transcorre acontece bem longe de qualquer tribunal.

Tanto Exotic quanto Baskin são guerreiros habilidosos de internet, recorrendo a vídeos altamente estilizados nos quais eles são os paladinos –a rede funciona como um campo de batalha que eles mesmos criam.

Exotic –uma espécie de herói local, e certamente um herói em sua própria mente– vende camisas, chapéus, roupa íntimas e lubrificantes. Ele é uma marca de estilo em vida. No mundo de Baskin, tudo é felino, incluindo os fãs a quem ela fala ao iniciar cada um de seus vídeos: “Ei, gatinhas e gatões”, diz ela.

E que imenso prazer vicário isso tudo propicia –a autoinvenção visual, a autopromoção descontrolada, a combinação de duas realidades, humana e animal. É um choque bruto. Pena que a realidade real interfira.

Na segunda metade da série, é o que acontece no caso de Exotic. Depois do show, Baskincontinuou a interferir na vida dele, com o vazamento de imagens em que ele parece fazendo comentários racistas.

As batalhas judiciais dele contra Baskin o esgotam financeiramente, suas atividades potencialmente criminosas se expandem, um de seus maridos se mata (o que é descrito como acidental), e outro o deixa. Ele perde o controle de seu zoológico, o feudo do qual era o rei.

Ao longo dos episódios, Exotic telefona para os diretores da série, da prisão, e em geral parece indignado, mas às vezes choroso. Sua realidade lhe foi tirada, e ele não está certo de que conseguirá funcionar na realidade existente para todos.

Tradução de Paulo Migliacci

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