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Coronavírus

Ao vivo de casa, jornalistas erram e acertam na decoração

Lares não se resumem a estantes de livros, cantos fotogênicos ou tristes paredes brancas ao fundo do vídeo

Bruno Simões

Um dos pensamentos recorrentes para muitos que estão há semanas dentro de casa é uma longa lista de pendências do lar —o quadro no chão esperando um prego, aquela planta implorando por um pouco de atenção ou aquele projeto de trocar os móveis de lugar e pintar uma parede. Tarefas que por algum motivo sempre ficam para depois.

Fora, é claro, a real preocupação com os acontecimentos ao redor do mundo relacionados à Covid-19.

Passamos bastante tempo acompanhando as notícias e assistindo a comentaristas de telejornais que, assim como nós, têm se mantido em casa —e é reconfortante perceber que suas casas também são essa mistura imperfeita de acertos e erros, sempre com uma estante de livros para chamar de sua.

Longe dos exageros ou tendências, os recursos à disposição para criar um clima aconchegante nessas transmissões são bastante simples —luz, cor, materiais e natureza.

O que vai ditar o equilíbrio entre os elementos é a proporção do espaço e a imagem pretendida, mas todos são importantes para uma composição que transmita a sensação do todo, uma amostra de como vivemos.

Criar uma cena de luz ideal significa também cuidar de sua sombra —o mais aconselhável é sempre rebatê-la numa superfície neutra ou torná-la difusa. Cuidado também para o fundo nunca estar mais iluminado do que o personagem em primeiro plano, caso contrário o contraste se torna bastante incômodo.

cor e materiais devem ser incorporados em quadro de maneira harmoniosa, com tons e texturas que se complementem, do mesmo modo que uma almofada dá nova vida a um sofá ou um quadro preenche a parede. Outros objetos, como vasos, lembranças de viagem ou plantas também são bem vindos.

O melhor exemplo podemos tirar das transmissões da jornalista Cecília Malan, na Globo, nas quais um único enquadramento consegue trazer um resumo dessa simplicidade.

Ao escolher um canto em ângulo, não um fundo chapado, ela cria uma atraente sensação de perspectiva. A luz natural entra pela janela lateral à mostra de forma uniforme, suavizando sombras e iluminando as plantas. Há ainda objetos e obras de arte.

Talvez a solução mais simples seja mesmo se posicionar diante de uma parede repleta de livros. Mas a verdade é que uma estante bem montada é como uma cenografia da sua vida —e, por isso, exige uma dedicação redobrada.

É necessário equilíbrio, cheios e vazios, diferentes alturas, recortes temáticos, harmonia de cores e objetos simbólicos. Passear por ela é um exercício de memória, atenção, paciência e experiência.

Tornou-se impossível assistir ao colunista deste jornal Gregorio Duvivier em transmissão da casa de sua mãe sem reparar na elegância do belo móvel de madeira com um vinil do Cartola junto aos livros e objetos pessoais.

Por outro lado, isso é levado ao extremo da abstração no embate de altíssimo nível entre Jorge Pontual e Ariel Palacios, na GloboNews, que nos revelam diariamente um universo caótico e instigante nas estantes.

Fico fantasiando o instante em que, para citar um autor ou frase, eles precisam se voltar para trás e encontrar o livro correspondente.

Mas nossos lares não se resumem a um canto fotogênico, muito menos a tristes paredes brancas. E ninguém parece ter entendido melhor isso do que o comediante americano Jimmy Fallon. O genérico cenário televisivo de skyline urbano deu lugar em suas transmissões a uma casa tão exagerada e divertida quanto sua própria personalidade.

Cada segmento do programa mostra um ambiente diferente —desde cômodos em amarelo vivo, com papéis de parede estampados, até um sótão para suas filhas com um escorregador interno.

Nossas casas são abrigos projetados para uma vida que não pode ser definida por estilos ou modismos.

O cuidado com o espaço não é um luxo, mas uma ferramenta a serviço do bem-estar. Se a casa é um reflexo de nossa personalidade, precisamos dialogar mais com ela —e nada melhor do que usar a tela do computador ou celular como um espelho para essa reflexão.​

Bruno Simões é arquiteto, designer e sócio da feira Made

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