Cancelada, SP-Arte informa que só devolverá um terço do investimento de galeristas

Comunicado pegou setor de surpresa; aluguel de um estande pode custar até R$ 100 mil

São Paulo

A SP-Arte comunicou aos galeristas que participariam da feira este ano que não ressarcirá integralmente o investimento deles na feira. Programado para o início deste mês, entre os dias 1º e 5 de abril, o evento foi suspenso por causa da pandemia do novo coronavírus.

Segundo um email enviado às galerias nesta quinta (9), apenas um terço dos pagamentos pelo aluguel dos estandes e por serviços extras serão devolvidos até o fim do mês.

Outro terço será retido para pagar a montagem do evento, que já tinha iniciado quando as medidas de distanciamento social começaram a ser decretadas no país.

A organização lista no texto gastos com, por exemplo, oito quilômetros de paredes construídas, 3.000 lâmpadas de LED e a aquisição das madeiras para construção dos estandes. Eles ainda afirmam que perderam a maioria dos patrocínios e, é claro, a receita da bilheteria.

O terço final será abatido da participação das galerias na feira do ano que vem.

O comunicado pegou de surpresa o setor –outras feiras internacionais suspensas por causa da pandemia, como a Art Basel Hong Kong, que aconteceria em março, ou a Frieze, em Nova York, prevista para maio, devolveram valores de maneira integral. Outras ainda negociam novas datas de realização. O aluguel de um estande na SP-Arte custa, em média, R$ 50 mil, e pode chegar aos R$ 100 mil.

Galeristas questionam se o seguro da feira não cobre uma situação como a do coronavírus. No ano passado, uma tempestade alagou parte do evento, mas a apólice cobriu o prejuízo dos estandes atingidos.

Eles também consideram exagerada a retenção de um terço do investimento para cobrir uma futura participação na feira, diz Thiago Gomide, da Bergamin & Gomide.

"Ninguém quer a SP-Arte endividada. Queremos ela como uma locomotiva do setor. Mas também estamos sem grana, pois não há ambiente de negócios algum [durante a pandemia]. Tem que haver um diálogo para que todos sofram o mínimo possível", ele afirma. "Podemos jogar uma boia salva-vidas, mas não um bote."

Gomide diz que a maior preocupação agora é com as galerias menores, para quem a devolução integral do investimento na feira pode significar uma sobrevida durante a pandemia. Ele diz que ele e representantes de casas estabelecidas buscam negociar com a organização para tornar menores os impactos financeiros dos espaços mais frágeis.

Um galerista que preferiu não se identificar avalia, no entanto, que a unilateralidade com a qual a feira soltou o comunicado explora justamente a desunião do setor. Ele afirma que a feira não teria uma atitude tão dura se acreditasse que as galerias conversam entre si, ou que a Abact, a Associação Brasileira de Arte Contemporânea, a confrontaria.

A organização da SP-Arte informa que está negociando com as galerias de forma individual e que conversa com as associações pertinentes.

Já a Abact diz que ainda está discutindo o tema com seus membros e que deve anunciar uma posição na semana que vem.

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