Descrição de chapéu Coronavírus

Cena eletrônica de SP deve ter público menor e mais DJs nacionais após pandemia

Depois do isolamento, produtores de baladas terão de repensar o formato e reduzir extravagâncias

São Paulo

Esvaziadas pela pandemia do novo coronavírus, as pistas das baladas de música eletrônica de São Paulo se preparam para uma grande mudança depois que o isolamento social acabar.

Os frequentadores deverão dançar mais ao som de DJs nacionais do que de estrangeiros, acentuando o movimento de valorização da cena local. Ao mesmo tempo, segundo profissionais do setor, a crise econômica provavelmente fará com que as festas diminuam de tamanho —mas neste momento não há um novo formato definido.

Quem trabalha com noite encarava 2020 como o ano de saída da crise, com público maior e mais diverso na cena underground paulistana, contava Mafalda Ramos numa live recente. Segundo a produtora das festas Batekoo, Mamba Negra e Sangra Muta, o bom momento já estava acontecendo, com eventos lotados —entre mil e 2.000 pessoas, dependendo da popularidade da balada— mesmo quando estes ocorriam no mesmo fim de semana.

A balada Caos, em Campinas
A balada Caos, em Campinas - Jorge Alexandre/Beats Fotograf

O coronavírus “veio para estremecer tudo isso”, lamentou. “O jeito que a gente produzia não existe mais. Ponto. A maneira em que nos comportamos em aglomerações vai ser muito diferente [depois da pandemia]. É um outro cenário do que é se divertir e estar junto das pessoas.”

Ramos acha pouco provável ver, no curto prazo, milhares de pessoas se encontrando novamente nas festas de techno e de ritmos negros, como hip-hop e trap, que produz, mas ao mesmo tempo se questiona se é possível fechar uma planilha de custos caso as baladas sejam forçadas a diminuírem “para 50 ou cem pessoas”.

O custo com o aluguel de um espaço como a Fabriketa, no bairro do Brás, na região central, por exemplo, somado ao valor do equipamento de som, mais cachês de DJs, performers, iluminadores, seguranças, faxineiros, atendentes do bar e demais funcionários de uma festa gira entre R$ 80 mil e R$ 100 mil.

O lucro para os organizadores costuma ser de 10% a 20% do total investido, mas em alguns casos o evento só se paga. Uma festa menor significará uma estrutura menor, provavelmente com menos atrações e cachês mais baixos.

A duração da quarentena e o fato de estarem de mãos atadas, sem ter o que fazer para as festas voltarem logo, são as maiores preocupações de Davis e Pedro Zopelar, dois dos sócios da festa ODD. “Como vai voltar, quando vai voltar, a gente se adequa, como sempre se adequou. Estamos numa abstinência tão grande que, se tivermos que reduzir a festa para um terço do que ela é, vai ser muito intenso para a gente da mesma forma”, afirma Davis. O público médio da festa é de cerca de 1.500 pessoas por edição.

Marcado para o início de abril, o aniversário de cinco anos da ODD teve de ser cancelado. Sem poder mostrar presencialmente as suas tracks novas para o público da festa, Zopelar diz que o momento não é fácil. Ele diz estar recapturando “as origens do porquê faz musica, a coisa de querer ouvir o som e não só de fazer as pessoas dançarem”. Quando a noite voltar, acredita, deve haver uma ressignificação, uma paixão maior pelas questões da música.

O duo ressalta que neste momento existe uma pressão de produtividade sobre os artistas, como se realizar uma obra-prima fosse obrigação na quarentena. Eles pedem compreensão aos que estão abalados com a situação e, por isso, não conseguem produzir.

Mesmo assim, Davis e Zopelar têm feito lives com sets de mais de cinco horas de duração e se ocupado com o calendário de lançamentos do selo ODD Discos, voltado para talentos nacionais de música eletrônica.

São esses os artistas que devem sair beneficiados da crise, afirma Eli Iwasa. Segundo a DJ e sócia dos clubes Caos e 88, em Campinas, no interior paulista, o prejuízo do mercado de música eletrônica devido à suspensão das atividades aliado a uma maior dificuldade de deslocamento mundial dos DJs fará com que o foco recaia sobre nomes locais.

Iwasa acredita que muitas fronteiras vão seguir fechadas mesmo depois de a pandemia da Covid-19 passar, complicando o trânsito internacional. Com a agenda de apresentações cancelada, a DJ afirma que está conseguindo pesquisar com calma, gravar sets, fazer lives e deixar a criatividade fluir de maneira mais tranquila. “Todos esses conteúdos talvez sejam a coisa mais importante de ser um artista, e às vezes ficam de lado porque a gente depende muito [financeiramente] das apresentações, está sempre na estrada.”

A quarentena tem trazido à tona emoções boas e ruins, acrescenta, o que acaba influenciando positivamente na sua maneira de compor. Quem também aposta na expansão do mercado nacional é a Box Talents —a empresa de bookings responde pela agenda de 30 artistas, entre os quais a estrela Alok, o DJ brasileiro mais popular no exterior.

Segundo o sócio Felipe Lobo, o dólar alto vai dificultar ainda mais as turnês de nomes estrangeiros no Brasil, acentuando uma tendência que se desenha nos últimos sete anos, desde que a moeda
americana começou a perder valor diante do real.

Lobo e seu sócio Victor Sornas também acreditam que as festas vão diminuir de tamanho, com clubes menores se dando melhor num primeiro momento pós-crise. Até as pistas voltarem a encher, a Box tenta desenvolver formas de monetizar as lives de seus artistas, ideia comum na Europa mas ainda pouco usada no mercado nacional.

Uma das possibilidades é a inserção de merchandising durante as transmissões, outra é ter uma empresa patrocinando integralmente uma live em troca de exposição da marca. Lobo cita como exemplo de sucesso a transmissão dos sertanejos Jorge e Matheus, “em que as [marcas] de cerveja são evidentes”. “É como aquele clichê, das épocas de crise saem as melhores ideias”, diz Sornas.

O futuro da balada

Lugares menores
Para evitar aglomerações, pistas devem encolher

Talentos nacionais
Alta do dólar e restrições a viagens podem valorizar DJs brasileiros

Menos atrações 
Para reduzir custos, cachês de profissionais talvez diminuam e eventos extras, como performances, sejam cortados

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