Descrição de chapéu
Livros

Coletânea recupera obra de polonês assassinado pelo nazismo

Apesar de vendidos como contos, textos de Bruno Schulz podem ser lidos como poemas ou partes de um romance

Maria Esther Maciel

Lojas de Canela e Outras Narrativas

  • Preço R$ 54 (224 págs.)
  • Autor Bruno Schulz
  • Editora 34
  • Tradução Henryk Siewierski

As histórias que integram o livro “Lojas de Canela”, do escritor e artista polonês Bruno Schulz, têm a potencialidade de levar quem lê essas narrativas para além das fronteiras do próprio livro.

Sem se furtarem ao registro do cotidiano prosaico de uma família na provinciana Dhohobycz —cidade natal do autor, hoje pertencente à Ucrânia—, as histórias se abrem a um mundo multifacetado, composto de cores, sons, texturas e vertigens.

Caracterizadas como contos, elas podem ser lidas também como partes avulsas de um romance que, entretanto, se desvia das demarcações convencionais do gênero e se deixa contaminar, de forma exuberante, pela linguagem da poesia. Daí que sua coerência enquanto conjunto tenha a ver menos como um todo fechado do que como uma verdadeira constelação.

Recém-publicado no Brasil pela editora 34, com tradução primorosa de Henryk Siewierski e estudo crítico de Angelo Maria Ripellino, o livro chega às livrarias do país acrescido de cinco narrativas, além das 15 que compuseram a publicação original.

Esses textos extras tampouco entraram em sua segunda obra, “Sanatório sob o Signo da Clepsidra”, e há, entre eles, um conto inédito em português, “A Primavera”.

Dessa forma, a obra reinscreve, de forma vigorosa, nos meios literários do Brasil, um dos escritores mais impressionantes do século 20, que nasceu em 1892 e morreu aos 50 anos, assassinado pela truculência nazista, enquanto vivia o auge de sua atividade criativa, tendo lançado só dois livros, em 1934 e em 1937.

Obra de Bruno Schulz
Obra de Bruno Schulz - National Museum in Krakow

Cenas, pessoas e experiências vivenciadas por Schulz nos tempos de infância emergem com intensidade nesses escritos de “Lojas de Canela”, o que evidencia o caráter autobiográfico neles presente. A figura do pai, sobretudo, ocupa longas passagens, adquirindo uma dimensão quase mítica, com sua loucura genial e seu heroísmo solitário.

Mas, longe de circunscrever a vida vivida ao mero registro de fatos, o escritor a transfigura por meio de uma imaginação luminosa que desafia as próprias noções de tempo e de espaço.

Em muitos dos contos, em especial no que dá título ao livro, as horas se desprendem dos ponteiros dos relógios, e as ruas da cidade se tornam inumeráveis. Tudo está em constante movimento.

Não só pessoas, bichos e plantas, mas também objetos e coisas inertes —caso de lençóis, armários, baldes, mesas e bichos empalhados—, que entram no fluxo fervilhante das coisas vivas.

Lugares banais, como um bairro comercial e um quarto desarrumado, por exemplo, adquirem uma dimensão quase onírica na obra. Isso para não mencionar o jardim do conto “Pã”, que pela descrição desmesurada de sua vegetação, torna a paisagem um verdadeiro “paroxismo de loucura”.

Assim, ainda que em diálogo com as vanguardas estéticas e alguns autores emblemáticos de seu tempo, Schulz não deixou de marcar sua singularidade enquanto escritor e mostrar, com sua prosa exuberante, que as coisas comuns e corriqueiras também podem provocar epifanias e assombros.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.