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É Coisa Fina

Ficção mescla viagem a Roma com investigação familiar

Livro de Edgard Telles Ribeiro transporta leitor para Itália

O Impostor

  • Preço R$ 32 (80 págs.)
  • Autor Edgar Telles Ribeiro
  • Editora Todavia

Recentemente, uma repórter de viagem deste jornal me perguntou para onde eu gostaria de ir quando isso tudo acabasse (a quarentena, o medo, meus projetos adiados e, portanto, minhas fontes financeiras sequíssimas), e eu respondi, sem titubear: Itália! Terra do meu avô materno e das minhas lembranças mais bonitas: foi lá que, há 20 anos, pisei pela primeira vez na Europa. Não dá para acreditar que o país mais alegre e receptivo que já conheci é hoje palco de tanta tristeza e despedida.

Comecei então a planejar o futuro (sobretudo como medida para não ficar mais maluca) e a ler ficções ambientadas em Roma e seus arredores. Foi quando descobri “O Impostor”, uma preciosidade escrita pelo diplomata, jornalista e cineasta Edgard Telles Ribeiro e que acaba de ser lançada pela Todavia.

Capa do livro "O Impostor"
Capa do livro "O Impostor" - Reprodução

Apesar das 80 páginas “apenas”, o fôlego necessário para acompanhar a atemporalidade e os saltos geográficos do protagonista (que ora está em um trem em Nápoles com a esposa; ora está em seu escritório, em Ipanema, fumando maconha com o neto adolescente; ora está no consultório de seu monossilábico psiquiatra que só sabe responder “sei”) nos dão a sensação de uma obra, em todos os sentidos, muito maior. Descobrimos que o verdadeiro narrador é o caos transbordante (feito um vulcão!) de um inconsciente cansado de viver sob o chão das certezas e da vida real, farto de ser somente traduzido por atos falhos, sonhos e chistes.

Ainda que jamais saibamos se a viagem à Itália já ocorreu, se está se desenrolando ou se ainda vai acontecer, do que temos certeza é de que um casal, na casa dos 60 e tantos anos, caminha abraçado, escolhendo sorvetes por nomes e cores igualmente belos. Ela, preocupada com o marido que se recuperou há pouco de um AVC, não raro faz as vezes de cuidadora. Ele, intelectual e tradutor de livros policiais franceses, dorme coberto pela lembrança de um pai que “tirava pestanas” na rede de uma fazenda.

A esposa prefere castelos, museus, vistas bonitas para fotografias e uma visita à Bienal; o marido tem como missão “revelar” a história de um antepassado (seu tio-bisavô) que morrera no Vesúvio. Teria esse homem desconhecido, triste, esguio (talvez elegante, tal qual o único terno que o protagonista leva para tomar drinks), caído ou se jogado? Existiria mesmo uma foto amarelada que o tradutor guardou por tanto tempo e depois perdeu? Um dia, seria então o contador dessa história-devaneio, sem nome nesse livro, que cairia no esquecimento dos outros e do que ele próprio pensou e viveu?

Seriam as trilhas paralelas do casal o que chamamos de amor? O tempo em que ficou inconsciente, após seu problema neurológico “ligeiro”, seria como ter mergulhado em uma cratera e, agora, estaria ele imergindo, vivo, “expelido”, diferenciando-se de seus fantasmas e dos que, antes dele, desistiram? Se para todo mundo somos “o outro”, quem é o “eu” de verdade e quem é o impostor? Corto um braço (como no sonho teatral do narrador) se o autor, além da Itália, não for também admirador de Lacan.

A beleza dessa obra são as poucas respostas.

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