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Cinema

Filme esmiúça mentor de Coppola, Scorsese e toda a nata do cinema

Documentário aborda como o diretor Roger Corman extraía o máximo a partir do mínimo dos recursos e influenciou gerações

O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood

  • Onde Disponível no Petra Belas Artes à La Carte
  • Produção EUA, 2011
  • Direção Alex Stapleton

Hoje em dia é fácil falar da “escola Corman de cinema”. Por lá se formaram de Francis Ford Coppola a Ron Howard, de Monte Hellman a Joe Dante, de Martin Scorsese a Peter Bogdanovic, de James Cameron a Jack Nicholson.

O cineasta americano Roger Corman - Ivan Cardoso/Divulgação

De certa forma, a nata do cinema americano passou por lá e aprendeu a explorar ao máximo os recursos de que dispunha. Isso é o que alguém definiu como o “cinema de guerrilha” de Corman e que o documentário “O Mundo de Corman – Proezas de um Rebelde de Hollywood”, de Alex Stapleton, detalha com atenção.

Foi assim em toda sua vida, ao menos desde que deixou o emprego como leitor de roteiros da Fox depois que não recebeu crédito pelas sugestões que acrescentou ao roteiro de “O Matador”, que seria dirigido, com sucesso, por Henry King e um papel marcante na carreira de Gregory Peck.

Foi então que trabalhou para fundar a American International Pictures, junto a Samuel Arkoff. Desde 1954, dirigiu quase 60 filmes e produziu mais de 400. Instituiu um modo de fazer filmes extremamente econômico. No começo bastante tosco, foi aos poucos dominando a linguagem da direção. Mas o essencial, para ele, nem era isso, era intuir o que o público estava com desejo de ver que o “mainstream” não cobria e tirar o máximo do mínimo de recursos.

Graças a isso manteve sua independência a vida toda, primeiro tendo Samuel Arkoff como parceiro, em seguida na companhia só de Gene Corman, seu irmão e parceiro a vida inteira.

Roger Corman não gostava de desperdiçar dinheiro. Quando veio a São Paulo, homenageado pela Mostra Internacional, Leon Cakoff, o criador do evento, lhe mandou uma passagem de classe executiva. Corman perguntou se não seria possível transformar o bilhete em duas passagens.

A carreira de Corman vai de filmes formidáveis (“Os 5 de Chicago”, “O Homem dos Olhos de Raios-X”, a série a partir de Edgar Allan Poe etc.) a coisas pavorosas (“A Pequena Loja dos Horrores”, realizado em dois dias). Para ele isso importava menos, em princípio, do que entregar o filme dentro do prazo e do orçamento e obter uma boa bilheteria.

Para isso, logo entendeu que teria de oferecer a seu público algo diferente do que propunham os grandes estúdios. A opção pelo sensacionalismo (a “exploitation”) era, pois, necessária. Apelava àquele público de adolescentes que ia namorar nos cinemas drive-in.

O britânico Paul W. S. Anderson se espantou ao conhecê-lo. Esperava um grosseirão, em vez disso tinha à sua frente um homem de fala mansa e clara, distinto e calmo. Mais parecia, diz, um professor de Oxford ou algo assim.

De fato, o próprio Corman diz que quase sempre o descrevem como um sujeito dentro das normas.

“Mas meu inconsciente deve ser um inferno escaldante”, completa. Pode ser. Mais do que isso, talvez tenha muito racionalmente posto em movimento o conselho que deu certa vez a Peter Fonda, “desafie o sistema”.

O documentário de Alex Stapleton põe em relevo tanto os filmes (alguns, vale o exemplo), como o método de filmagem de Corman e o peso que teve no futuro de seus discípulos (entre eles a produtora Julie Corman, com quem se casou). É irretocável, embora obviamente incompleto.

Mas o espectador (e, sobretudo, quem puder aprender a lidar com filmes vendo esse documentário, que vale por várias aulas) poderá apreciar a arte de fazer um trailer. E o exemplo escolhido por Stapleton é marcante, o de “Hollywood Boulevard”, dirigido em 1976 por Allan Arkush e Joe Dante.

Corman não ensina só as artes da rebeldia e da originalidade, mas também a de vender os filmes de maneira eficiente aos espectadores.

Não é à toa que o filme se reserve um momento comovente. Aquele em que Corman vai receber um Oscar honorário e é aplaudido e abraçado por uma penca de seus ex-aprendizes. E, ainda uma vez, lhes ensina: aposte sempre em si mesmo, no que acredita.

Isso aconteceu em 2010. O espaço para o cinema independente já havia se estreitado até onde é possível. Mas é ele que Roger Corman, hoje com 94 anos, continua a ver como o único caminho possível para uma arte viva.

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