Fotos raras mostram Milton Nascimento nos anos 1960 e o fazem voltar no tempo

Sem pistas sobre identidade do fotógrafo, imagens mostram cantor na época da gravação do disco 'Courage', de 1969

Belo Horizonte

Uma mulher com malas abertas, cheias de slides, em uma calçada na rua do Lavradio, no Rio de Janeiro, chamou a atenção do pesquisador Rafael Cosme, num final de semana de outubro do ano passado, enquanto caminhava pela feira de antiguidades.

Garimpando imagens do Rio antigo há quatro anos, Cosme ficou horas revirando registros de pessoas anônimas e paisagens, à venda por R$ 1, até parar num rosto conhecido. Um slide com Milton Nascimento jovem, usando chapéu de praia com desenhos geométricos, feição séria, sem camisa.

A mala de slides antigos tinha ainda outras quatro imagens dele. Numa delas, Milton aparece olhando para frente, provavelmente no mesmo lugar da primeira foto. Nas outras três, ele veste um casaco pesado, numa praça coberta por neve. Ele recolheu o achado e pagou R$ 5.

“Tentei, no meio daqueles milhares de slides, desvendar a origem deles, achar qualquer conexão com outras fotos que havia por lá, para entender quem era o fotógrafo, de onde vieram, mas não encontrei nada”, conta o pesquisador.

A mulher que os vendeu disse não ter ideia da origem dos slides. Sem data, nome, qualquer pista, Cosme apostava no próprio Milton para tentar descobrir quem era o fotógrafo, mas o cantor e compositor mineiro também foi pego de surpresa.

Milton viajou para os Estados Unidos, logo depois do Festival Internacional da Canção de 1967, para gravar o disco "Courage", de 1969, que teve a participação de Herbie Hancock e tem “Bridges”, versão em inglês de “Travessia”.

Em mensagem enviada à repórter, ele conta que passou por Nova York e Los Angeles, onde gravou nos estúdios de Rudy Van Gelder, referência em gravações de jazz, que trabalhou com Hancock, John Coltrane, Miles Davis. Na mesma época, Tom Jobim estava na cidade, assim como Milton, trabalhando com o produtor Eumir Deodato.

O único registro que existia em fotos dessa época “intensa”, nas palavras de Milton, era a capa do seu disco, feita por Pete Turner. Ronaldo Bastos, poeta que assinou com ele “Nada Será Como Antes” e outras dezenas de letras, também diz não ter ideia de quem poderia desvendar o mistério.

“A primeira coisa que eu lembrei logo de cara quando vi essas fotos foi do casaco que eu estava usando. Foi demais rever isso. Foi um tempo de muita vivência, muita coisa nova acontecendo para mim”, conta Milton.

“Então, fora as situações de estúdio, tenho pouquíssimas lembranças. E, ao ver essas fotos, eu tive uma sensação indescritível sobre a existência, o tempo. É como se fosse uma volta mesmo, sabe? Jamais pensei que viveria uma surpresa dessas em pleno 2020.”

No final de fevereiro, Rafael Cosme entrou em contato com Marina Amaral, artista brasileira, mineira como Milton, conhecida pelo trabalho de dar cores à fotos antigas, e contou a ela sobre a descoberta.

“Quando ele me falou sobre essa história e me mostrou as fotos originais, eu sabia que ele tinha um tesouro nas mãos. Achei inacreditável e maravilhoso ao mesmo tempo e ofereci ajuda para restaurar”, lembra Amaral.

Os dois já trocavam mensagens havia algum tempo, graças ao projeto “Sonho Rio”, que reconstrói o Rio antigo com textos, documentos e fotos, tocado pelo pesquisador de forma independente há alguns anos.

Neste ano, o guia pela cidade que existiu entre as décadas de 1950 e 1990 será publicado em livro, com roteiros, sugestões de programas e críticas de lugares que já não estão mais lá.

A pesquisa foi o que pôs Cosme na rotina de idas semanais às feiras em busca de material. Hoje, seu acervo tem cerca de 3.000 fotos. Ele começou a publicar parte delas no Instagram (@villlalobos), no ano passado, num projeto chamado “O Passado é um Ponto de Luz”.

Milton é caso mais antigo para ele. Cosme começou a ouvir suas canções na infância, por influência dos pais —“Anima”, de 1982, é seu disco preferido. A ideia do pesquisador agora é entregar a ele as fotos resgatadas e seguir em busca da identidade do fotógrafo que as fez.

“Uma época [como essa de quarentena] que terá tão pouca novidade do mundo exterior é um presente do passado no meio das incertezas sobre o futuro”, diz ele.

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