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Livros

Garcia-Roza criou a mais interessante experiência no romance policial

Delegado Espinosa era o protagonista possível e necessário para o Rio de Janeiro dos últimos 20 anos

Adriano Schwartz

Luiz Alfredo Garcia-Roza estreou tarde na ficção, aos 60 anos, com “O Silêncio da Chuva”. Ali aparecia pela primeira vez o seu investigador, Espinosa, que voltaria em outros dez livros —o derradeiro, “A Última Mulher”. Com esse conjunto de textos, Garcia-Roza, que morreu aos 84 anos, criou a mais interessante experiência brasileira num gênero em que nossa produção não é das mais potentes, o policial.

Detetive íntegro, culto e falho, em quase nenhum desses romances o protagonista consegue de fato resolver os crimes que encontra pela frente.

Quase não há prisões efetuadas por esse personagem excêntrico em aspectos menores (na alimentação, na arrumação da casa), em uma referência direta à linhagem das mais importantes invenções do gênero, mas de fato bastante “comportado”, numa reviravolta com a tradição que foi uma das grandes sacadas do autor.

Nesse sentido, o delegado Espinosa era o protagonista possível e necessário para uma série de livros ambientados em uma delegacia de polícia no Rio de Janeiro dos últimos 20 anos.

A tradição policial, principalmente com Edgar Allan Poe, esteve sempre presente em todos esses livros, de modos variados, às vezes explícitos, a começar pelo fato de o próprio detetive ser um grande leitor do gênero, às vezes entranhado na composição das histórias. É a essa nobre tradição que romances como “Perseguido”, “Na Multidão” e “Uma Janela em Copacabana” se juntam agora, de modo definitivo.

Ricardo Piglia, autor e pesquisador fundamental de histórias policiais, escreveu pouco antes de morrer, em 2017, no posfácio de um livro de contos que deixou pronto e que foi publicado recentemente na Argentina, “Los Casos del Comisario Croce”, que, “como dizia com razão Borges, na vida os delitos se resolvem —ou se ocultam— usando a tortura e a delação, enquanto a literatura policial deseja —sem êxito— um mundo no qual a justiça se aproxime da verdade”.

O autor carioca, em seus livros, problematizou como poucos esse mundo desejado pela literatura policial, as razões e desrazões desse “sem êxito”. Luiz Alfredo Garcia-Roza fará muita falta.

Adriano Schwartz

Professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.

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