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Luiz Alberto Mendes era um talento preso no Carandiru, diz Drauzio Varella

Médico conta como ajudou a publicar 'Memórias de um Sobrevivente', livro de Mendes, que morreu neste mês

São Paulo

Era uma manhã de sábado chuvosa quando o médico Drauzio Varella conheceu o escritor e então presidiário Luiz Alberto Mendes, na penitenciária do Carandiru, em São Paulo. “Tem um cara aí que escreve muito bem, quero que você conheça”, é o que Drauzio lembra de ter ouvido do amigo dramaturgo Fernando Bonassi em 1999.

Na época, Bonassi escrevia o roteiro do filme "Carandiru" e frequentemente realizava atividades no presídio, como programações de incentivo à leitura e à escrita. Foi com esse tipo de atividade que ele conheceu Mendes, autor do livro "Memórias de um Sobrevivente", morto em 9 de abril, vítima de um aneurisma. Ele

Antes de ser publicada e se tornar um sucesso nacional, a obra –totalmente escrita à mão, dentro das celas e dos corredores do Carandiru– impressionou o dramaturgo, que recomendou a leitura a Drauzio.

"O livro que escrevi na época ["Estação Carandiru"] é sobre um médico que entrava e saía da cadeia a hora que bem entendesse. O dele não. O dele falava de uma pessoa que estava ali, presa, privada de sua liberdade", diz o médico, que trabalhou voluntariamente na penitenciária por mais de uma década e afirma que a superlotação no sistema carcerário brasileiro tem piorado cada vez mais.

"A gente achava que a Casa de Detenção de São Paulo, no Carandiru, era o fim do mundo", diz ele. "A quantidade de presos era o dobro do que o espaço suportava. Mas hoje em dia isso é normal no país. Todas as cadeias estão superlotadas. Tem até algumas com o número de presos cinco vezes maior do que a capacidade máxima. Do tempo do Luiz para cá, muita coisa piorou."

Quando finalizou a leitura dos escritos de "Memórias de Um Sobrevivente", Drauzio marcou uma conversa com Bonassi e Mendes. "Nos reunimos na sala do departamento de esportes", diz. No encontro, Mendes estava visivelmente inquieto e reclamava de dores. Após analisar os sintomas do presidiário, o médico diagnosticou uma cólica renal e o levou à enfermaria para aplicar uma injeção anti-inflamatória. A medicação fez Mendes melhorar e ambos puderam, então, conversar sobre o livro.

Drauzio prometeu que levaria a obra à editora Companhia das Letras para ser analisada. "Disse que não estava prometendo nada. Cadeia é assim, você tem que dizer o que pode e o que não pode com clareza. Se o preso achar que você pode, mas você não fizer, aí você se desmoraliza."

As páginas escritas à mão foram entregues à então diretora editoral Maria Emília Bender, que leu e, em seguida, ligou a Drauzio para dizer que tinha adorado o livro e queria publicá-lo.

Após o sucesso de "Memórias de Um Sobrevivente", publicado em 2001, o autor escreveu mais dois volumes –"Às Cegas", em 2005, e "Confissões de um Homem Livre", em 2015–, ambos lançados quando ele já estava em liberdade, após cumprir 31 anos e dez meses de prisão por homicídio e roubo.

Quando soube da recente morte de Mendes, Bonassi o definiu como "um clássico autodidáta do século 20 que produziu obras tão boas quanto as do filósofo russo Dostoiévski".

Luiz Alberto Mendes morreu, aos 68 anos, após ser hospitalizado em estado grave. "Ele não tinha formação literária, ele tinha talento literário, uma facilidade para contar histórias", diz Drauzio.

O médico diz também acreditar que agora o Brasil, com a pandemia do novo coronavírus, "pagará o preço da desigualdade social que trata com naturalidade".

"Quem mora em um bom apartamento consegue se isolar, mas e quem mora em um cômodo com cinco crianças?", questiona ele.

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