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Livros

No livro 'Aranhas', Gregor Samsa já não se transforma em barata

Imitar a perfeição da teia dos aracnídeos, porém, não está ao alcance humano

Vivien Lando

Aranhas

  • Preço R$42,90 (189 págs.)
  • Autor Carlos Henrique Schroeder
  • Editora Record


Elas sobem céleres pelas paredes, tecem teias, capturam insetos, picam ferozes, se encolhem tímidas, humildes cumprem seu papel na cadeia alimentar, sem um pio. Silenciosas. E, sem saber, servem agora de pretexto literário ao escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder. Os 32 contos de “Aranhas” têm no título nomes de artrópodes e seus equivalentes científicos.

Ilustração de aranha de Jan Augustin van der Goes
Ilustração de aranha de Jan Augustin van der Goes - Reprodução

Sabe-se lá por quê. Talvez para intrigar, nos dois sentidos, seu leitor. Ou por pouco confiar no interesse que suas histórias despertam, sem o uso do adereço animal. Se houve na origem alguma tentativa de associar o comportamento de suas personagens ao de uma ou outra aranha, difícil descobrir.

Schroeder, premiado com o troféu Clarice Lispector pela coletânea “As Certezas e as Palavras”, gosta de falar mesmo é de gente, de solidão e de morte. Em alguns dos capítulos, cria relacionamentos e figuras atraentes, como o surfista de Florianópolis, o lutador de jiu-jitsu, a professora homossexual, a garota de programa e Gregor Samsa, que, em homenagem a “Metamorfose”, de Kafka, em vez de barata, acorda aranha.

Nascido no interior de Santa Catarina, o autor recorda em entrevista o pavor que as aranhas de Garopaba, onde passava as férias, lhe causavam. Afirma que agora se reconciliou com elas. Ótimo. Os caminhos da cura são misteriosos.

Contar episódios de praia, prováveis referências à sua adolescência em Balneário Camboriú, e transferir outras memórias pessoais a suas criaturas faz ressoar o conselho do russo Tolstói —fale de sua aldeia e você será universal.

Mas falta ao criador acreditar em si mesmo e abrir mão da necessidade de entrelaçar os contos num forçado encontro de vários personagens em curso de astrologia com final infeliz. Imitar a perfeição da teia da aranha não está ao alcance humano.

Tomo a liberdade, em uma espécie de reparação tardia, de contar dois episódios verídicos que vivenciei com as aranhas. No primeiro, fui picada no Rio Grande do Norte por uma viúva negra. Como não existe antídoto, o médico no local pediu que eu ficasse por lá, para ver se eu sobreviveria.

Tempos depois, quando tivemos um sítio na serra da Mantiqueira, local com várias espécies de aranhas assustadoras, encontramos, na noite inaugural, nossa cachorrinha de seis meses focinho a focinho com uma peluda bem grande. As duas pareciam bem contentes com a nova amizade. Cancelamos a inauguração.

Tive a ideia de colocar bem claro para aquela aranha e sua turma que elas poderiam ficar no terreno o quanto quisessem, mas, caso entrassem em casa, não seriam poupadas. Nos oito anos seguintes que estivemos ali, nunca mais vi uma aranha porta adentro. Assim são elas, inteligentes, sensíveis e às vezes letais. Merecem protagonizar —e não servir de desnecessário pretexto.

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