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Coronavírus

Overdose de lives e museus virtuais causam cansaço e vertigem

O que falta é justamente a possibilidade de vagar distraídos, descobrindo obras ao acaso

Nunca imaginei que acompanhar a programação de arte durante a quarentena tivesse um efeito tão angustiante quanto as notícias sobre o avanço do coronavírus. Logo na primeira semana, o título de um artigo do site Hyperallergic —“2.500 museus que agora você pode visitar virtualmente”— parecia trazer a solução para quem estivesse “sentindo fome de arte”, como dizia o texto. Nem se chegarmos ao décimo mês de confinamento alguém teria interesse em acessar tudo aquilo.

Além da metáfora infeliz, a chamada revela o lado mais alienante desse meio, que parece não se dar conta de como pesquisar acervos de museus está longe de ser uma prioridade para a maioria das pessoas durante uma pandemia global.

Sim, porque a principal vantagem do Google Arts & Culture ainda é permitir fazer pesquisas nas 2.500 instituições com coleções reunidas pela plataforma. Ver detalhes de uma pintura impossíveis de se enxergar a olho nu, ou obras em realidade aumentada, sem dúvida são ótimas ferramentas, mas em geral voltadas para um público familiarizado que sabe bem o que procura.

Reprodução do quadro 'Ofélia', de John Everett Millais - Reprodução

Quem entra pela primeira vez em um museu pelo Google Street View possivelmente vai se entediar e sair zonzo nos primeiros minutos. Isso porque essa ou outras plataformas que simulam a experiência no espaço físico não levam em conta como a construção da visualidade nos museus é indissociável da relação com o corpo e outros sentidos além da visão. E, quando já passamos os dias de uma tela para outra, o olhar saturado não contribui para uma experiência contemplativa —principalmente de trabalhos pensados para serem vistos ao vivo.

Podemos não nos dar conta, mas visitar um museu envolve uma série de coreografias corporais que influenciam na maneira como descobrimos as obras. Em muitos casos, são padrões de como o espectador deve se comportar, construídos e incorporados desde os primeiros museus públicos.

Um amplo estudo sobre o assunto é feito por Helen Rees Leahy, da Universidade de Manchester, em “Museum Bodies”, ou corpos de museu.

Sua abordagem sobre a experiência no museu vai desde instruções publicadas em periódicos no século 18 sobre como se portar de forma confiante e o que vestir a análises contemporâneas.

O que chama mais atenção no estudo são os relatos sobre patologias associadas ao museu. Sintomas como tontura, cansaço ou até náusea, provocados por sensações como confusão mental ou opressão, apareciam em descrições de visitantes desses espaços até a primeira metade do século passado.

De certa forma, não é tão diferente da vertigem causada pelas visitas virtuais do Google Arts & Culture, em que a falta de contexto e a dificuldade de atrair nossa atenção provocam um efeito igualmente desestabilizador.

Embora pareçam oferecer a chance de escolher entre tantas opções, o que falta é justamente a possibilidade de vagar distraído como caminhamos pelos corredores dos museus, descobrindo obras ao acaso.

Passei a sentir uma enorme nostalgia de visitar os museus ao vivo. Mesmo que o histórico disciplinarizante desses lugares tenha deixado marcas até hoje, romper com esse imaginário tem sido uma preocupação grande das instituições nas últimas décadas.

Acompanhar as fotos de visitantes por meio de hashtags é uma boa maneira de entender seu comportamento hoje e relacionar com o histórico dessas práticas corporais.

Há desde encenações de poses contemplativas com ar de seriedade a pessoas que rompem com essa tradição, fotografando-se com roupas iguais às obras ou simulando a situação retratada. A série, por sinal, reapareceu durante o confinamento, com recriações caseiras de pinturas clássicas reunidas na hashtag #BetweenArtandQuarentine. Pode parecer bobagem, mas indica um rompimento com o imaginário opressor do museu.

A programação online durante a quarentena tenta suprir a ausência do espaço físico com uma overdose de lives. Talvez os museus virtuais de hoje se assemelhem aos primórdios dessas instituições, quando a construção disciplinarizante da visualidade resultava em uma experiência misturada a sensações de cansaço e vertigem —tudo que é bom evitar neste momento.

Nathalia Lavigne é pesquisadora na USP, estuda arte no Instagram e museus pós-redes sociais

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