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Cinema

Por que esta série sobre mulheres cineastas é dirigida por um homem?

'Women Make Film' ilustra contribuição feminina, mas às vezes desorienta mais do que orienta

Women Make Film

  • Onde Disponível em spcineplay.com.br até 10/4
  • Produção Reino Unido, 2019
  • Direção Mark Cousins

Existe um mistério na série “Women Make Film”: por que é dirigida por Mark Cousins, historiador e homem?

Afinal para que as mulheres começassem a entrar de fato nessa história tem sido essencial o trabalho de coletivos internacionais de estudiosas. E hoje não faltariam diretoras (e/ou historiadoras) para fazer uma série como essa.

Do começo: ainda parece incrível que Alice Guy não tenha sido desde logo reconhecida como pioneira da estatura de Georges Méliès. Sua obra só foi reconhecida bem depois de sua morte, em 1968.

“Women Make Film” tem as mesmas virtudes e defeitos da serie sobre a história do cinema de Cousins: trabalha por um método de livre associação que permite mover de um continente a outro, do mudo ao sonoro, sem constrangimento. Escolhe belas cenas (algumas antológicas) com liberdade. A desvantagem é que seus raciocínios parecem se justificar antes de tudo por aquelas cenas, e tendemos a perder o sentido de conjunto.

Ele transita da URSS de 1971 à China de 1965 e daí aos anos 1930 em Hollywood. Desorienta mais do que orienta. De todo modo, Cousins ilustra a contribuição feminina ao cinema.

Estudiosas já descobriram a presença de mulheres diretoras até aproximadamente 1920, quando o cinema começa a se tornar uma indústria lucrativa. A presença feminina definha desde então.

“Women Make Films” passa por essa história ainda incompreendida. Admita-se que a situação melhorou.

Se nos 1950 Ida Lupino foi exceção nos Estados Unidos, na França dos 1960 Agnès Varda surge com destaque. Na grande geração tcheca dessa época, ninguém fez um filme tão revolucionário quanto “As Pequenas Margaridas”, de Vera Chytilovà. Na Itália e na Alemanha destacam-se Margarethe Von Trotta, Liliana Cavani, Lina Wertmüller.

No Brasil, Gilda de Abreu fez sucesso no pós-guerra com “O Ébrio” e Ana Carolina se impôs já nos anos 1970. Hoje temos, ativíssimas, de Anna Muylaert a Helena Ignez. Na França hoje são muitas e respeitadíssimas, de Claire Denis a Chantal Akerman.

No século 21, ninguém contesta que Lucrecia Martel é a principal diretora (entre homens e mulheres), na Alemanha,destaca-se Maren Ade, nos EUA, Kathryn Bigelow chegou a ganhar o Oscar. Na Nova Zelândia, Jane Campion impôs-se desde os 1990. No Irã, Samira Makhmalbaf surgiu forte, enquanto Mania Akbari criou obra própria e controversa (mas quase tudo é controverso para os cineastas desse país).

O “road movie” proposto por Mark Cousins explora outras cineastas e outros países, é claro, e acaba por mostrar como, do tempo em que só havia uma diretora nos EUA, Dorothy Arzner, até aqui, a balança começa a se equilibrar.

Talvez a questão seja a que Cousins formula: o que as mulheres mostram que os homens não saberiam mostrar? “Women Make Film” abre caminho por aí: não é só disputa de poder, é uma questão de trazer um ponto e vista e um saber que até hoje não se expressou plenamente.

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