Produtores que criaram distopias vivem agora caos real do coronavírus

Criadores de séries como 'The Handmaid's Tale' e 'Westworld' falam sobre semelhanças entre atualidade e suas obras

David Itzkoff
The New York Times

Bem que eles tentaram nos avisar.

Em seus dramas para a televisão, buscaram criar os cenários mais apavorantemente distópicos que conseguiam imaginar —realidades alternativas aterrorizantes nas quais a vida tal qual a conhecemos se viu devastada por revoluções, pragas, tecnologia descontrolada ou hordas de zumbis sedentos de sangue.

Quando as criaram, os roteiristas dessas séries —The Handmaid's Tale, “Westworld” e outras— queriam entreter e desafiar as audiências com reflexões sombrias sobre a sociedade, que as pessoas podiam dizer a si mesmas que eram evitáveis, ou absurdas demais para que se concretizassem.

Mas agora, em meio à incerteza gerada pela pandemia do coronavírus, as pessoas que fazem essas séries estão contemplando seu trabalho sob uma luz diferente.

Esses criadores e produtores não estão interessados em cantar vitória ou criticar os telespectadores por não terem levado seus alertas a sério. Mas têm uma compreensão clara dos motivos que continuam a nos atrair ao entretenimento distópico e imaginam se os eventos em curso terão algum impacto duradouro sobre seus trabalhos.

E admitem sentir pontadas de remorso por pedir que as audiências se envolvam com os pesadelos que inventam.

“Você se sente culpado por pôr essas ansiedades na cabeça das pessoas”, disse Bruce Miller, criador e responsável pela adaptação de “The Handmaid's Tale” para o serviço de streaming Hulu.

Allison Schapker, que comanda a sombria série de ficção científica “Altered Carbon”, da Netflix, disse que começou a se sentir muito consciente da maneira pela qual seu trabalho é recebido agora que a televisão “se tornou um dos veículos fundamentais que temos para passar o tempo e processar o que aconteceu ao longo do dia”.

Ela acrescentou que o desconforto amplificado dos espectadores inevitavelmente contaminaria sua escrita. “O que desejo dizer como criadora de histórias sempre vem da vida que estou vivendo, e essa vida virou de cabeça para baixo”, disse Schapker.

Em “The Handmaid's Tale”, adaptado do romance "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, os Estados Unidos foram assolados por doenças e um desastre ecológico e reconstruídos como um Estado totalitário no qual as mulheres são escravas.

“Altered Carbon”, baseada nos romances de Richard Morgan, imagina um futuro no qual a tecnologia torna a imortalidade possível —mas apenas para quem tem dinheiro para comprá-la.

Em “Westworld”, da HBO, adaptada de um filme de suspense de Michael Crichton, autômatos que reproduzem fielmente os seres humanos vivem subjugados em um mundo de moralidade declinante e disparidade econômica brutal.

Embora cenários desumanizadores como esses tenham proliferado na cultura popular, Jonathan Nolan, um dos criadores de “Westworld” e produtores da série, disse que todos derivavam de uma curiosidade humana compartilhada sobre como funcionaria uma sociedade desgastada, observada de uma distância segura.

“Como cultura, tentamos estratégias diferentes e propomos desfechos diferentes, em termos coletivos, tentando perceber onde é que poderíamos cometer erros destrutivos”, disse Nolan. Ele acrescentou que embora também existam fantasias utópicas, “as pessoas se interessam mais por assistir a versões de um mundo que deu errado do que a versões de um mundo que deu certo".

Lisa Joy, que criou e comanda a série em parceria com Nolan, disse que narrativas distópicas podem servir como um campo de testes psicológicos para a exploração de momentos de relativa calma.

“Se você contemplar a história, há ciclos de guerra, pobreza, lutas, fome e doença”, disse ela. “Seria arrogância imaginar que ficaremos imunes a esses ciclos para sempre."

Alex Garland, que escreveu e dirigiu “Devs”, um thriller de alta tecnologia para o canal FX, no Hulu, disse que suas ideias centrais —“imensas companhias de tecnologia, desregulamentadas e poderosas, e imensos desequilíbrios de riqueza e poder”— não exigiram conjecturas, de sua parte. “Não existe nada de perceptivo em apontar para esse fato”, disse ele. “É completamente óbvio. Todos sabemos que é o que existe."

Garland também contemplou cenários apocalípticos em seus filmes “Aniquilação”, no qual a Terra está em perigo por causa de mutações alienígenas, e “Extermínio”, em que o planeta é dominado por zumbis.

Ele explicou que esse tipo de história oferece uma forma atraente de “realização de desejos”.

“Quando eu era menino e assistia a filmes de zumbis”, disse Garland, “eu pensava em parte que os zumbis eram assustadores. Mas também pensava que seria ótimo poder entrar em uma loja e pegar qualquer coisa que eu quisesse".

Garland afirmou que esse tipo de voyeurismo é satisfatório quando ocorre “por antecipação, quando nos sentimos seguros por as coisas não serem assim”. Para ele, os criadores e as audiências se convencem de que, “ao se engajarem com a distopia, vão nos vacinar contra a possibilidade de que ela aconteça”.

Agora que a civilização chegou a uma crise autêntica, que não difere muito de coisas que ele dramatizou, Garland não consegue evitar a ideia de que talvez suas histórias tenham sido fúteis. "É mais ou menos como realizar um protesto no Twitter”, disse ele. “Parece que estou dizendo alguma coisa. Mas qual é o resultado concreto? Provavelmente só mais um ruído quicando na câmara de eco."

Essas histórias distópicas têm de fato a capacidade de nos preparar para as adversidades vindouras? Miller, de “The Handmaid's Tale”, disse que o gênero no mínimo oferece a reconfortante percepção de que os indivíduos podem ter algum controle sobre seus ambientes caóticos.

“Sempre desejamos contar histórias nas quais as decisões de uma pessoa façam efeito”, disse ele. “E em um mundo distópico as escolhas são mais simples, porque tudo fica reduzido ao essencial. Pode-se apanhar o problema que o interessa e pô-lo no centro da trama."

Mas será que nas próximas semanas e meses as audiências perderão o apetite por mundos imaginários, onde tudo de ruim acontece, e em lugar disso, buscarão histórias nas quais as coisas terminem melhor? Os produtores de TV entrevistados acautelaram contra a ideia de reescrever suas séries para tratar do coronavírus diretamente.

“A coisa que está acontecendo no momento é completamente real”, disse Garland, cujo trabalho em “Devs” está praticamente concluído. “Não teremos uma reação significativa ao que está acontecendo agora antes de mais alguns anos."

Alison Schapker, de “Altered Carbon”, ecoou esses sentimentos, afirmando que séries como essas não precisam ser transformadas em fantasias sentimentais ou tampouco em lamentos fúnebres. A responsabilidade dos narradores, segundo ela, é absorver “a complexidade do momento e refleti-la em nosso trabalho”.

“Não creio que seja hora de trabalhos adocicados”, disse ela, “e não creio que seja hora de simplesmente olhar pela janela e assistir ao que está acontecendo".

O elenco e a equipe de produção de “The Handmaid's Tale” estavam há duas semanas filmando os primeiros episódios da quarta temporada da série, segundo Miller, quando tiveram que suspender a produção, por causa das preocupações crescentes com o coronavírus.

O que quer que aconteça de agora até a retomada das filmagens, Miller disse que era improvável que os episódios em questão fossem mudados, quer em referência a acontecimentos da vida real, quer para ajustar seu tom.

“Deus sabe como serão as coisas quando a nova temporada da série enfim sair”, disse ele. “É difícil tentar atingir um alvo se o alvo ainda nem se materializou."

Ao mesmo tempo, Miller afirmou que ele e seus colegas estavam redigindo os episódios finais da nova temporada e que com certeza a calamidade em curso influenciaria seu processo de maneiras que eles ainda não podem prever.

Embora seu objetivo geral —“contar uma história e fazer com que as pessoas se sintam conectadas a ela"— continue o mesmo, disse Miller. “Parte do meu trabalho é ser uma flor delicada, sentir o que está acontecendo no mundo. Isso muda o que escrevemos e certamente mudará o que discutimos com relação ao desenvolvimento da história.”

Os produtores de “Westworld” disseram que eles tampouco transformariam sua série em uma fantasia sentimental. “Não existe como mudar nosso DNA criativo e escrever sobre alguma coisa que não venha organicamente daquilo que pensamos”, disse Joy.

O que eles podem fazer é seguir outra tradição dramática e povoar suas histórias com personagens heroicos que, para Joy, possam servir como “exemplos em que as pessoas contemplem e se inspirem para seguir adiante”.

Narrativas distópicas “podem ser dramas sobre um mundo capaz de ser cruel, aleatório e tortuoso, mas a coisa importante é que, diante de um mundo assim, os seres humanos não sejam cruéis, aleatórios ou tortuosos”, afirmou ela.

Tradução de Paulo Migliacci

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