Rappers trocam Gucci por camisas de time e dão cara brasileira a rap britânico

Os MCs Febem e Fleezus e o DJ Cesrv fazem disco que marca evolução da inserção do grime da Inglaterra no hip-hop nacional

São Paulo

Há oito anos, o Corinthians ganhava o campeonato mundial de clubes, batendo o rico time inglês Chelsea na final, na última vez que o título foi para um clube brasileiro. Uma imagem daquele jogo, do zagueiro Chicão dando um carrinho em dividida com o craque belga Hazard, estampa a capa de “Brime!”, disco que estreita os laços entre o rap feito no Brasil e na Inglaterra.

“É um ato simples, mas que tem muito significado. É raça neles, carrinho no Hazard”, diz Febem, um dos MCs —o outro é Fleezus, além do DJ Cesrv— que gravaram o álbum. Mais do que as referências de futebol, extremamente popular nos dois países, a imagem é uma metáfora das intenções do trio —derrotar o inimigo mais poderoso com as armas possíveis, ou não se submeter à cultura dominante, mas se posicionar de igual para igual diante dela.​

“Brime!”, lançado em março, marca o ápice da influência do grime, estilo de rap inglês, na cena brasileira. As seis faixas, na verdade, são um passo mais profundo na criação de uma identidade nacional a partir do ritmo europeu, muito ligado à música eletrônica e feito em grande parte por imigrantes e descendentes deles na Inglaterra.

“O Dizzee Rascal foi o primeiro a soltar um grime que não ficou só na Inglaterra. Para mim, era rap inglês, eu não sabia que era grime. Foi um negócio espontâneo. Mesmo lá, era som de quebrada. Como o funk aqui. Aí o bagulho começou a explodir”, diz Cesrv.

Ele está falando de “Boy in da Corner”, primeiro disco do rapper, de 2003. De lá para cá, o ritmo foi crescendo e se diversificando ao longo da última década, com nomes como Wiley e Stormzy. Mas é possível dizer que o grime se tornou global em 2016, com Skepta.

Naquele ano, o hoje astro da música britânica lançou o disco “Konnichiwa” e quebrou todas as barreiras. Entrou na lista de mais tocadas dos Estados Unidos, país berço do hip-hop como conhecemos hoje em dia, bateu David Bowie no Mercury Prize —prêmio de melhor disco britânico do ano— gravou com Drake e Mick Jagger e hoje pode ser considerado um dos maiores rappers do planeta.

Divulgado pelas rádios piratas britânicas no começo do século, o grime traz os MCs rimando por cima de batidas carregadas de influências da música eletrônica, especialmente os estilos conhecidos como UK garage e o jungle, mas também o drum ‘n’ bass, o house e, mais recentemente, o dubstep.

“Quando o Wiley inventou o grime, ele queria fazer um som que conversasse com as raízes africanas dele”, diz Cesrv, que toca o gênero na festa Colab 011, no centro de São Paulo desde pelo menos 2012. “Curiosamente, é um som que conversa muito com o jeito que o funk é feito hoje em dia, em questão de métrica, andamento, compasso. A diferença é que o jeito de rimar dos caras vem do drum ‘n’ bass, do garage.”

No Brasil, o grime se infiltrou de vez no rap no ano passado. O programa "Brasil Grime Show" no YouTube, com diversos MCs rimando e improvisando por cima de batidas de grime, ganhou notoriedade e rappers como Leall, no Rio de Janeiro, e Vandal, na Bahia, começaram a incorporar a estética com mais veemência.

Em “Brime!”, as semelhanças entre a música eletrônica brasileira e o rap eletrônico inglês ficam realçadas. A faixa “Terceiro Mundo” vai do house ao funk em 150 BPM, o estilo acelerado do gênero, dominante no Rio de Janeiro, enquanto “Chelsea” é o encontro de timbres típicos do grime com batidas que são a cara do funk.

Nas letras, Febem assume o lado mais ácido, enquanto Fleezus se destaca com ganchos e refrões. Nas rimas de ambos, contudo, São Paulo, as festas e a cultura da rua são o pano de fundo, dos versos sobre o litrão de cerveja a R$ 6 no Brás ou ouvir o DJ Guuga, de funk.

“A gente tem que falar da nossa vivência”, diz Fleezus. “Já tem muita gente no funk falando dos bagulhos de ‘mil grau’. Temos que falar do que a gente vive. Do que gostamos? De time de futebol, de tracksuit, de arte, de festa.”

Para fazer o álbum, Febem, Fleezus e Cesrv foram até Londres, em ação de uma marca de streetwear. “Os Estados Unidos, por mais que a gente consuma para caralho a cultura deles, a Europa está mais perto. O amor pelo futebol, o jeito de se vestir com camisa de time, de agasalho de futebol, aproxima mais ainda. Moro na Vila Maria [em São Paulo], não tenho dinheiro para comprar camisa Gucci”, afirma Febem.

Ele está comparando o estilo de vida dos MCs do grime com os do trap, subgênero americano do rap que é um dos mais consumidos em todo o mundo. Ao contrário do trap, em que é valorizada a alta costura, com os MCs falando a todo momento de grifes de luxo, o grime está mais relacionado à cultura de rua e à vestimenta esportiva.

O trio tem origens diferentes. Ainda que todos tenham sido influenciados pelos Racionais MCs, Febem é mais ligado ao Odd Future —coletivo americano que despontou na década passada e revelou nomes como Tyler, the Creator e Frank Ocean— e até ao punk e hardcore da cena do skate.

“A gente ia ao show do Racionais com camisa do Sepultura, ninguém entendia nada. O que tava pegando no rap era essa coisa das batalhas. Acho meio careta. Não gosto de música que os caras são bonzinhos demais. Também nunca tive vontade de fazer história triste. Vejo ao meu redor e é só história triste”, ele diz.

Cesrv, que teve bandas no começo dos anos 2000, produz desde 2006 e comanda um estúdio em São Paulo, além de tocar em festas. Já Fleezus começou cantando gospel na igreja. “Como todo moleque, tive duas opções —ou acompanhar o pai no bar ou a mãe na igreja. Eu segui minha mãe, mas, em algum momento, tive a consciência de que o sistema religioso aprisiona, como qualquer sistema.”

Todos eles, contudo, frequentam festas de música eletrônica, ainda que este seja um ambiente ainda pouco aberto às faixas de funk e mesmo de hip-hop, que hoje em dia são quase todas sintéticas. “A gente vai na [festa de techno e house] Gop Tun, ouvir um som eletrônico, mas também estamos no forró ali na esquina”, diz Fleezus.

“Techno, house, isso tudo nasceu no gueto. E tem um embranquecimento pesado”, diz Febem, citando a DJ Iasmin Turbininha, que faz sets de funk acelerado no Rio de Janeiro e não costuma ter espaço nessas festas. “É aí que entra o racismo. Tipo assim –‘por que está tocando essas músicas de pobre no nosso rolê?’. Ninguém quer. É sujo para eles, música de pobre, de preto.”

O “Brime!” marca uma evolução não só na carreira dos artistas envolvidos, mas do ritmo no Brasil. Enquanto isso, de Nike ou Adidas, MCs e produtores ao redor do país vão dando uma cara sul-americana ao estilo britânico, mais colorido e aberto a inovações que o trap, tanto em conceito quanto em sonoridade.

Na visão de Cesrv, a cena grime por aqui está só no começo. “As pessoas estão olhando os gringos, tentando fazer igual e achando uma identidade. É igual no trap, todo mundo querendo ser o Travis Scott. Quisemos mostrar o que tem no Brasil, olhar para o que você tem na sua quebrada. Referências da sua vida, da sua mãe, sei lá, da sua vivência.”

“Fomos aceitos muito rápido [na Inglaterra], eles têm curiosidade, os DJs tocam nossas músicas”, diz Febem. “Demoramos uma vida fazendo música igual americano pra chegar lá [na Europa] e ser aceito.”

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