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Recorde do 'BBB' ecoa panelaços anti-Bolsonaro e guerras culturais

Paredão com 1,5 bilhão de votos eliminou participante visto como machista e foi celebrado pela turma do #EleNão

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Danilo Thomaz

Já era quase madrugada de 1º de abril quando voltaram os gritos de “fora, Bolsonaro” nas janelas. Desta vez, porém, a intenção não era calar a fala do presidente —que havia se pronunciado horas antes—, mas celebrar a eliminação do arquiteto Felipe Prior do "Big Brother Brasil".

Até então um dos favoritos para ganhar o reality show, Prior foi eliminado com 56,73% do total de 1,5 bilhão de votos, recorde histórico —e mundial— do programa, num paredão contra a musa fitness Mari Gonzalez e a cantora Manu Gavassi, com quem polarizou a disputa que mais simboliza o caráter político desta edição.

Marcado pela oposição entre a dita masculinidade tóxica e o feminismo das (autointituladas) “fadas sensatas”, o paredão da última terça-feira bateu os 31 pontos de audiência e foi símbolo de um "Big Brother" visto como espécie de redenção do movimento #EleNão, de 2018.

A disputa parecia desfavorável a Gavassi, como mostravam as enquetes na internet. A popularidade do grupo feminino —também conhecido como “bloco hegemônico”, o establishment da casa— parecia ter entrado em decadência, depois do auge entre fevereiro e o início de março, com a eliminação, em sequência, de cinco participantes ligados por uma mesma trama.

Como num folhetim clássico, a casa se dividiu de modo claro, sem espaço para nuances, entre mocinhas e vilões. A diferença é que as mocinhas —como nas animações modernas— foram à luta.

Logo no início do programa, os atletas Lucas Gallina e Petrix Barbosa e o ex-jogador de futebol Hadson, com o conhecimento e a anuência de Prior e do modelo Guilherme, firmaram um pacto para eliminar as mulheres comprometidas do lado de fora. O estratagema era seduzir as garotas e fazer com que traíssem seus namorados. O primeiro alvo era Mari, namorada de Jonas Sulzbach, participante do "BBB 12".

Convidadas a entrarem no jogo, a ginecologista Marcela e a advogada Giselly relataram o plano às outras mulheres da casa, que foram tirar satisfação com os rapazes, numa discussão que ganhou as redes sociais e sedimentou a narrativa da edição.

A partir daí, depois de Petrix, caíram Hadson, Lucas e Bianca Andrade, a Boca Rosa —empresária e influencer com 10,6 milhões de seguidores no Instagram que se fez de “isentona” diante da crise. Em seguida, caiu o outro “isentão”, o modelo Guilherme, que vivia uma relação tensa com a cantora sertaneja Gabi Martins.

Vendo os amigos caírem um a um, Prior se reposicionou no jogo ao firmar parceria com o ator Babu Santana, único homem negro desta edição. Formando uma dupla que aludia ao Timão e Pumba de "O Rei Leão", os rapazes começaram a galvanizar a simpatia do público ao marcarem a si próprios como os excluídos da casa. O establishment feminista tinha um antiestablishment como oposição. Uma virada na trama.

A estratégia tinha tudo para ser vitoriosa e foi determinante para a vitória de outros participantes do programa, como o ex-deputado federal Jean Wyllys, vencedor da quinta edição, que atribuiu sua exclusão à homofobia, e o lutador Marcelo Dourado, vencedor do décimo programa.

De perfil semelhante ao de Prior, o lutador, que já havia participado do "BBB 4", voltou à edição de 2010 e foi, de início, excluído pelos participantes da casa. O programa contava com dois participantes homossexuais, entre eles o transformista Dicesar Ferreira, e pretendia ser uma edição da diversidade. Mas a masculinidade ferrenha de Dourado, em oposição a Dicesar, apagou as seis cores do arco-íris daquela temporada.

Tudo indicava que o mesmo aconteceria dez anos depois. Sobretudo porque as “fadas sensatas”, sem terem a quem se opor, começaram a perder força, popularidade e aliados dentro da casa, com a eliminação do ilusionista Pyong Lee e do modelo Daniel Lehnardt.

Ainda no final de fevereiro, Manu Gavassi foi tachada de racista ao dizer que o casal Marcela e Daniel, brancos e loiros, eram “extremamente agradáveis, esteticamente falando”.

Pego em contradição, o grupo das meninas começava a perder força ante os garotos sobreviventes, que angariavam aliadas pontuais, como a cantora Flayslane, próxima a Prior, e a médica Thelma, única mulher negra da edição, aliada a Babu.

Mas uma população confinada, insatisfeita com o governo federal, que promove panelaços diários contra o presidente e que não tem outra opção de entretenimento inédito na TV aberta além do "Big Brother", quis fazer valer, desta vez, o #EleNão. E a trama virou mais uma vez.

O movimento original, ocorrido às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018, foi considerado por muitos como fator essencial para o arregimento de um bloco conservador de apoio ao então candidato Jair Bolsonaro.

No último domingo à noite, as enquetes online davam que Manu seria eliminada por uma diferença superior a 10% dos votos. A margem começou a se estreitar na segunda-feira, quando a votação oficial já havia batido recorde, com mais de 500 milhões de votos. Na terça, a enquete do UOL dava uma mínima vantagem a Prior sobre Manu.

Como no #EleNão original, o lado feminista contou com o apoio de figuras como a atriz Bruna Marquezine. Já Prior ganhou apoio de atletas como Neymar. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente que classificou mulheres de direita como limpas e cheirosas em detrimento às progressistas, manifestou seu apoio a Prior, enquanto o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, candidato derrotado à Presidência em 2018, comemorou a saída do arquiteto.

Jovens gays, sem uma figura com quem se identificar nessa edição, uma vez que o cientista de saúde pública Vitor Hugo se definia como “assexual” e passou boa parte do reality fantasiando um romance com o modelo heterossexual Guilherme, também se posicionaram contra o arquiteto.

Mas nem tudo (ainda) se resume à política. O crítico de TV Chico Barney, especialista em "Big Brother", lamentou a saída de Prior e acredita que o programa vá perder o interesse e o caráter eletrizante que teve até aqui sem seu principal agitador.

O reality contou, até a semana passada, com uma média de audiência de 23,7 pontos na Grande São Paulo, quatro pontos acima da edição anterior e acima de outras três edições do passado.

A ver se a máxima do diretor de cinema Alfred Hitchcock, que dizia que “quanto mais perfeito for o vilão, mais perfeito será o filme”, é também verdade no único folhetim eletrônico que restou em meio à pandemia. E se o "BBB 20", como é tradicional nas novelas, surpreenderá o público até o último instante —e, ao final, fará justiça. A decisão, mais uma vez, virá do voto popular.

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