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Série de ficção científica da Amazon quer fugir do gênero para falar sobre humanidade

'Tales from the Loop' é ambientada nos anos 1980, mas tem robôs e edifiícios ultramodernos em suas paisagens

São Paulo

Robôs gigantes se mesclam a paisagens bucólicas, enquanto a neve contraria as leis da física e sobe em direção ao céu. Esse é o cenário de “Tales from the Loop”, nova série da Amazon Prime Video que acaba de estrear na plataforma de streaming.

Ficção científica com um grande coração, a trama mostra uma coleção de personagens numa cidadezinha do estado americano de Ohio, nos anos 1980. Nos subterrâneos do lugar fica uma máquina criada para explorar os maiores mistérios do universo, responsável por redesenhar a vida daqueles que moram acima.

Mas esqueça cenas de destruição com robôs, grandes sequências de ação e tecnologia de ponta em cada canto dos cenários. Esta não é uma ficção científica comum.

“Tales from the Loop” está mais interessada em explorar dilemas rotineiros, usando a ficção como pano de fundo para discussões sobre morte, solidão, aceitação e muitos outros temas comuns à vida humana.

Inspirada numa coleção de ilustrações do artista sueco Simon Stalenhag, a trama foi transposta para o streaming por Nathaniel Halpern, roteirista de séries como “Legion” e “The Killing”.

“É raro, na ficção científica, vermos algo original em termos de estética”, diz Halpern em entrevista por telefone. “A obra de Stalenhag tem esse casamento maravilhoso entre o ordinário e o extraordinário e, além disso, eu sentia que havia certa emoção nas ilustrações. A combinação entre essa estética única e a emoção me impressionou.”

Simon Stalenhag ganhou fama ao pintar paisagens dos campos da Suécia habitados por grandes maquinários, naves ultramodernas e prédios futuristas. Esse choque entre o bucólico e o tecnológico está no coração de seu trabalho e, agora, também no da série da Amazon.

Apesar de ter uma ambientação específica, a trama parece perdida no espaço-tempo. Há pouca coisa de anos 1980 ali, mas certamente existe uma aura vintage rodeando os personagens. Por outro lado, computadores e outras tecnologias parecem deslocados naquela paisagem, mas já são demasiadamente ultrapassados para serem vistos como futuristas pelo público de hoje.

“Eu não queria ter um monte de referências da cultura pop dos anos 1980 ou fazer as pessoas pensarem especificamente sobre aquela época”, diz Halpern. “No final das contas, a série é sobre a condição humana, nossas experiências, o que transcende o tempo. Eu não queria ninguém distraído com figurinos ou o interior das casas.”

Em determinada cena de um dos oito episódios desta primeira temporada, o personagem de Jonathan Pryce, criador do Loop, a máquina debaixo daquela cidade, cuida do jardim com seu neto. Na cena seguinte, lá estão eles de novo, caçando vaga-lumes. Em seguida, fazem um passeio em meio à natureza. Tudo isso costurado por um roteiro que não poupa frases de efeito —“tudo é possível” é a mais frequente delas.

Essa escolha descola “Tales from the Loop” dos chavões da ficção científica, permitindo que a série siga um caminho próprio —o que pode frustrar os mais aficionados pelo gênero. Mas Halpern garante que foi cuidadoso, afinal, ele próprio é fã desse tipo de história.

“Como eu sou fã de ficção científica, é óbvio que há muito disso na série. Mas normalmente nós vemos muitos títulos do gênero apresentando personagens que estão lá para servir à ficção científica. Eu queria inverter isso e usar a ficção só para amplificar o que os personagens estão sentindo, exteriorizar suas experiências pessoais. A ficção científica está lá meramente para dar apoio aos personagens.”

É por isso que cenas como a do robô gigante na paisagem bucólica podem parecer até sem graça, mesmo que tenham certo fascínio visual. “Nós gravamos com base na premissa de que, se um robô estiver em um campo, ele não deveria ser tratado de uma maneira mais especial do que, digamos, um trator seria.”

Cada episódio de “Tales from the Loop” é diretamente inspirado numa ilustração de Stalenhag. Halpern observava as imagens e criava uma história para cada uma delas, costurando, enfim, seus personagens inéditos por meio do Loop.

Isso deu à série um quê de antologia, apesar de cada episódio ter, sim, uma relação com seus antecessores e sucessores. Contribui para esse aspecto o fato de cada capítulo ser comandado por um diretor diferente, como Jodie Foster e Andrew Stanton, da animação “Wall-E”, de 2008.

Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield no filme "Não Me Abandone Jamais"
Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield no filme "Não Me Abandone Jamais" - Divulgação

O primeiro deles ficou com Mark Romanek, que já trabalhou com a atmosfera de “futuro vintage” tão presente em “Tales from the Loop”. É dele “Não Me Abandone Jamais”, filme de 2010 sobre uma sociedade distópica em que clones são criados como uma espécie de reservatório de órgãos para seus originais. Assim como a série, o drama está mais interessado em falar dos humanos que o povoam do que de avanços científicos.

“Os produtores sugeriram ao Nathaniel [Halpern] que eu fizesse o episódio piloto, então eu acho que eles devem ter gostado de ‘Não Me Abandone Jamais’”, brinca Romanek, também por telefone. “Eu li o roteiro e o amei, então pensei que seria uma boa oportunidade de contribuir para a história.”

“Eu sinceramente não pensei muito no filme enquanto dirigia o episódio, mas talvez porque esse seja o meu gosto pessoal [a atmosfera vintage]. Mas nós todos sabíamos que queríamos que ‘Tales from the Loop’ tivesse uma atemporalidade semelhante. Nós não queríamos fetichizar o período como outras séries fazem, porque essa não é uma série nostálgica.”

Tales from the Loop

  • Onde Disponível na Amazon Prime Video
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