Descrição de chapéu The New York Times

Tom Hanks apresenta 'Saturday Night Live' sem figurinos, cenários e público

Larry David imita Bernie Sanders no primeiro episódio não presencial dos 45 anos de história do programa

Dave Itzkoff
The New York Times

Que cara teria um “Saturday Night Live” sem figurinos, cenários, cabelos e maquiagem produzidos profissionalmente? Sem audiência no estúdio e sem que os integrantes do elenco possam estar no mesmo lugar ao mesmo tempo? Neste final de semana, pela primeira vez nos 45 anos de história do programa, as plateias tiveram a oportunidade de descobrir.

Começando pelo esquete de abertura, do qual os 17 membros do elenco participaram por videconferência, de suas casas, onde estão de quarentena, e terminando com Kate McKinnon exclamando “ao vivo do Zoom, em algum momento entre março e agosto!”, ficava evidente que não estávamos vendo um episódio usual do programa.

Mas ainda assim a equipe fez o possível para manter os elementos conhecidos, convidando Tom Hanks para apresentar e Chris Martin como atração musical e recorrendo a ex-integrantes do elenco que ficaram famosos e aos seus amigos entre as celebridades.

tom hanks em casa
Tom Hanks apresenta de casa o programa "Saturday Night Live", no sábado (11) - Reprodução/Instagram

Foi pouco mais de um mês atrás —em 7 de março, para ser exato— que o “Saturday Night Live” veiculou seu mais recente episódio ao vivo, de seu estúdio habitual (Studio 8H) no Rockefeller Center, em Nova York. Daniel Craig (cujo novo filme como James Bond, “No Time to Die”, tinha tido sua estreia adiada quatro dias antes) foi o apresentador convidado, The Weeknd foi a atração musical e a senadora Elizabeth Warren, que havia acabado de deixar a disputa pela indicação presidencial do Partido Democrata, apareceu de surpresa no esquete de abertura.

Houve até um par de quadros que brincaram com os efeitos inesperados que o avanço do coronavírus teria sobre nossas vidas. E rimos deles, naquele momento.

Mas poucos dias mais tarde os programas noturnos de entrevistas anunciaram que suspenderiam sua produção. “Saturday Night Live”, com seu elenco numeroso e produção substancial, podia fazer o mesmo.

Mesmo assim, o programa optou por voltar ao ar, com o número habitual de esquetes e oferecendo aos telespectadores um vislumbre das casas do pessoal do elenco. (Muita gente vai guardar na memória o violão colocado em um lugar de destaque no apartamento de Colin Jost.)

É claro que o som falhou em alguns momentos, ou a iluminação não funcionou, e que a coisa toda teve um jeito de vídeo safra 2009 no YouTube. Mas o espírito habitual de risco e de improviso de “Saturday Night Live” —vamos tentar isso e ver se cola— esteve presente, e muito do que eles tentaram colou.

Monólogo de abertura da semana

Hanks, que apresentou “Saturday Night Live” muitas vezes, começando na metade da década de 1980, apareceu em um segmento gravado em sua casa e zombou de seu status como uma das primeiras celebridades a anunciar que era portadora do coronavírus. Ele e sua mulher, Rita Wilson, estavam na Austrália em março quando descobriram ser portadores do vírus. Foram tratados em um hospital lá e tiveram alta depois de alguns dias.

“Desde o meu diagnóstico, eu me transformei ainda mais no papai da América”, disse Hanks, “porque ninguém quer ficar perto de mim por muito tempo e causo desconforto às pessoas”.

Ele disse ter sido bem tratado na Austrália e acrescentou que “eles medem temperatura em graus Celsius e não Fahrenheit. Por isso, quando me disseram, na consulta que eu estava com 36 graus, fiquei preocupado. Mas 36 é bom. Ruim seria 38. Ou seja, é basicamente como Hollywood trata as atrizes".

Antes de agradecer ao pessoal do hospital, aos profissionais de saúde que estão cuidando das emergências e outras pessoas que estão ajudando, Hanks informou aos espectadores que aquela edição de “Saturday Night Live” seria incomum.

“Vai ser um pouco diferente daquilo que vocês se acostumaram a ver?”, ele questionou. “Sim. Vai ser estranho ver esquetes sem cenários elaborados e sem figurinos? Com certeza. Mas vai fazer com que vocês riam? É ‘Saturday Night Live’. Algumas coisas serão engraçadas, uma ou duas serão bombas. Vocês sabem como funciona.”

Imitações políticas da semana

A falta de figurinos e de maquiagem especial não impediu o elenco de retomar algumas de suas imitações mais conhecidas de figuras políticas. Usando óculos de velhinha e uma camiseta onde se lia “Super Diva”, McKinnon interpretou a juíza Ruth Bader Ginsburg, da Suprema Corte. como apresentadora de um programa caseiro de fitness.

Posicionada diante de cartazes desenhados a mão para decorar as paredes, McKinnon se exercitou levantando cotonetes, socando sacos de chá e disparando alguns dos insultos pessoais que ela chama de “Ginsburns”: “Você está no Congresso ou no Parlamento? Porque seu timing é ‘funkadelic’”.

Mais adiante, Larry David apareceu em um segmento como o senador Bernie Sanders, lamentando seu recente abandono da corrida presidencial, e não pediu desculpas por não estar tão parecido assim com Sanders. “Por causa do estresse da campanha e do coronavírus, perdi muito cabelo no topo da cabeça, e tenho certeza de que vai demorar a voltar”, disse David.

Ele disse que tinha estoque suficiente de papel higiênico. “Tenho 78 anos e moro em Vermont, oras”, ele disse. “Tenho uma sala inteira cheia de papel higiênico. E não é do bom. Uma lixa. Pense em papel higiênico de penitenciária.”

E, apesar de tudo, David como Sanders disse que estava feliz por não estar mais na disputa pela candidatura democrata. “Até que enfim tenho tempo de relaxar e concluir aquele ataque cardíaco de outubro”, ele disse. “Mas meu plano imediato é fazer tudo que eu puder para derrotar Donald Trump. Por isso é que vou votar em Joe Biden com o mesmo entusiasmo que Joe mostrou ao votar pela Guerra do Iraque”.

Esquetes que teriam sido produzidos em uma versão normal de 'Saturday Night Live'

Foi animador ver o elenco do programa tentando o tipo de esquete que seria produzido normalmente no estúdio.

Em um segmento, zoando as novas tecnologias que de repente se tornaram onipresentes, McKinnon e Aidy Bryant interpretaram duas colegas de trabalho ligeiramente ineptas que simplesmente não conseguem descobrir como participar de uma conversa via Zoom. (McKinnon trava sua tela de vídeo em uma foto de Wayne Brady, e Bryant acidentalmente leva o laptop quando vai ao banheiro. “Achei que esse computador só me deixava jogar paciência!”)

E o que seria de “Saturday Night Live” sem paródias de game shows? A desta semana, chamada “How Low Will You Go?”, era um programa de encontros apresentado por Beck Bennet, com Bryant, Heidi Gardner e Ego Nwodin como participantes solteiras que acabam de sair da quarentena e aceitam encontros com qualquer um.

Ainda que Bennett tente convencer Nwodin a rejeitar um candidato desesperado interpretado por Mikey Day, Nwodin escolhe ignorar o conselho, dizendo: “Olha, a última coisa quente que eu tive na mão foi fermento”.

Os destaques da semana no jornal 'Weekend Update'

Antes que Colin Jost e Michael Che, os apresentadores do “Weekend Update”, começassem a brincar com as mais recentes manchetes, eles explicaram que incluiriam sons de risadas de uma plateia (invisível).

“Fazer piadas sem ninguém ouvindo é como gravar vídeos de reféns”, disse Che. “Comédia sem plateia é como namorar a distância e ouvir sua namorada dizer que vocês não podem fazer sexo, tudo bem, mas podem conversar no FaceTime. E você imediatamente pensa que o melhor seria trai-la com alguém.”

Jost logo emendou com as notícias eleitorais.

“Bernie Sanders abandonou a disputa. O que significa que Joe Biden é o virtual candidato democrata em 2020. Eu gostaria de dizer um muito obrigado, em nome de todos os humoristas. Estou muito empolgado porque, seja Trump, seja Biden, teremos material para comédia pelos próximos quatro anos. Potencialmente, com Biden, por oito anos. Vocês conseguem imaginar o que Biden vai estar dizendo daqui a oito anos?”

Che acrescentou: “É agridoce, porque eu na verdade gosto de Bernie Sanders, mas ele perder e deixar aquela molecada branca progressista toda triste no Twitter é a única coisa que me animou esta semana. Cara, sempre que estou deprimido, entro na internet e vejo os partidários dele se esforçando muito, muito mesmo, para não culpar os negros pela derrota. Eu gostava dele, mas sabia que ele não teria o voto negro, porque passava o tempo todo falando em sistema de saúde. Nós não vamos ao médico, cara”.

“Weekend Update” também incluiu uma participação telefônica de Alec Baldwin em seu papel recorrente como o presidente Donald Trump. “Fico feliz por informar, Colin, que a América agora é a líder mundial em coronavírus”, ele se vangloriou, acrescentando em seguida que “eu sempre disse que isso era uma gigantesca trapaça que precisávamos levar muito a sério. Mesmo que tenha sido inventado pelos democratas. Impeachment, parte dois. Todo mundo precisa lavar as mãos. Ou não”.

Mencionando a série “A Máfia dos Tigres”, da Netflix, Baldwin disse: “Em um momento como esse, precisamos nos unir como nação. Porque, não importam nossas diferenças, todos os americanos concordam quanto a uma coisa: Carole Baskin com certeza serviu o marido como comida para os tigres”.

Mais tarde no segmento, Che homenageou sua avó, que morreu durante a semana devido a complicações causadas pelo coronavírus. Ele disse a Jost que as trocas de piadas insultuosas entre eles eram a parte favorita do programa, para sua avó, e pediu que ele lesse uma piada contendo uma ofensa racial.

Quando Jost atendeu, Che disse: “Minha avó nunca assistiu ao programa. Eu só queria forçar você a fazer isso. Ela acordava tipo às quatro da manhã, para rezar. Você acha que ela assistia a 'Saturday Night Live’? Nunca”.

Tributo a Hal Willner

O programa da semana terminou com um segmento de homenagem a Hal Willner, coordenador musical do “Saturday Night Live” por muito tempo, que morreu na terça-feira, aos 64 anos. Veteranos do programa como Fred Armisen, Bill Hader, John Mulaney e Adam Sandler falaram sobre Willner, um homem de gosto musical onívoro que também foi produtor de artistas como Lou Reed e Marianne Faithful.

Um coro que incluía Rachel Dratch, Tina Fey, Ana Gasteyer, Paula Pell, Amy Poehler, Maya Rudolph, Molly Shannon e Emily Spivey, todas elas antigas integrantes do elenco de “Saturday Night Live”, cantou “Perfect Day”, de Reed, em homenagem a Willner.

Tradução de Paulo Migliacci

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