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The New York Times Televisão

Trump se gaba de ibope de seus anúncios sobre coronavírus na TV

Suas entrevistas coletivas são tão vistas quanto o episódio final de 'Bachelor' ou do 'Monday Night Football', escreveu no Twitter

James Poniewozik
The New York Times

“Eu passei a gostar desta sala”, disse o presidente Donald Trump na sala de imprensa da Casa Branca, em 23 de março.

Se as paredes tivessem ouvidos, a declaração as surpreenderia. Até recentemente, o governo Trump vinha praticamente dispensado os briefings formais a jornalistas e o presidente preferia conversar com repórteres em meio ao ruído prestativo de um helicóptero ou nos estúdios da Fox News.

Mas a sala de imprensa oferece um conforto a que Trump, subitamente desprovido de viagens e comícios por conta da pandemia, não consegue resistir: câmeras.

Ele se tornou um astro no horário nobre graças à TV, uma figura política graças à TV e presidente graças à TV. Mas, como presidente, ele não tinha até agora aquilo que teve com “O Aprendiz”, da rede NBC: um programa regular de TV no qual ele pode interpretar o papel de executivo em controle da situação.

Donald Trump e seu vice Mike Pence (dir.) durante entrevista coletiva á imprensa na Casa Branca - Tom Brenner/Reuters

Agora, os briefings sobre o coronavírus lhe deram uma nova plataforma diária, ao vivo e sem filtros, diante de uma audiência nacional cativa. Fiel ao seu currículo, ele vem conduzindo as sessões como uma espécie de reality show ou como um “faça seu próprio reality show”.

Nessa realidade —sujeita a verificações de fatos posteriores pela imprensa e a recuos por parte de outros funcionários do governo—, a assistência e o equipamento necessários estão sempre para chegar. Reportagens precisas sobre os conflitos entre Trump e os governadores quanto ao apoio federal aos estados são “fake news”. E ninguém poderia ter antecipado uma pandemia como esta, a despeito de alertas, preparativos e de uma infraestrutura de saúde pública cujo objetivo é exatamente esse.

Os briefings diários sobre o coronavírus, cujos horários agora tendem a coincidir com os dos telejornais das redes de TV aberta e dos canais noticiosos de TV a cabo, são uma viagem. O presidente os inicia lendo comunicados sobriamente. (Na quinta-feira, ele leu os nomes de todos os líderes do G20.) Trump às vezes é expansivo —e chegou até, espantosamente, a elogiar a mídia—, mas também se mostra irritadiço (“eu quero que eles demonstrem apreciação”, ele disse na sexta-feira sobre os governadores americanos).

Há drama e intriga, como as informações de que o presidente talvez esteja se desentendendo com assessores como o médico Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas. Há a entrada em cena do protagonista, Trump, ladeado por assessores, a fim de anunciar os assuntos e as manchetes do dia.

E há um conflito final como costumava haver na sala do conselho de "O Aprendiz”, em uma sessão de perguntas nas quais os jornalistas amistosos são elogiados e aqueles que fazem perguntas que Trump não quer responder são chamados de “terríveis”. Depois disso, Trump deixa a sala e os dirigentes da saúde pública assumem o controle para editar os comentários do presidente e as orientações ocasionalmente divergentes que eles geram para criar uma narrativa coerente.

Os críticos de Trump dizem que os pronunciamentos são simplesmente comícios eleitorais em outra forma. As duas coisas têm elementos em comum: as ladainhas, os insultos a jornalistas e rivais políticos, as declarações autoelogiosas e o uso seletivo da história.

Como em seus comícios, as digressões de Trump às vezes desafiam tanto a ciência quanto a sintaxe, como sua observação de que as crianças tendem a ser menos afetadas “por essa pandemia, por essa doença, por —o que quer que desejem chamá-la, podem chamar de germe, podem chamar de gripe, podem chamar de vírus, vocês sabem, é possível chamá-la de muitas coisas diferentes, e não tenho certeza de que alguém saiba o que é”. (É um vírus.)

A diferença fundamental é que os comícios de campanha de Trump se dirigem aos fiéis. Eles são concebidos para energizar sua base e ultimamente só a Fox News os transmite. Os pronunciamentos são algo que Trump não vinha fazendo desde que declarou Leeza Gibbons como vencedora de sua última temporada de “Celebrity Apprentice” em 2015: um programa de TV dirigido a um público de massa.

Trump, um sujeito obcecado por números mesmo em momentos mais normais, recorreu ao Twitter para se vangloriar de que seus pronunciamentos sobre uma catástrofe mortífera tinham ótimos índices de audiência: “Porque a ‘Audiência’ de minhas Entrevistas Coletivas etc. é tão alta, números como os do episódio final de ‘Bachelor’ ou do ‘Monday Night Football’, de acordo com o @nytimes, a mídia tropecional fica INSANA: ‘Trump está atingindo pessoas demais, precisamos detê-lo’, disse um lunático. Vejo vocês às 17h!”.

Seu público —trancado em casa, na sala, com as telas ligadas— está em busca de informações de saúde, não de sensacionalismo. As pessoas temem por suas vidas e por seus empregos. Querem informações, querem ação, querem um motivo para acreditar que as coisas vão melhorar.

Não existe ativo mais importante para um vendedor ou político do que um público que deseja acreditar. Se você deseja acreditar, eis o que pode ver: o presidente dos Estados Unidos, em uma tribuna, cercado por uma equipe de assessores e especialistas, fazendo alguma coisa —ou pelo menos dizendo alguma coisa, ou muita coisa, o que, na linguagem visual da TV, dá na mesma.

Não são só os telespectadores em casa que querem ter fé. Em 17 de março, quando Trump decidiu adotar um tom de preocupação, depois de passar semanas minimizando o vírus, Dana Bash, da CNN, disse que ele estava sendo “o tipo de líder de que as pessoas precisam, pelo menos em termos de tom”.

Uma semana depois, ele apareceu em uma “reunião virtual com eleitores”, na Fox, dizendo que “perdemos milhares e mais milhares de pessoas a cada ano para a gripe —e não paralisamos o país” e instando os Estados Unidos a reabrirem sua economia para a Páscoa. (O apresentador, Bill Hemmer, celebrou, dizendo que isso seria “uma grande ressurreição americana”.)

E para Trump, os pronunciamentos permitem tornar sua resposta à pandemia, de uma narrativa seriada —na qual ele deveria prestar contas por sua ação, ou inação, cumulativa— em uma produção episódica, para a qual tudo que importa é o que é martelado no mais recente episódio.

Nessa produção, cada episódio quer partir do zero, como uma sitcom na qual o status quo é restaurado. Todos aqueles comentários de que o coronavírus é igual à gripe e sobre como os casos logo cairiam a zero e sobre não querer receber passageiros infectados de navios de cruzeiro porque “gosto dos números onde estão”? Essa é a temporada passada.

O que importa, à medida que os pronunciamentos prosseguem, é o que vem a seguir, a nova retórica, o drama mais recente. “O presidente estará lá?”, perguntou Wolf Blitzer, da CNN, ao anunciar o briefing de 25 de março. “O doutor Fauci estará lá?”

Há alguma programação compensatória, especialmente os pronunciamentos matinais do governador Andrew Cuomo, de Nova York, que parecem oferecer a resposta oficial dos democratas. (O candidato presuntivo da oposição, Joe Biden —cuja estratégia de mídia parece ter como premissa a ideia de que as pessoas não querem mais assistir ao show de Trump— não está conseguindo se fazer ouvir por sobre o ruído e fica limitado ao equivalente a conversas no FaceTime.)

Os pronunciamentos de Cuomo são meio papo sério, meio sessão de amparo emocional. O tom dele é tanto mais grave quanto mais emotivo que o do presidente —uma espécie de estilo nova-iorquino mais urbano que o papo de vendedor suburbano de Trump. Na sexta-feira, ele pediu a um grupo da Guarda Nacional que imaginasse um dia, dentro de uma década, em que eles recordariam o quanto trabalharam e quantas pessoas não conseguiram salvar, mesmo assim, e concluiu: “Por isso digo, amigos: vamos ao trabalho, vamos chutar o traseiro do coronavírus!”.

Mas é o presidente que ocupa o horário nobre, com ajuda das redes, que —sabendo que ele faz declarações objetivamente falsas em seus pronunciamentos— recaem na resposta fácil de que, quando um presidente fala durante um momento de emergência nacional, isso é automaticamente notícia. (É verdade: se o presidente está espalhando desinformações, deliberadamente ou não, durante uma crise de saúde pública, isso é com certeza notícia. Mas não significa que transmitir o momento ao vivo seja um serviço.)

A carreira de Trump sempre se baseou na premissa de que aparências são tudo. Isso pode estar se provando efetivo para ele agora, se considerarmos as audiências que conquista na TV a cabo e a melhora de seus números nas pesquisas. Mas essa estratégia de mídia tem limites. Não se pode descartar uma doença ou zombar dela com um apelido maldoso, como se o coronavírus fosse Don Lemon ou Nancy Pelosi.

Na TV e na política, é possível ir bem longe quando você produz um reality show de sucesso. Mas um vírus produz sua própria realidade.

Tradução de Paulo Migliacci

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