Adriana Calcanhotto canta 'funk da quarentena' em disco feito em isolamento

'Tiro o pijama, boto uma roupa, tomo café e vou fazer uma música', diz a cantora, que lança o álbum 'Só', sobre a rotina

São Paulo

"O que temos são janelas, o que temos são panelas”, Adriana Calcanhotto canta sobre o isolamento social em “O Que Temos”, faixa de seu novo disco, “Só”. No caso da cantora, restou a música.

“Moro no meio da mata, encrustada na floresta, na Tijuca”, diz. “Não ouço panelaço, não ouço a vida urbana do Rio de Janeiro. Estar em casa, ouvindo as notícias, me deu vontade de agir, querer ajudar, ser útil.”

a cantora adriana calcanhotto esconde parte do rosto atrás de roupa preta
A cantora Adriana Calcanhotto - Leo Aversa/Divulgação

Calcanhotto compôs e gravou nove músicas em pouco mais de 40 dias, resultado de uma nova rotina. “É uma canção a cada dia. Tiro o pijama, boto uma roupa, tomo café e vou fazer uma canção. Não é certeza que saia uma música, e nem uma música que eu gravasse.”

“Só”, lançado nesta sexta (29), tem produção do paraense Arthur Nogueira, e foi feito com músicos —incluindo Bem Gil, STRR e Leo Chaves, entre outros— espalhados por Belém, São Paulo, Salvador e Rio, cada um de sua casa. A dinâmica não é nova para Calcanhotto, assim como compor em isolamento

“Caetano já compôs músicas incríveis com a sala cheia de pessoas, criança correndo”, diz. “Acho que quanto menos dispersão, mais criativa eu fico.”

A produção de “Só”, ela diz, lembrou o segundo disco da cantora, “Senhas”, de 1992. Na época, Calcanhotto passou um verão chuvoso sozinha em seu apartamento em Ipanema, escrevendo para o álbum. “A diferença é que lá eu sentei pra fazer o disco e agora, não, é uma condição diária”.

Essa urgência é uma das marcas de “Só”, primeiro álbum completamente autoral de Calcanhotto (“O Micróbio do Samba”, de 2011, teve uma faixa escrita em pareceria com Dadi).

Em “Ninguém da Rua”, a cantora reflete sobre o clima das cidades com ruas vazias. “Era Só” trata de solidão e saudade, enquanto “O Que Temos” explora a angústia da dificuldade de agir estando em casa.

Entre outras coisas, "Só" foi impulsionado pelo término do contrato de Calcanhotto com a Sony. Isso aconteceu depois de “Margem”, disco lançado no ano passado e que havia sido gerido durante dez anos.

“Há um frescor nessa urgência que, para o ouvido das pessoas, acho que faz sentido. E tem o fato de poder lançar no momento em que foi feito, na quarentena. É urgência, espírito emergencial —e não correria.

Mas “Margem”, que encerrou a trilogia do mar —que teve também “Maritmo”, de 1998, e “Maré”, de 2008—, já dava indícios da estética de “Só”. Nos dois álbuns, ela recorreu com mais frequências a batidas eletrônica e uma maior variedade rítmica.

“Se eu fosse fazer as nove canções no violão, talvez não conseguisse. E, com os beats, abrem-se possibilidades harmônicas que no violão eu não conseguiria. Compus algumas no violão, mas a maioria fiz nessas batidas.”

Calcanhotto conta que costuma pesquisar no YouTube bases usadas para slams para compor. O método também vem da vontade de colocar em prática os conceitos que ela discute em seu curso de composição na Universidade de Coimbra, em Portugal.

“Tenho pensado agora que o que fiz fazendo o disco foi fazer o curso. Coisas que eu proporia esse ano, e que já propus nos outros anos. Entre elas esse mito de que você precisa ser um instrumentista para ser compositor. Existem essas batidas para você treinar, não há nada melódico, é básico. E ajuda a compor.”

Capa do disco 'Só', da cantora Adriana Calcanhotto
Capa do disco 'Só', da cantora Adriana Calcanhotto - Leo Aversa/Divulgação

Como resultado, além da MPB de violão e do samba pelos quais ela é conhecida, há canções que esbarram no trip hop e no funk. Há inserção das batidas do gênero em algumas faixas e, em “Bunda Lê Lê”, Calcanhotto faz o “funk da quarentena”, com participação do Dennis DJ.

“Tive essa brincadeira de fazer uma música com as letras que o funk usa, que são ‘senta’, ‘vai’, e ‘bunda’. O Dennis tem a ver porque ele tem esse lado lúdico, brincalhão, sem perder a atitude funk, os graves e tudo mais.”

“Senta a bunda e estuda”, “senta a bunda e lê”, “senta a bunda e vai” são versos da faixa.

"O que mais gosto do funk é a batida. Acho incrível. Mas sempre penso nas letras. Tudo bem as que já existem, mas poderiam fazer as letras de outro jeito. Penso que tonaria o funk ainda mais popular, no sentido de mais abrangente, de todo mundo ouvir e dançar funk. Às vezes, as letras constrangem, impedem.”

Em “Só”, há ainda uma homenagem à cidade de Coimbra, onde ela dá aulas, na faixa “Corre o Munda”, seu lado romântico triste (“Tive Notícias”) e todo o álbum é dedicado a Moraes Moreira —nas palavras dela, “o homem da alegria”—, morto em abril.

Calcanhotto diz que ficou incomodada com a falta de homenagem por parte da Secretaria Especial da Cultura, então comandada pela atriz Regina Duarte. “O que fica claro é que ela não teve liberdade para isso. Nitidamente, entraria em conflito com o governo.”

Mas a homenagem ao lendário violonista e cantor dos Novos Baianos, ela diz, é uma mensagem às pessoas —de usar a alegria como combustível.

“Tem dias melhores, e tem dias que as notícias abalam. Mas uma coisa boa da quarentena é a gente ficar mais perto da noção de que temos que viver o dia-a-dia. Você não anota na sua agenda que um meteoro vai cair na Terra. Isso bota as coisas um pouco no lugar. Nada é sempre só ruim ou só bom.”

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