Descrição de chapéu
The New York Times

Como estamos usando o corpo para nos orientar numa pandemia?

O coronavírus nos ensina novas coreografias cotidianas; o distanciamento social não apenas honra o espaço, ele o celebra

Gia Kourlas
The New York Times

Antes da pandemia de coronavírus, um rio de pedestres —meio maníaco, meio sem noção— subia pela escada rolante de uma estação de metrô de Nova York na hora do rush. Pessoas olhando fixamente para seus celulares bloqueavam a entrada da escada rolante. Quando finalmente subiam na escada, elas se posicionavam do lado esquerdo. Era uma confusão.

Você se coloca do lado direito se vai ficar parado; para ultrapassar, você vai pela esquerda. Essa é a coreografia do cotidiano.

Eu me vi orientando pessoas, mostrando onde deveriam se posicionar e quando deviam andar. Enquanto a metade inferior da escada rolante começava a se organizar, notei que algo semelhante estava acontecendo na parte de cima. Reconheci a voz vinda lá do alto: era Ori Flomin, bailarino, professor e coreógrafo. Nós nos vimos e demos risada.

“É claro”, ele comentou. “Somos nós [bailarinos] que estamos organizando as pessoas no espaço.”

Ando pensando muito em coreografia ultimamente. Não no tipo de coreografia apresentada sobre um palco, algo ao qual não vamos assistir no futuro previsível, mas na coreografia do espaço: como estamos usando o corpo para nos orientar numa pandemia?

Nesta época de confinamento, recebemos uma dádiva de valor imensurável: a liberdade de sair de casa.

Em contrapartida, precisamos seguir uma regra simples: manter dois metros de distância de outras pessoas. Em termos de intenções coreográficas, isso não é nem um pouco vago. Mas, nas corridas e caminhadas que venho fazendo nos últimos dias, tenho notado que dois metros não significam a mesma coisa para todo o mundo.

Como a coordenação motora, a consciência espacial não é um dado. Observar as escolhas que as pessoas fazem quando se movimentam em público, o que dirá nesta época de distanciamento social, pode ser chocante, desde o turista tão criticado que para de repente no meio da Times Square até a mulher com esteirinha de ioga que empurra outras pessoas de lado para conseguir seu espaço no chão (tudo bem; ela ainda vai poder se sentir bem quando abaixar a cabeça e disser “namastê”).

Agora a coreografia das ruas ganhou importância adicional. É a diferença entre saúde e doença, vida e morte. Dentro de casa, estamos sós. Fora dela, um novo estado de atenção se faz necessário, uma atenção que requer uma conexão profunda com a posição e o movimento do corpo —a propriocepção, algo às vezes descrito como o sexto sentido. Feche os olhos e se equilibre sobre um pé: quanto mais sua propriocepção, ou informação sensorial, entrar em jogo, mais o ajudará a permanecer em posição vertical. Oscilações e quedas são normais, mas isso significa que está na hora de trabalhar seu equilíbrio.

Essa sensação e esse controle de onde estamos no espaço é importante neste momento. Os dançarinos captam isso de modo inerente, graças a anos de treino e atenção sensorial. Se esta pandemia nos está ensinando alguma coisa, é que precisamos retornar ao corpo. A vida é preciosa, e o movimento, também.

“O mau uso que fazemos do corpo é medonho”, comentou uma vez o coreógrafo e bailarino pós-moderno Steve Paxton. “A dança nos faz ganhar consciência disso outra vez. A dança explora algumas das possibilidades físicas; ela refocaliza nossa mente sobre a existência muito básica, e o tempo, o espaço e a gravidade se abrem à criatividade. Isto me parece ser algo que nos conduz de volta à natureza, à nossa natureza.”

A dança não está mais sendo apresentada ao vivo sobre palcos, mas sua materialidade assombra Nova York. É como se fosse um fantasma amigo. A proliferação de aulas de dança sendo oferecidas no Instagram é um sinal de que a dança pode ser o tipo de remédio que nosso corpo necessita?

Junto com isso vem o "mindfulness", palavra que se tornou sinônimo demais de autocuidado. Mas concentrar nossa atenção sobre o momento presente é uma necessidade. Quando estou caminhando ou correndo —e estou prestes a comprar uma corda de pular—, assisto a muita desatenção.

Por que será que é a pessoa usando máscara —praticamente uma máscara ninja completa, como se quisesse eliminar dejetos radiativos— quem frequentemente caminha diretamente para você? O que leva aquele casal correndo lado a lado sobre a ponte Williamsburg a achar que tudo bem passar a apenas centímetros de distância de um homem mais velho? O que se passa na cabeça daqueles corredores usando camisetas de finalistas de maratona quando se espalham por uma trilha, ocupando todo o espaço, para baterem um papo, dispersando suor e saliva no ar?

Ou uma “raça” nova se revelou, uma raça de pessoas que se acham no direito de fazer tudo isso, ou as pessoas estão mostrando o quanto ignoram o lugar ocupado por seu corpo no espaço.

Quando você caminha fora de casa, é responsável por mais do que apenas você mesmo. Estamos nesta juntos, e, nesta era do coronavírus, o movimento tem moral e consequências. Tem sua própria partitura coreográfica, ou conjunto de instruções.

Caminhar ou correr no meio de uma calçada não é mais aceitável. Escolha uma das bordas. Quando passar por alguém em qualquer direção, deixe um espaço de dois metros entre você e a outra pessoa —depois de se certificar de que não há ninguém atrás de você. E o que dizer de caminhar ou correr lado a lado numa trilha estreita? Você só pode estar brincando. Caminhe ou corra em fila.

Se você estiver parado numa fila, crie algum espaço. Sinta o chão. Brinque com a gravidade. Conheça seus pés. Comece a reconhecer que existe movimento até mesmo na imobilidade.

Quando você olha para onde está indo, você enxerga coisas. Antigamente se viam camisinhas jogadas nas calçadas; hoje as calçadas estão cheias de luvas descartáveis atiradas no chão. Parece que esses dois objetos de proteção têm grande importância —até a hora de encontrar uma lata de lixo.

Mas o que não podemos jogar fora, especialmente na rua, é a proteção e graça do distanciamento social. A pandemia criou algo fascinante: uma nova maneira de nos movimentar, uma nova maneira de dançar nas ruas.

Às vezes pode parecer um jogo da galinha. Qual será o primeiro a ceder, dando espaço ao outro? Qual é o último movimento ou salto a ter virado um passo de sobrevivência?

Uma coisa parece certa: vai levar algum tempo para os duetos recuperaram seu lugar na cultura da dança. (Depois que o mundo se endireitar outra vez, prevejo anos de danças solo, assim como, depois do 11 de Setembro, a coreografia estava cheia de bailarinos olhando para o alto.) Mas os duetos apareceram em toda parte na vida real. Seu parceiro é um desconhecido; o palco é a calçada.

Paxton tinha razão em dizer que precisamos concentrar nossa atenção outra vez, precisamos voltar ao fundamental. O distanciamento social não apenas honra o espaço —ele o celebra.

Uma coisa estranha aconteceu quando eu estava correndo outro dia: minha playlist aleatória foi parar em Bach, a mesma música usada na primeira seção de “Esplanade”, de Paul Taylor, sua obra-prima de 1975 baseada nos movimentos do cotidiano. Não há um único passo de dança nele, assim como não havia na minha corrida. Mas correr, assim como caminhar, é se movimentar no tempo e no espaço. E de repente pareceu uma dança.

Na década de 1960, uma geração de coreógrafos experimentais foi suficientemente progressista para abraçar a beleza e sabedoria do movimento pedestre: ficar em pé, sentar-se, caminhar, correr. Agora, quando nos vemos numa situação em que valorizamos aquilo que sempre consideramos natural e garantido, precisamos retreinar nossa mente, além do nosso corpo, porque neste momento somos todos dançarinos. E precisamos começar a agir como tais.

Tradução de Clara Allain

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