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Entenda por que há tantas séries adolescentes cheias de sexo e drogas na Netflix

Séries de países do mundo todo vêm no rastro de 'Elite' uniformizar a experiência teen nas telas

menina sentada em vidro ouvindo música contra paisagem montanhosa

Ana Valeria Becerril em cena da série mexicana "Control Z", que estreia na Netflix Netflix/Divulgação

São Paulo

A vida entre casa e escola, uma protagonista deslocada, a descoberta do sexo, bullying no colégio, transgressão contra os pais, festas ensurdecedoras e o primeiro contato com drogas. Sabe que série é essa, né?

Pois é, não dá para saber. Só na Netflix e no último mês, estrearam quatro produções que ticam vários desses itens, adicionadas ao topo na pilha de um sucesso atemporal —os dramas adolescentes.

A americana “Eu Nunca...”, a turca “Love 101”, a sul-africana “Sangue e Água” e agora a mexicana “Control Z” —que entra no serviço nesta sexta— vêm se somar a sucessos da plataforma como a britânica “Sex Education” e a espanhola “Elite”, só para lembrar algumas.

Todas essas séries são marcadas por uma visão uniformizada da experiência adolescente, em uma linguagem própria que está se consolidando a partir da fórmula consagrada por seriados e filmes americanos desde os anos 1980.

Talvez salte aos olhos a nacionalidade diferente de todos esses seriados, e não é por acaso. É uma ilustração cristalina da estratégia da Netflix de investir pesado na produção de conteúdo para o nicho adolescente.

“Uma razão da popularidade desse tipo de série talvez seja a universalidade inerente aos temas que exploram, não importa sua idade”, afirma Brian Wright, vice-presidente de séries originais para jovens e família da empresa.

“Isso, e a percepção de que jovens adultos viraram um fenômeno no mercado editorial e no cinema, mas nem tanto na televisão, foi o que nos inspirou a desenvolver conteúdo para esse público”, acrescenta ele. “Nossos assinantes querem ver um reflexo de suas vidas na tela, e nós queremos que nosso conteúdo seja tão diverso quanto eles.”

Juliana Gutmann, professora da pós-graduação em comunicação e cultura da Universidade Federal da Bahia, aponta que esse boom de séries adolescentes guarda ligação direta com a história da plataforma de streaming.

Quando a Netflix deixa de ser um mero veículo de distribuição e passa a produzir séries —o marco foi “House of Cards”, em 2013—, ela começa buscando um público que já consome esse tipo de produto, o que quer dizer adultos que migraram para lá da TV aberta ou por assinatura.

Com o passar dos anos, o interesse da empresa foi se voltando ao seu público nativo, ou seja, a geração que nunca foi fiel à televisão e consome audiovisual pela internet desde sempre.

“Meu filho, por exemplo, não via programas da TV aberta e passou muito rápido pelo consumo de DVD. Já foi fisgado com uns sete anos pela Netflix”, diz Gutmann. “Esse público hoje tem de 13 a 16 anos.”

Prova da coerência da narrativa é que uma das primeiras apostas nesse filão foi “Stranger Things”, que tanto falava com pré-adolescentes quanto acendia a nostalgia do público mais velho, saudoso da estética dos anos 1980.

Hoje, o menu é muito maior e se capilariza por diversos países. É importante entender que a empresa tem o hábito de contratar produtores locais para realizar suas séries e filmes, oferecendo distribuição global simultânea em nível impensável uma década atrás.

É o que possibilita a brasileiros, japoneses e australianos terem acesso, no intervalo de dois dias, à estreia de histórias teen produzidas na África do Sul e no México.

“O que muitos países estão fazendo é desenvolver estratégias para se adaptar ao que acreditam que o mundo quer assistir”, diz Ariane Holzbach, professora do curso de estudos de mídia da Universidade Federal Fluminense. “Criam narrativas com temáticas mais universalizadas, que ferem menos culturas, e adaptadas ao modo de fazer hegemônico dos Estados Unidos.”

Holzbach pondera que, nessa estratégia da Netflix de aumentar o conteúdo produzido em vários cantos do mundo, está embutido o fato de grandes estúdios americanos estarem limitando mais a disponibilização de suas séries e filmes, já que boa parte deles tentam criar seus próprios canais de streaming. Além disso, produções feitas em países asiáticos e latino-americanos são muito mais baratas.

Por essa lógica, é impreciso pensar na disseminação da cultura pop global como algo que se espraia só da matriz americana. Melhor é pensar numa globalização em múltiplas direções e fluxos, argumenta Juliana Gutmann, citando o exemplo do que aconteceu com o pop em espanhol.

“A explosão de ‘La Casa de Papel’ levou o espanhol à décima potência do pop, com músicas, memes, máscaras de Carnaval, e alavancou também o sucesso de ‘Elite’”, argumenta. Agora, a mexicana “Control Z” vem se apoiando no hype de ser uma possível sucessora de “Elite”, já desgastada depois de três temporadas.

Essas séries adolescentes todas vêm com o selo “produção original Netflix” e se aproximam de uma mesma estética, mas são sempre deglutidas e redesenhadas numa roupagem própria.

É verdade que seria quase impossível descobrir a nacionalidade de “Control Z” vendo sem áudio, mas basta ligar para ser invadido por um turbilhão de gírias muito próprias do México. “Sangue e Água” já tem marcas mais evidentes da cultura sul-africana, a começar porque se deleita nas paisagens da Cidade do Cabo e na trilha sonora local.

“Eu Nunca…”, que é produzida nos Estados Unidos com assinatura de Mindy Kaling, atriz formada em “The Office” e produtora em ascensão, tem muito de sua originalidade ancorada na ascendência indiana da protagonista.

Ainda que conte a boa e velha história da menina nerd que busca as primeiras experiências românticas, a série encontra um paralelo divertido na história da prima bem-sucedida que é pressionada pela família a um casamento arranjado.

A incorporação da diversidade é importante, comenta Brian Wright, da Netflix, porque muitos jovens buscam aprimorar o autoconhecimento nesse tipo de série.

Segundo ele, pesquisa recente da empresa no Brasil mostrou que 57% dos jovens de 16 a 25 anos buscam nesses conteúdos conselhos quanto a situações que estão acontecendo em suas vidas. E 69% deles buscam personagens que são muito parecidos com eles mesmos e seus amigos na hora de decidir qual programa ver.

Wright afirma ter em mente que brasileiros buscam mais conteúdo desse tipo, sublinhando que “Modo Avião”, longa-metragem teen com Larissa Manoela, se tornou o filme mais popular do serviço em uma língua que não é o inglês, com quase 28 milhões de visualizações.

A plataforma planeja mais um filme com a atriz de 19 anos para 2021 e ainda outro estrelado por Maisa Silva, 17, escrito por Thalita Rebouças. De seriado, planeja a segunda temporada de “Sintonia”, criada por KondZilla, que foi a terceira série nova mais vista no Brasil no ano passado.

Por essa experiência, é inegável que o flanco adolescente seja promissor na TV. A HBO ainda colhe os frutos da elogiada “Euphoria”, do ano passado, e os investimentos da Globo em adaptar “Malhação” para novos públicos têm tido sucesso —e até um Emmy internacional.

Fechado em casa por causa da pandemia, não precisa se julgar tanto por ficar horas no sofá maratonando série teen. Pode dizer que você está só acompanhando o zeitgeist.

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