Guru de cenas picantes de séries de TV diz que tudo é fingimento, menos beijos

Britânica explica como orienta atores em transas como as de 'Sex Education' e 'Normal People'

São Paulo

“Normal People”, adaptação para a TV do romance homônimo de Sally Rooney, bateu um recorde inusitado ao estrear, no mês passado, na plataforma de streaming Hulu. Segundo os jornais britânicos, ela é a série da BBC com mais tempo de sexo na tela, 41 minutos no total.

Também foi aplaudida pelo realismo das suas cenas picantes. A tal ponto que um compilado de 22 minutos de trechos da série foi parar no site pornográfico PornHub —a produção teve que intervir judicialmente para retirar o vídeo do portal, reportou a revista Variety.

Homem e mulher deitados na cama
Paul Mescal e Daisy Edgar-Jones em cena da série 'Normal People', da Hulu - Reprodução

O realismo da coisa se deve em parte à diretora de movimento britânica Ita O’Brien. Uma das mais incensadas da TV hoje, com séries como “Sex Education” no currículo, ela, que ainda é bailarina e atriz, pesquisa há cinco anos como garantir que atores se sintam protegidos ao encenarem transas.

A pesquisa resultou numa cartilha para cenas de sexo e nudez, rapidamente acolhida por agentes de talentos. “Eles contavam que seus atores iam para o set e, no primeiro dia, sem nem mesmo conhecer seu parceiro de cena, eram obrigados a encenar conteúdo íntimo”, diz O’Brien.

Mas as regras só passaram a circular mesmo pouco depois, quando explodiu o MeToo, continua O’Brien. O movimento contra assédio sexual em Hollywood obrigou a indústria a repensar relações de poder dentro e fora dos sets.

Adotando o título de coordenadora de intimidade, O’Brien conta que sua função costuma ter início muito antes das filmagens. O ideal é que ela possa acompanhar etapas como reuniões de equipe, provas de figurino e ensaios.

“Assim, meu trabalho é compreendido logo, em vez de eu entrar no meio do processo com alguém dizendo ‘olha, temos essa cena de sexo e precisamos de ajuda’”, ela diz.

Suas responsabilidades incluem, entre outros, se assegurar de que os atores têm à mão próteses e itens como calcinhas fio-dental e shorts da cor das suas peles —uma das principais orientações da cartilha é que partes sexuais jamais devem se tocar.

Ela também fica em contato constante com o diretor para ajustar intenções e movimentos “de um jeito seguro e reprodutível, o que gera conteúdo íntimo muito melhor”.

O’Brien compara seu trabalho ao de um coreógrafo, ou um orientador de dublês. “É uma dança, em que duas pessoas se movem juntas”, define.

“Ou não. Quando há desequilíbrios, também é muito interessante”, prossegue, citando um episódio de “Sex Education” em que uma garota tenta desesperadamente agradar à namorada na cama.

É tudo uma mentirinha bem encenada, portanto. Menos os beijos, ressalva O’Brien —embora a sua cartilha estabeleça que a regra é não usar a língua.

“A ironia é que, muitas vezes, alguém pode pensar que numa cena de beijo não é preciso uma coordenadora de intimidade. Mas beijar pode ser muito mais íntimo e ameaçador do que uma cena de sexo. Por que é de verdade —os lábios têm que se tocar”, afirma.

"Por isso é muito importante para os atores ter em mente quem são esses personagens e o que esse beijo significa."

mulher com cabelo grisalho
A diretora de movimento e coordenadora de intimidade Ita O'Brien, por trás de cenas de sexo de 'Sex Education' e 'Normal People' - Divulgação

Depois de uma temporada atribulada, em que tanto ela quanto seus pares na área ganharam reconhecimento, O’Brien diz que não sabe quando volta aos sets de filmagem.

Afinal, com a pandemia do novo coronavírus, produções de todo o mundo inteiro têm apostado no fim de beijos e de sexo em cena para poderem retomar suas filmagens.

Um documento vazado da British Film Commission orienta que atores a partir de agora sejam filmados ao lado ou de costas um para o outro para evitar o contágio. Ao voltar às gravações nesta semana, a emissora portuguesa TVI adicionou à sua equipe um profissional de saúde, além de ter implementado testes diários de Covid-19 e espalhado álcool em gel por todo o estúdio.

O’Brien diz, porém, que é possível que ela e seus pares sejam ainda mais requisitados no pós-pandemia. Isso porque, de um lado, eles elaboram protocolos para manter elenco e equipe saudáveis. De outro, podem ajudar diretores a manterem a qualidade da intimidade nas atuações, mesmo sem o toque.

Seja como for, O’Brien conta ter recebido ligações de várias produções. “Para mim, o mais importante é continuar a defender o direito ao ‘não’. E garantir que ninguém seja posto num lugar em que sente que sua saúde pessoal está em risco."

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