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Cinema

Michel Piccoli era ótimo ator e dava grandeza a qualquer personagem

Artista francês, que morreu em 12 de maio, se tornou lenda do cinema europeu e trabalhou com diversos diretores

O diálogo, em 1995, é antológico. Michel Piccoli, morto, aos 94, na França, dirige a comissão encarregada de festejar os cem anos do cinema e vai a Jean-Luc Godard pedir que ele faça o filme referente ao cinema francês. Era, diz Piccoli, para “celebrar o cinema”.

Godard, bem à sua maneira, rebate: “Mas por que celebrar? Ele já não é célebre demais? Ou não é célebre o bastante?”.

Piccoli não se importa, seja porque Godard acabou por fazer o filme, seja porque eles tinham uma velha relação, que vinha desde que “O Desprezo”, de 1963, e transformou o ator numa estrela internacional.

É verdade que, antes de trabalhar com Godard, Piccoli já tinha uma carreira respeitabilíssima no teatro, tendo atuado na companhia Renaud-Barrault, com alguns dos mais importantes atores franceses (entre eles, claro, Jean-Louis Barrault e Madeleine Renaud), bem como no Théâtre de Babylone, grupo operário dedicado a peças de vanguarda (fez Beckett e Ionesco, entre outros).

Entre seus diretores no teatro estão nomes como Jean Vilar, Patrice Chéreau, Peter Brook. Uma lista para ninguém botar defeito, mas a propósito para quem descobriu sua vocação aos nove anos, quando subiu pela primeira vez num palco, e que aos 18 resolveu se tornar ator, plano que teve de adiar devido à Segunda Guerra. Só com ela terminada se dedica a cursos de teatro e faz suas primeiras incursões como figurante em filmes.

No cinema, Piccoli estreou em 1954, num papel secundário, mas não insignificante, em “French Can-Can”, de Jean Renoir. Depois de muitos papéis pequenos ou médios, com cineastas de peso, como Jean-Pierre Melville ou René Clément, surge num segundo papel no “Diário de uma Camareira”, de Luís Buñuel, antes de aparecer ao lado de Brigitte Bardot no filme de Godard.

Daí por diante, ele se tornou uma lenda do cinema europeu, e nisso não é nem de longe desprezível sua presença marcante, com o perverso Henri Husson de “A Bela da Tarde”, o maior sucesso de Luis Buñuel, em que aparece ao lado de Catherine Deneuve.

Desde então, Piccoli trabalhou com os maiores diretores do cinema francês, de Agnès Varda a Louis Malle, de Jacques Rivette a Jacques Demy.

Nunca foi um galã à maneira de Alain Delon ou Jean-Paul Belmondo. Antes, se impõe por trazer uma respeitabilidade (cínica ou verdadeira, conforme o filme) a seus personagens. É como se nunca dissessem tudo o que pensam, mantivessem consigo algo que os preserva ou poderia prejudicar algum outro personagem.

Seu sorriso vem com uma contenção por vezes inquietante, a seriedade parece não raro esconder a ironia. Esse modo discreto, quase secreto e irônico de suas atuações não estaria talvez presente no anúncio de sua morte, revelada pela família quase seis dias depois do óbito?

O fato é que, com seu tipo esguio e discretamente simpático (ou eventualmente o inverso), Piccoli se tornou ator constante de Marco Ferreri e Claude Sautet, fez parte com frequência da obra de cineastas como Buñuel e Claude Chabrol. Podia estar ao lado do cineasta mais popular do mundo, como o Hitchcock de “Topázio”, de 1969, ou de um vanguardista como o chileno Raoul Ruiz, o grego Theo Angelopoulos, o italiano Ettore Scola.

Já no século 21, escreveu e dirigiu alguns filmes, o último dos quais, “Ce N’est Pas Tout à Fait la Vie dont J’ai Revé”, algo como não é bem a vida que sonhei, em português. O longa de 2005 recebeu cotação máxima do jornal Libération e da revista Cahiers du Cinéma. Não é pouca coisa.

Foi também neste século que estabeleceu uma bela e sólida parceria com o magistral português Manoel de Oliveira, em “Vou para Casa”, de 2001, “Espelho Mágico”, de 2005, e “Bela Sempre”, de 2006. Cinco anos depois, faria seu último grande papel em “Habemus Papam”, de Nanni Moretti.

Piccoli foi 100% ator e foi um ator 100% —célebre demais, mas a celebrar sempre.​

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