Novinhos fazem do TikTok a ferramenta definitiva para dominar a indústria do pop

Usina de dancinhas e músicas 'virais', plataforma gera hits e se torna o canal das gerações que cresceram com MTV e YouTube

São Paulo

Até abril, o rapper Roddy Ricch tinha o single mais ouvido nos Estados Unidos. Desbancada do pódio por The Weeknd, sua faixa “The Box” liderava as paradas desde dezembro, quando foi lançada, um reinado de 11 semanas.

Parece um déjà-vu do ano passado, quando “Old Town Road”, hit de Lil Nas X, estourou no primeiro semestre e bateu o recorde de mais semanas no primeiro lugar da Billboard. Não porque se tratam de dois rappers antes desconhecidos ou pelas batidas de trap, mas sim porque as duas músicas ganharam fama no TikTok.

Montagem a partir de alguns dos perfis mais famosos do TikTok
Montagem a partir de alguns dos perfis mais famosos do TikTok - Ilustração Jairo Malta

A plataforma chinesa de vídeos —aplicativo mais baixado no mundo em janeiro, à frente de WhatsApp e Instagram— se tornou a verdadeira galinha dos ovos de ouro do pop contemporâneo. Recentemente, até instituições mais tradicionais, como o Grammy, reconheceram artistas que fizeram sucesso no TikTok, premiando não só Lil Nas X, mas também Lizzo neste ano.

“Tudo que há de mais novo, hoje, está no TikTok”, diz Pedro Sampaio, DJ, produtor e cantor do hit “Sentadão”. “Qualquer um que trabalha com entretenimento e pop mainstream, tem que estar ligado.” Sampaio, 22, é usuário do Musica.ly —aplicativo que deu origem ao TikTok em 2018— desde que tinha 14 anos, um “cabelão” e inspirações artísticas. “Eu era uma criança. Fazia caras e bocas com as músicas do momento”, afirma.

“Sentadão” é uma das músicas que gerou muito engajamento na plataforma. Com batidas de bregafunk, subgênero nordestino do funk que é atrelado a um passinho —hoje vastamente disseminado Brasil afora—, a faixa tem tudo que é necessário para estourar nas paradas. É divertida, contagiante e está atrelada a uma dança específica.

A fórmula não é única. O trap-country de Lil Nas X estourou com pessoas se vestindo de caubói para dançar a música. Já o hit de Roddy Ricch tem um começo abrupto, o que gerou milhares de vídeos engraçadinhos com reviravoltas sincronizadas com a música.

De maneira geral, o que bomba no TikTok é o que gera interação, algo que as pessoas queiram complementar com dublagens, atuações curtas, dancinhas ou que tenha algum tipo de “desafio”. Ou seja, algo que possa ser reaproveitado.

Na opinião de Fernanda Vicentini, professora de mídias sociais na Escola Superior de Propaganda e Marketing, o fenômeno se firma como celebração da cultura do remix.

“É Ctrl+C e Ctrl+V. Temos tanta informação hoje que é impossível uma pessoa criar um conteúdo cultural sem ter influência de tantos outros elementos”, diz. “O TikTok celebra isso porque dá as ferramentas para criar um conteúdo em cima de vários que já existem. É uma biblioteca. Você chega com sua tesoura e sua cola e adiciona algo único, seu.”

Segundo ela, é o resultado de gerações que cresceram com a MTV nos anos 1980 e 1990 e chegaram ao YouTube. É possível entender o fenômeno em diversas frentes, dos memes aos youtubers e influenciadores até a ascensão do hip-hop —ritmo calcado no sample.

Hoje, a plataforma —que já tem mais de 800 milhões de usuários no mundo— exerce influência inegável na música e no audiovisual. Na quarentena, o humorista Marcelo Adnet, da TV Globo, vem produzindo vídeos curtos e caseiros em que imita desde o presidente Jair Bolsonaro até a cantora Ludmilla. Os esquetes, gravados no celular, têm figurinos e edição simples, quase como peças para o TikTok.

Na música, remix e sample acompanham o bregafunk, que rendeu outros hits no TikTok, como “Tudo no Sigilo”, de Vytinho NG e MC Bianca. Não é surpresa que a gravadora do hit “Dance Monkey”, dos australianos Tones and I, que estourou no app, tenha encomendado um remix bregafunk da faixa para o mercado brasileiro.

Mas por que o TikTok? Tem tudo a ver com facilidade. “É lógico que é fácil para a moçada mais jovem, crianças e adolescentes já nativos digitais”, diz Vicentini. “Em 20 minutos você consegue fazer um vídeo editado, com a trilha que você quer. Esse formato superdinâmico e muito caseiro o diferencia. Não dá para pensar em um vídeo tão artesanal no Instagram.”

Mas a maior facilidade é a de disseminação. “Você entra num mundo mágico. É criança dublando um adulto, um adulto dublando um elefante. E a sensação é de que todo mundo tem potencial de viralização”, diz Pedro Sampaio.

Segundo Henrique Fares Leite, responsável pela parte musical do TikTok na América Latina, a promoção de anônimos acontece porque a plataforma é “centrada na relevância do próprio conteúdo em vez da base de seguidores de quem publica”.

Ou seja, o feed pode ter um vídeo de Will Smith, um dos famosos mais bem-sucedidos no TikTok, com seus mais de 20 milhões de seguidores, logo depois do brasileiro Vincy, que viralizou com uma música própria, reutilizada em vídeos de outras pessoas.

Sobre o conteúdo original Fares Leite diz que “a plataforma tem contratos com detentores de direitos autorais para remunerar o uso”.

Mas essa sensação democrática foi posta em xeque recentemente. Segundo Rodrigo Barbosa, o TikTok é composto majoritariamente por jovens, millennials e os novinhos da geração Z, “mas há uma diversidade incrível em nossa comunidade global em idade, etnia, carreira e muito mais”.

Uma reportagem do site The Intercept, baseada em documentos vazados, acusa o TikTok de instruir moderadores a esconder vídeos que mostrassem, entre outras coisas, pessoas com “forma corporal anormal”, “aparência feia”, “barriga de cerveja”, “muitas rugas” e “problemas nos olhos”. Também vídeos em que “o ambiente de gravação é surrado ou está em ruínas”, incluindo mas não limitado a “favelas, campos rurais”, além de discursos políticos em lives.

Os documentos eram usados até o ano passado. Em comunicado, o TikTok afirma que eles “representavam uma tentativa incisiva de impedir o bullying”. “Reconhecemos que não foi a abordagem correta e a encerramos. Mas é correto que, nas transmissões ao vivo, o TikTok é cuidadoso para manter
os conteúdos de conotação sexual fora da plataforma.”

Esteticamente, aliás, o TikTok se firma como força capaz de moldar a cultura pop na era da internet. Lembra, por exemplo, o que fez de “Gangnam Style” —hit do sul-coreano Psy com uma dança que imitava o trote de um cavalo— uma febre mundo afora há oito anos. Drake, que teve apelo semelhante com o clipe de “Hotline Bling”, de 2015, lançou agora um novo vídeo, “Toosie Slide”, com dancinhas ideais para a plataforma.

Ao mesmo tempo, como é comum em fenômenos jovens, o TikTok é visto como uma bobagem, restrito às dancinhas e pegadinhas. Segundo Vicentini, “toda manifestação cultural é um retrato do nosso tempo”. “Uma coisa é dizer ‘não é para mim’, mas isso não pode invalidar um fenômeno. E, lógico, um que pode ser substituído por outro daqui a seis meses. Era comum encontrar revistas em que grandes publicitários achavam que o Facebook não era nada, ia passar. Isso é leviano, essas coisas acabam se incorporando à sociedade.”

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