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'Orvil', livro secreto da ditadura, inspira guerra cultural de Bolsonaro

Pesquisador aponta obra escrita ao fim do regime militar e vetada por Sarney como um dos pilares do bolsonarismo

São Paulo

Esta é a história de uma obra que esteve oculta. Seu título oficial é “O Livro Negro do Terrorismo no Brasil”, mas é conhecida mesmo como “Orvil” —livro de trás para a frente.

De trás para a frente porque é o reverso de “Brasil Nunca Mais”, publicação que há mais de 30 anos denunciou os crimes da ditadura, com torturas, mortes e desaparecimentos, a partir de processos da Justiça Militar.

Obra do artista Claudio Tozzi
Obra do artista Claudio Tozzi - Claudio Tozzi

Urdido em segredo durante três anos, sob encomenda do então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, o “Orvil” foi a resposta da caserna, acusando crimes e conspirações da esquerda e suas tentativas de transformar o país em uma China tropical. Quando ficou pronto, José Sarney, presidente à época, vetou que viesse a público.

Mas isso não impediu que, nas últimas três décadas, primeiro circulando em cópias xerocadas, suas ideias fossem eclodindo na política brasileira —e viessem desabrochar agora no governo Bolsonaro, traçando as diretrizes de sua guerra cultural.

Quem faz a relação é João Cezar de Castro Rocha, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e um dos principais críticos literários em atividade no país. Ele tem se dedicado a estudar a guerra cultural bolsonarista, para um livro que deve publicar em junho, pela editora Caminhos.

Castro Rocha demonstra que a narrativa do “Orvil” é um dos pilares da tática política de Bolsonaro de acusar e combater uma suposta conspiração da esquerda para tomar o poder, desta vez pela via da cultura, sem pegar em armas.

A novidade é o aspecto essencialmente brasileiro na guerra cultural bolsonarista. Normalmente, se acredita que essa ideia tenha chegado aqui depois de 2013, importada dos Estados Unidos com décadas de atraso. Na verdade, era um veio subterrâneo. O “Orvil” começa a ser produzido três anos antes das guerras culturais americanas.

O que o livro faz, em vez de só apontar crimes da esquerda, é recontar a história do Brasil através das tentativas de tomada do poder dos comunistas. É uma narrativa que começa em 1922, com a fundação do Partido Comunista no país, e passa por diversos momentos.

Não acaba em 1974, ano em que a guerrilha do Araguaia é derrotada, como seria de se supor. Naquele ano, diz o “Orvil”, começa a quarta tentativa, a mais perigosa, que ainda está em curso —o domínio das instituições culturais.

O relatório usa as expressões “trabalho de massas” e “trabalho psicológico”, denuncia um suposto uso de propaganda, agitação e infiltração pela esquerda, inclusive apelando ao sistema de educação. “Os donos da opinião pública determinam muito mais os acontecimentos do que os donos das fábricas ou os chefes militares”, diz o texto.

“Para muita gente, a direita se reorganizou no momento do impeachment. Mas o que ocorre ali é a eclosão de um movimento que se preparava há duas décadas e nós decidimos ignorar”, diz Castro Rocha.

Por mais de 20 anos, o "Orvil" existiu só como uma lenda da qual se falava à boca pequena entre movimentos de extrema direita e ex-membros do aparelho repressivo.

Seu conteúdo integral só foi revelado em 2009, pelo jornalista Lucas Figueiredo, que recebeu uma cópia de um general, em “Olho por Olho - Os Livros Secretos da Ditadura”, que saiu pela editora Record.

“Havia não mais do que 15 cópias. Houve um pacto de circular o livro entre a extrema-direita militar e civil. O ‘Orvil’ era uma espécie de Santo Graal desses caras”, diz Figueiredo. “Esse inimigo perigoso do comunismo que aparece no livro é claramente um trauma de 1935 [ano da Intentona Comunista], que eles vão alimentando como uma paranoia de uma forma ardilosa. É como se o país tivesse milhares de terroristas prontos a transformar isso aqui numa Albânia.”

Como não era mais segredo, a obra com quase mil páginas foi publicada oficialmente em 2012, pela editora Schoba, e hoje pode ser encontrada facilmente na internet. Em vídeo de 2015, Olavo de Carvalho mostra sua edição a agradece à família Bolsonaro pelo presente.

O "Orvil" traz a mesma narrativa que aparecem em documentários produzidos, por exemplo, pela produtora de direita Brasil Paralelo. Segundo tais produções, os militares venceram a guerra das armas, mas não a dos livros.

Castro Rocha aponta outros pilares na estratégia de Bolsonaro. Um deles é a adaptação da doutrina de segurança nacional, que previa o combate ao inimigo externo —o comunismo—, mas traduzida agora para tempos democráticos.

“Hoje eles não podem eliminar o inimigo fisicamente. Por isso a guerra cultural assumiu a tarefa de destruir as instituições que fariam parte dessa quarta tentativa de tomada do poder pela esquerda —a cultura, o meio ambiente e a universidade”, diz o crítico literário.

Daí iniciativas, por exemplo, como as do Ministério da Educação de cortar bolsas de iniciação científica para as humanidades.

O outro pilar seria uma “retórica do ódio” desenvolvida por Olavo de Carvalho. Castro Rocha, que foi orientador de ex-alunos do guru da direita, diz que está lendo a obra do autor de forma etnográfica —acha uma armadilha perder tempo tentando contestar o que escreveu.

“O Olavo criou um sistema de crenças que casa com o ‘Orvil’. Ele fornece uma linguagem comum, uma visão de mundo autocentrada que é impermeável a contestações. É bem característico de um sistema que tem aspectos religiosos.”

Para o autor, tal retórica pressupõe que não se reconheça a legitimidade dos oponentes. Daí o uso da "trollagem", palavrões, sofismas e xingamentos colegiais.

Mas o crítico literário aponta que a sacada do bolsonarismo em apostar na guerra cultural é também uma armadilha que criou para si.

“Sem guerra cultural não existe bolsonarismo, porque sem ela não há inimigo a ser sacrificado em mecanismos de bode expiatório. Mas com guerra cultural não há governo. Você não administra nem a sua casa sem dados objetivos.”

Por isso, o pesquisador acredita que a nova direita tende à desagregação. O risco é que, quando a guerra cultural entrar em colapso, a violência que estava confinada nas redes parta para as ruas.

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