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Personagem bíblico Golias é burocrata entediado em HQ

A alma pacata do gigante não está nem aí para o que deuses ou comandantes querem de seu destino

Golias

  • Preço R$ 54,90 (96 págs.)
  • Autor Tom Gauld
  • Editora Todavia
  • Tradução Hermano Freitas e Lilian Mitsunaga


Podia ser um esquete do Monty Python. John Cleese, naturalmente gigante, interpreta Golias, o vilão bíblico, como mero burocrata do exército filisteu que acaba virando o recurso narrativo mais famoso na história de Davi, segundo rei de Israel. Apenas por ser um soldado com mais de dois metros.

É a piada que funciona como premissa de “Golias”, de Tom Gauld. O gigante é um soldado meio à toa, escolhido pelos superiores porque sua altura mete medo nos inimigos israelitas. “Você tem jeito de herói”, diz o comandante. “Sou o quinto pior espadachim do meu pelotão”, responde Golias.

O comandante lhe dá uma armadura, um escudeiro mirim e uma frase para gritar duas vezes por dia aos israelitas: “Escolhei um homem que venha até mim e que lutemos. Se ele for capaz de me ferir, então seremos vossos servos. Mas se eu o ferir, então vós sereis nossos servos”.

“Ninguém vai aparecer”, garante seu chefe. Mas esquetes do Monty Python têm uma ou duas cenas em torno da premissa. Gauld resolveu escrever uma graphic novel em torno da piada.

O quadrinista e ilustrador escocês é mais conhecido por suas tiras que saem semanalmente no Guardian e rondam a internet. Não há personagem fixo, mas seu traço é identificável de cara —um cruzamento entre desenhos rupestres e infográficos. O tema principal das tiras é a alta literatura e o mundo literário.

Tendo que desenvolver um tema muito além dos três ou quatro quadrinhos —ou de um esquete—, Gauld recorreu a um recurso que também aparece muito nas suas tiras, o tédio de ser personagem secundário na literatura.

Segundo a Bíblia, Golias bradou seu desafio aos israelitas por 40 dias e 40 noites. Fora cumprir esta função duas vezes ao dia, só restava a Golias sentar, esperar e bocejar.

Pelo menos ele tem um escudeiro mirim para bater papo. Mas só o garoto fala: “É verdade que você consegue queimar coisas só de olhar? Você matou um camelo com um soco? Você é casado?
Minha tia queria saber…”.

Começamos a ver alguma personalidade no pretenso brutamontes de “seis côvados e um palmo”. Golias não é de falar muito, mas vemos que ele gosta de observar as estrelas, de prestar atenção nos animais que avista no vale.

É aí que entra a habilidade gráfica de Gauld, que desenha Golias com o mínimo de traços —uma mudança na posição do olho-pontinho já diz bastante— e desenha panoramas do vale de Elá para entrevermos a vida interior do soldado —contemplação, tédio, talvez complacência. A alma pacata de Golias não está nem aí para o que deuses ou comandantes querem de seu destino.

O final da história, porém, todo mundo conhece.

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