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'Space Force', com Steve Carell, faz piada com poder e militarismo

Série é política sem ser óbvia, é crítica sem fazer proselitismo e faz rir sem abdicar de certa gravidade

Space Force

  • Quando Estreia nesta sexta (29)
  • Onde Netflix
  • Elenco Steve Carell, John Malkovich, Owen Daniels, Ben Schwartz

O filme “M.A.S.H.” estreou há 50 anos, em 1970. Seu autor, Robert Altman, morreu há mais de dez. Bem, “Space Force” é o primeiro produto audiovisual (série, filme, novela, o que seja) de produção grande a manter uma relação tão desrespeitosa com as Forças Armadas.

Devemos isso a Steve Carell, criador da série, e que depois de demonstrar que era também bom ator dramático volta a suas origens com esta série em que é acompanhado pelo cientista John Malkovich, magnífico, e um belo elenco de apoio.

Os anos 1970 deram início a uma era de admiração irrestrita ao militarismo no cinema americano. Foi logo depois de os Estados Unidos levarem aquele pega na Ásia: Vietnã, Camboja e tudo mais. Desde então se bate continência em posição de sentido. Batemos todos, aliás.

Ou batíamos até Carell ter a ideia de criar uma força espacial americana disposta a conquistar o espaço não para fins científicos, mas como ocupação e poder mesmo e de atribuir a si próprio, general Mark Naird, o cargo de líder dessa unidade, secundado pelos cientistas Adrian Mallory (Malkovich) e Chan Kaifang (Jimmy O. Yang).

Talvez o espectador brasileiro sinta um tanto familiar a antipatia e o menosprezo dos militares pelos cientistas, dos quais, no entanto, não podem se livrar (no campo espacial, em todo caso). O embate rende bons diálogos, diga-se. Mas não é o único –na fogueira de vaidades do militarismo, Naird tem de se entender com outro general de quatro estrelas, seu rival Kick Grabaston, que vive para atormentá-lo sempre que pode.

Nesse desarranjo belicista geral sobra também para a a imprensa —ou antes, a assessoria de imprensa da Space Force, representada pelo jovem e obsessivo tuiteiro Tony, cujo objetivo central na vida é obter mais cliques e mais seguidores para o pobre Naird, sujeito alérgico a redes sociais e, sobretudo, à iconografia de seus usuários (um modo ajeitado porém desajeitado de ser, inquieto além da conta, ansioso— enfim, um bom tipo).

Sobra, evidentemente, também para os artistas, pois Naird, como todo tipo alérgico, sofre de uma espécie de alergia a tudo que não consegue compreender (entre outros, o comportamento da filha adolescente).

Por trás dessas incompreensões e desse humor não estão mais nem o Vietnã ou a União Soviética, como no tempo de “M.A.S.H.”, mas o mais recente rival bélico e comercial da América, a China. E, subsidiariamente, a Índia. Por fim, não poderia faltar a América como rival de si mesma, ora desfazendo de seus aliados, ora suspeitando de seus mais óbvios descendentes de imigrantes (como os chineses, imediatamente localizáveis).

Claro, não há aqui o gênio de Altman, nem o do Kubrick de “Dr. Fantástico”. Mudou o mundo e mudou o cinema (que aliás virou audiovisual). Mas a mesma audácia financeira que tem e seu caráter de streaming faz a Netflix desenvolver um trabalho por vezes audaz na produção (é o caso aqui).

Livre das amarras da bilheteria em salas, livre eventualmente de Hollywood, pode trabalhar o humor com acidez e liberdade (como aqui), assim como pode fazer de um agente do governo americano um estuprador (em “Dirigindo Casablanca”, por sinal uma bela história arruinada por uma direção tão afetada que seria capaz de deixar acabrunhados os mais afetados dos diretores britânicos).

“Space Force”, ao menos em seus primeiros capítulos, é político sem ser óbvio, é crítico sem fazer proselitismo e faz rir sem abdicar de certa gravidade. Ou antes, aproveita-se da gravidade que envolve esses assuntos de poder e militarismo para fazer rir. Vale uma espiada.

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