Artistas não vão ilustrar o coronavírus, mas previram isso, diz chefe da Pinacoteca

Jochen Volz afirma que obras já vinham antecipando cenário atual e prevê reconexão dos museus com a sociedade

São Paulo

Lá se vão mais de três meses desde que os museus do país fecharam, obedecendo às medidas de isolamento social impostas pelos governos municipais e estaduais. Mas o que será preciso para reabrirem, quando reabrirem?

Diretor da Pinacoteca, o alemão Jochen Volz esclarece que, antes de mais nada, é preciso um sinal verde inequívoco dos órgãos de saúde para o casarão da Luz retomar as atividades.

É só então que os protocolos que ele e a equipe vêm desenvolvendo na quarentena, em parceria com organizações museológicas, colegas daqui e de fora e o próprio governo, serão repassados aos funcionários, bem antes de uma abertura ao público.

“Importante entender que uma coisa é escrever esses protocolos, outra é implementar. Temos que preparar isso para que possamos conduzir de forma tranquila e segura o público”, diz Volz.

Há três anos à frente da Pinacoteca, depois de assinar a penúltima edição da Bienal de São Paulo e de comandar o Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e a Serpentine, em Londres, ele admite que os sábados no museu, em geral vibrantes por causa do ingresso gratuito, serão um tanto melancólicos com a limitações do número de visitantes. “Agora, estaremos juntos, mas de outro jeito. Vai ser um momento de aprender, para todos nós.”

O aprendizado deve ir além do controle do fluxo dos visitantes e da elaboração de normas mais estritas, no entanto. Ao que tudo indica, os museus que reabrirão não serão bem aqueles que conhecíamos.

Em parte, por causa das muitas demissões ocorridas nesses lugares nos últimos três meses —em casos como o do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Museu Afro-Brasil, em São Paulo, de funcionários em cargos-chave, responsáveis por pensar os rumos dessas instituições.

Mas também porque são esperados ainda mais cortes para o ano que vem, quando a crise financeira se refletir no bolso dos patrocinadores

Volz afirma que a Pinacoteca, em conjunto com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa paulista, à qual o museu é subordinado, conseguiu até agora manter todo o quadro de funcionários. “O patrimônio de um museu é, por um lado, a sua coleção, mas por outro é o conhecimento dos profissionais dedicados à sua gestão, em várias áreas. Restauro, conservação, arquivo, comunicação”, ele lista.

O museu também manteve toda a programação anunciada para o ano, entre elas uma mostra organizada com a americana Terra Foundation reunindo artistas como Andy Warhol, Edward Hopper e Cindy Sherman. Mas prevê um ano difícil à frente para ele e seus pares.

A solução será montar exposições que evitam grandes riscos financeiros, sem tantos empréstimos e viagens internacionais, por exemplo, diz Volz.

Com isso, pode ser que o fenômeno das mostras blockbuster, organizadas em torno de artistas que se confundem com celebridades e temas pop, também diminua —embora o curador se oponha à nomenclatura que, segundo ele, dá a noção equivocada de que é ruim atrair público.

Também pode ser que haja uma valorização da produção e da diversidade local, continua Volz. “Exposições de artistas famosos têm uma aparência muito igual no mundo inteiro, em Londres, Nova York, São Paulo. É interessante imaginar que, no futuro, o jeito de fazer isso ganhará de novo uma pimenta local. Talvez haja um jeito brasileiro, ou um mais europeu.”

É uma aproximação que já vinha em curso nos últimos anos, segundo o diretor. A própria Pinacoteca planejava abrir neste ano uma nova mostra de acervo permanente, incluindo mais artistas negros, indígenas e mulheres na sua linha do tempo da arte nacional.

“O momento é de entender o papel de um museu dentro de uma sociedade, o que implica desenvolver uma consciência em relação às responsabilidades sociais, raciais, ambientais. Mas, obviamente, entendendo o museu como um espaço de estar junto.”

Estar junto, aliás, é uma ideia recorrente na fala de Volz. Questionado sobre como imagina que o xadrez do cenário da arte global se transformará no pós-pandemia, com espaços como o Metropolitan e o MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, projetando perdas de dezenas de milhões de dólares em seus orçamentos, ele chama atenção para os profissionais que ocupam a base da cultura —montadores, iluminadores.

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O curador alemão Jochen Volz em 2016, quando foi curador da Bienal de São Paulo - Rafael Jacinto e João Kehl - 3.ago.2016/Folhapress

Mas como estar junto numa situação como a brasileira atual, em que a arte está sob ataque constante? “É uma boa pergunta, mas ela gera outra questão. Que é o porquê de a política estar brigando tanto com a cultura”, ele devolve.

“Como alguém que trabalha nisso, penso que tenho que encontrar um jeito de convencer a sociedade do papel importante da cultura, como uma força que cria uma identidade, conecta pessoas. Assim como sempre temos que brigar pela nossa liberdade, sempre temos que lutar pela cultura.”

Questionado sobre como essa cultura retratará esses tempos pandêmicos, Volz de novo inverte a pergunta. “Responderia isso de outra forma. Para mim é muito claro que a produção de muitos artistas já tinha antecipado o que está acontecendo agora”, ele diz.

“Não acho que os artistas vão ilustrar o coronavírus. Mas questões que se tornam urgentes agora, como a desigualdade social, o racismo, os problemas ambientais, são discussões do nosso tempo, e estarão muito presentes.”

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