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Disco engavetado de Neil Young poderia ter sido um de seus melhores

Lançado 45 anos depois do pretendido, 'Homegrown' hoje é mais uma curiosidade, mas daquelas para lá de boas

Rio de Janeiro

Homegrown

  • Onde Disponível nas plataformas digitais
  • Autor Neil Young

O dia 19 de junho de 2020 já pode ser considerado o melhor da pandemia para os velhos, freaks e roqueiros em geral. Foi quando Bob Dylan lançou seu 39ª álbum de estúdio, “Rough and Rowdy Ways”, e Neil Young soltou “Homegrown”, que deveria ter sido seu sétimo disco solo, de 1975.

Havia uma lenda e ela dizia que Young tinha promovido uma festa lá em 1975 para que amigos ouvissem esse disco que pretendia lançar. Após a audição, enquanto cervejas eram entornadas e baseados fumados, alguém pôs para tocar uma fita dos shows que ele e sua banda tinham feito um ano e meio antes, só com músicas inéditas, e de repente aquilo virou o assunto do convescote.

Segundo essa história, os amigos disseram que os shows de 1973 eram melhores que o novo disco gravado em dezembro de 1974 e janeiro de 1975. Então, Young foi convencido e resolveu lançar os antigos shows no lugar de “Homegrown”, abrindo espaço para o disco “Tonight’s the Night”, de 1975.

No ano passado, entretanto, Young escreveu em seu site que, na época, depois de ter rompido com a companheira, engavetou a obra por considerar que era pessoal demais. “É o lado triste de um caso de amor. Coração machucado. Eu simplesmente não podia escutar. Queria seguir em frente”, justificou.

E então, na semana passada, 45 anos depois do inicialmente pretendido, “Homegrown” foi desenterrado e suas 12 músicas viram à luz do sol. Para quem é fã e acompanha cada respiro do cara, é importante dizer que pelo menos quatro músicas foram lançadas em discos posteriores.

Quanto às inéditas, “Separate Ways” abre o disco e por si só já vale o lançamento. Ela traz o clima das canções de “Harvest”, de 1972, o maior sucesso comercial de Young, e mais especificamente de “Old Man”, com um dedilhado estilo country, uma steel guitar vibrante e um baixo bem predominante. Talvez seja um pouco depressiva, como as canções do lado B do disco “On the Beach”.

A letra não nega. “We go our separate ways/ Looking for better days/ Sharing our little boy/ Who grew from joy back then”, ou nós vamos em caminhos separados/ procurando dias melhores/ dividindo nosso garotinho/ que cresceu de uma felicidade lá atrás. E depois “Me for me/ You for you/ Happiness is never through”, ou eu "por mim/ você por você/ a felicidade nunca é completa".

Em “Try”, o clima melhora um pouco. Young começa cantando com seu sotaque totalmente caipira, puxando o "erre" em todas as estrofes. Mas traz um pouco de otimismo para a separação, concluindo que “We got lots of time/ To get together if we try”, ou "nós temos muito tempo/ para ficar juntos, se tentarmos".

“Mexico” é uma balada mais parada, só com o piano. Mesmo com esse nome, não traz uma pitada de música mexicana (ao contrário de Bob Dylan, que lançaria “Romance in Durango” um ano depois, em 1976, como se fosse um legítimo nativo do outro lado do muro de Trump).

Seguem mais duas músicas com nomes de lugares, agora de estados americanos, “Florida” e “Kansas”. Mas a primeira não é uma canção, é mais um poema falado com alguns barulhos. A segunda é uma típica balada de Young, ao violão e com gaita.

“We Don’t Smoke It No More” é uma jam instrumental. Em cima de um blues arrastado, clássico, o nome da música é cantado uma ou duas vezes, mas seus quase cinco minutos nada acrescentam ao álbum.

Já “White Line” é uma joia, uma descendente direta de “Heart of Gold”, de 1972. Traz solinhos bacanas de um violão enquanto outro acompanha o vocal. E, sim, a gaita volta com toda sua melodia e mágica .

“Vacancy” é outro clássico instantâneo do compositor, mas esse é dos mais pesados, no estilo cantado em coro e com notas simples repetidas ao infinito. “Are you my friend?/ Are you my enemy?/ Can we pretend to live in harmony?”, ou "você é minha amiga?/ você é minha inimiga?/ podemos fingir viver em harmonia?".

Essa granada sonora poderia facilmente estar no rol daquelas em que Young sola por sete, oito ou dez minutos, mas ele se contém e termina em pouco menos de quatro. Uma pena.

Das quatro não inéditas, uma delas saiu regravada em uma versão diferente, no disco “American Stars ‘N Bars”, de 1977.

É a versão original da música “Homegrown”, que dava nome ao disco já em 1975. É menos bem acabada, menos polida, que a versão lançada em 1977, mas, talvez por isso mesmo, melhor. Tem mais cara de Neil Young.

Começa como uma jam, com gente falando no estúdio, e tem guitarras-base mais predominantes e solos mais crus, lembrando um pouco o clima do épico “Down by the River”, de seu disco de 1969, “Everybody Knows This Is Nowhere”.

As outras três não inéditas já haviam sido lançadas nas mesmíssimas gravações ouvidas aqui. “Star of Bethlehem” também saiu em “American Stars ‘N Bars”, enquanto a impressionante gaita de “Little Wing” abriu o álbum “Hawks & Doves”, em 1980.

Por fim, “Love Is a Rose” já havia constado da coletânea tripla (ou dois CDs) que Young lançou para comemorar dez anos de carreira, “Decade”, em 1977. Curiosidade –“Love Is a Rose” é um autoplágio de Young. Em 1971, sua banda de apoio, a Crazy Horse, lançou um álbum próprio, e gravou ali a música “Dance, Dance, Dance”. Escute as duas na sua plataforma de streaming e constate.

Mesmo com uma ou duas partes dispensáveis, não há dúvida de que “Homegrown” é um grande disco e teria sido, se lançado em 1975, um dos melhores da carreira de Neil Young. Hoje acaba sendo mais uma curiosidade. Mas uma curiosidade para lá de boa.​

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