Descrição de chapéu Cinema

Festival online destaca filmes nacionais e olhar feminino no cinema

Evento exibe os brasileiros ‘Piedade’, ‘Dora e Gabriel’ e ‘Três Verões’ e joga luz sobre produção de Alice Guy

São Paulo

Tudo devia acontecer nas salas de cinema. Mas, com a Covid-19, isso mudou. E a oportunidade de conhecer Alice Guy (ou Alice Guy-Blaché, como preferem outros) virá numa das pré-estreias que o Espaço Itaú de Cinema promove a partir de sexta (19) até o próximo dia 29. São 19 filmes, sendo 11 brasileiros, que poderão ser vistos no site do espaço.

A entrada em cada filme custará R$ 10 por aparelho. Mas no dia 19, Dia do Cinema Brasileiro, será possível ver “Piedade”, novo filme de Cláudio Assis, de graça. Também nos dias 19 e 20 a seleção inclui brasileiros e estrangeiros. Entre os brasileiros, houve o cuidado de buscar os longas no maior número possível de regiões do país.

A grande atração do fim de semana é mesmo “Alice Guy-Blaché: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo”.

Alice Guy é a mais antiga e ilustre desconhecida da história do cinema. Quem a apresenta é o documentário de Alice B. Green, que tem lá seus problemas –seu caráter midiático é um deles. Outro é a autorreferência frequente demais. Parece até que, não fosse este filme, Alice Guy nunca teria nenhum reconhecimento, quando desde os anos 1970 há especialistas (mulheres, na verdade) que pesquisam sua vida e trazem à luz sua obra.

Passemos pelo traço narcisístico. O que há nele é fundamental. Alice Guy foi a primeira cineasta da Gaumont. Aliás, foi por insistência de sua até então secretária-estenógrafa que Gaumont entrou para o ramo das filmagens.

Até que ponto o fato de ela ser mulher pesou na ignorância de seu trabalho? Pesou, certamente. Assim, vários de filmes seus foram creditados a Louis Feuillade. Pesou também que não se dava importância ao cinema naquele tempo, que sua produção se perdeu em grande medida et cetera.

A razão principal de Guy ter ficado tanto tempo nas sombras, ela, uma das primeiras a descobrir o país das maravilhas cinematográficas, talvez esteja em outra parte. Sua obra de certa maneira obriga a recontar toda a história dos primórdios do cinema, que até então se assentava na dupla Lumière (o real)/ Méliès (o sonho). Alice traz algo como um sonho real, o real narrado à história de um cinema até então baseado nas atrações. Ela também trouxe ao cinema certa sensibilidade feminina.

Já era cineasta feita quando casou com o senhor Blaché e se mudar para os Estados Unidos, onde fundaram a Solax. Blaché foi mais um peso do que outra coisa nos negócios de Guy, e seus filmes não têm, ao que parece, nenhuma importância.

Já Guy acompanhou a evolução do cinema americano até que, por volta de 1920, dois fenômenos arruinaram sua carreira –a expulsão das mulheres da atividade cinematográfica e o incêndio do estúdio Solax. A isso se soma o divórcio e, enfim, uma mulher que voltou com as filhas para a França e nunca mais filmou.

Ainda no final de semana, outra mulher entra em cena, a gaúcha Ana Luiza Azevedo, com seu “Aos Olhos de Ernesto”, em que observa um fotógrafo uruguaio que começa a perder a visão, viúvo e à beira da aposentadoria que tem a vida e a solidão abaladas por uma cuidadora de cães.

A programação tem ainda o brasileiro “Três Verões”, de Sandra Kogut, que narra vida, glória e desgraça de um milionário corrupto e família visto pelos olhos de sua governanta, papel de Regina Casé. O tema da corrupção já é quase uma velharia neste país onde a cada dia uma novidade se sobrepõe a outra. No caso, no entanto, o que continua atual é o olhar inocente da empregada para o mundo de seus patrões.

Depois da estreia gratuita, “Piedade” retorna domingo e segunda. Traz um Cláudio Assis hoje bem menos rude, que junta Fernanda Montenegro, Matheus Nachtergaele, Irandhir Santos e Cauã Reymond, às voltas com assuntos que vão da especulação imobiliária à destruição do meio-ambiente. Mas o melhor vem do olhar para o mar, para as montanhas, para o que resta de uma tradição. Sem contar a fina ironia final, boa razão para dar uma olhada no filme.

Se o meio de semana é dedicado a produções estrangeiras com passagem por Cannes, casos de “O Orfanato”, do Afeganistão, “Liberté”, de Albert Serra, produção da Alemanha e da Itália, o próximo fim de semana guarda o melhor, com o chinês “Viver para Cantar”, de Johnny Ma, e, sobretudo, “Dora e Gabriel”, que passa na sexta (26) e sábado (27) da próxima semana.

“Dora e Gabriel” talvez seja o ponto alto. É o mais recente Ugo Giorgetti, que fez seu filme com, a rigor, dois atores, os dois protagonistas do título, presos num porta-malas durante todo o filme, salvo o começo e o final. Quem se aventurar não terá nada a perder.

Talvez seja a obra que melhor representa o Brasil contemporâneo. Pois é de dentro desse porta-malas que partilharmos com Dora e Gabriel que o Brasil aparece ao espectador com muito mais clareza.

O festival se fecha com o chinês “Suk Suk”, de Ray Yeung, e do brasileiro “Mangueira em Dois Tempos”, documentário em que Ana Maria Magalhães reencontra os personagens de seu “Mangueira do Amanhã”, que, em 1992, retratava participantes da ala mirim da escola de samba. O que foi a vida dessas pessoas numa comunidade do Rio de Janeiro? Eis uma boa questão para encerrar a mostra.

Festival de Pré-estreias Online do Espaço Itaú de Cinema

  • Quando De sex. (19) a seg. (29)
  • Preço R$ 10 por filme
  • Informações em itaucinemas.com.br
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