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Governo Bolsonaro veio destruir o Brasil, diz curadora de festival francês

Katia Adler está à frente do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que acontece online neste ano

Adriana Brandão
RFI

O Festival de Cinema Brasileiro de Paris é o evento cultural sobre o Brasil mais antigo da França. Criado por Katia Adler, ele existe desde 1998 e mesmo em anos de graves crises foi realizado. Este ano, por causa da pandemia do novo coronavírus, o evento, que ocorreria em abril no tradicional cinema L'Arlequin de Paris, foi adiado, mas não cancelado. Agora, a 22ª edição está sendo realizada online desde esta quarta-feira (3).

A ideia inicial de Kátia Adler era adiar o evento até o fim da quarentena na França, mas a edição presencial ficou impossível após a decisão do governo francês de reabrir as salas de cinema somente no final de junho.

“Cancelar para mim era muito forte. Tem 22 anos que a gente faz isso. Como a gente tem a Jangada VoD, que já existe há um ano, decidimos fazer o festival online”, diz a fundadora do festival e diretora da Associação Jangada, que organiza o evento.

O Festival de Cinema Brasileiro de Paris acontece até 24 de junho na plataforma Jangada VoD. A programação original, que tinha 26 filmes, sendo sete longas de ficção em competição e cinco documentários inéditos, teve de ser alterada.

Os filmes que ainda não estrearam no Brasil não podem participar da edição digital, mas o lado positivo é que um número muito maior de títulos pôde ser incluído e o site disponibilizará 50 obras. Mas essa foi uma decisão difícil.

“Quando fui escrever o comunicado da decisão, comecei a chorar. Eu me dei conta como seria difícil para mim não receber o público, conversar e apresentar os diretores que tinham se engajado a vir ao festival, comprando as passagens por conta própria, porque a gente já não tinha verba neste ano. A gente já estava fazendo um festival no limite total”, ressalta a diretora.

O evento conta este ano só com um pequeno apoio da embaixada do Brasil na França.

Há anos, as verbas e o patrocínio para a realização do festival vêm diminuindo. Manter o evento é também uma decisão política para dar visibilidade na França ao cinema e à cultura brasileira, principalmente neste momento em que o setor está em perigo, segundo Kátia Adler.

“Eu não abro mão de fazer o Festival, de continuar, de resistir a esse governo, a esse desmonte do Brasil. Essa resistência já era o [evento] físico, mas quando isso não pôde acontecer, por causa de uma pandemia, óbvio que essa resistência passa a ser online. Dar possibilidade ao público [francês] de assistir aos filmes brasileiros é essencial nesse momento.”

Em 2019, 160 filmes foram realizados no Brasil, mas um número muito pequeno dessa produção chega aos cinemas franceses. O objetivo do evento, que em anos anteriores conquistou um público de até 4.000 espectadores em Paris, é também que os produtores e distribuidores franceses comprem os direitos e exibam as obras brasileiras em salas de todo o país.

A oferta online é uma concorrência, mas ao mesmo tempo potencializa o público. A Jangada VoD tem 150 filmes em catálogo, com legendas em francês, inglês e espanhol, e é a única plataforma do mundo exclusivamente de filmes brasileiros.

Ela foi lançada em abril de 2019 na França e desde maio de 2020 pode ser também acessada em toda a Europa. “Ano que vem espero que a gente volte fisicamente, mas também espero que a opção online continue para dar possibilidade ao público europeu de ver os filmes”, diz a diretora.

O público não poderá votar como na edição tradicional, mas haverá lives com os diretores convidados. As novidades da programação digital foram os convites que Kátia Adler fez a Luciano Vidigal e ao documentarista Sérgio Bloch para participarem do evento.

Vidigal fez uma seleção de 12 filmes de cineastas jovens da comunidade carioca que precisam ser vistos. “A gente vai fazer uma live com eles. É super importante para saber se eles têm acesso a financiamentos, como fizeram os filmes. Tem muita coisa para ser dita sobre esse Brasil dividido”, diz ele.

A homenagem deste ano é para os 40 anos de lançamento do filme "Bye Bye Brasil", de Cacá Diegues, que participará de uma live. O longa, que estará disponível na plataforma, continua, segundo Adler, atual.

"Quando você olha para o Brasil hoje, você vê que esse filme é superatual, que o Brasil continua de uma certa maneira atrasado em muitas coisas.”

Apesar de ser realizada a edição deste ano, que custou cerca de € 20 mil, o futuro é incerto. “A gente está em um momento inédito. Quando esse governo começou, a gente tinha um pouco de medo. A gente não sabia a que que esse governo vinha, mas agora a gente sabe. Para mim, ele veio para destruir a cultura e o Brasil. Eu não sei quantos filmes serão feitos, eu não sei se a gente vai continuar fazendo festivais porque não existe mais verba para isso. As verbas estão todas bloqueadas”, continua ela.

Adler, que teve um avô pesquisador exilado na ditadura militar brasileira, diz que não esperava reviver “esse medo, menosprezo pela ciência, educação e cultura”, mas termina a entrevista com uma nota positiva.

“Esses grupos que estão se formando, como Basta, ‘Estamos Juntos’, isso me dá um pouquinho de esperança."

Adler precisa da participação do público para financiar o evento. Ela não tem a menor ideia de quantas pessoas irão aderir a esta edição digital, mas pelos seus cálculos, se metade dos 9.000 seguidores da Jangada no Facebook pagasse € 3 para assistir a um único filme, o financiamento estaria garantido.

Presidente Jair Bolsonaro durante reunião com a Deputada Carla Zambelli, em 3 de junho de 2020
Presidente Jair Bolsonaro durante reunião com a deputada Carla Zambelli, em 3 de junho de 2020 - Marcos Corrêa/PR

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