K-pop deixa lado fofinho e ganha viés militante ao ajudar o Black Lives Matter

Fãs do estilo mobilizam comunidades para se opor a Trump e até mesmo a Bolsonaro, mas atos são vistos como exceções

São Paulo

No final de maio, durante os protestos contra o racismo desencadeados pela morte de George Floyd —homem negro assassinado por um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos—, fãs de k-pop se apropriaram de uma hashtag racista e a esvaziaram de seu sentido original.

Eles publicaram no Instagram vídeos de suas bandas preferidas com a tag #whitelivesmatter, ou vidas brancas importam, de tal forma que quem procurasse por conteúdo de supremacia branca encontraria imagens de jovens cantando e coreografando música pop sul-coreana.

Red Velvet, banda de K-pop
O quinteto Red Velvet, uma das bandas mais famosas de k-pop - Divulgação

Dias mais tarde, depois que a polícia de Dallas pediu que cidadãos enviassem vídeos de “atividades ilegais de manifestantes” nos protestos contra a violência policial, fãs de k-pop inundaram o software com vídeos de ícones do gênero musical, como as bandas BTS, Blackpink e Red Velvet. O volume foi tão grande que o app travou.

No último fim de semana, fãs de k-pop —junto com usuários do aplicativo de compartilhamento de vídeos TikTok— disseram ter sido responsáveis pelo esvaziamento do primeiro comício em meses do presidente americano Donald Trump.

Os grupos pediram que as pessoas se cadastrassem para ir ao evento no estado americano de Oklahoma sem a real intenção de comparecer, inflando o número previsto de espectadores para 1 milhão. O público foi de 6.200 pessoas.

Fãs do grupo de k-pop 2PM tentam se aproximar do grupo no tapete vermelho do MTV Video Music Awards Japão 2012, em Chiba, perto de Tóquio - Issei Kato - 23.jun.2012/Reuters

O ativismo online dos fãs de um gênero musical inofensivo, tido como politicamente neutro e formatado para o mercado, tem a ver com a internacionalização do k-pop na última década e com a explosão das comunidades de fãs, afirmam especialistas e entusiastas do estilo. Isso porque os ídolos, como são chamados os artistas do gênero, pouco se posicionam.

Com carreiras e, não raro, vidas pessoais monitoradas de perto por grandes conglomerados, os artistas mais influentes costumam se ater a temas relacionados à indústria nas suas redes sociais. Quando se pronunciam, é sobre grandes desastres humanitários, conta a estudante Rebecca Pezzatto, que administra um portal sobre o grupo BTS.

A guinada em direção ao ativismo tem partido, assim, do outro lado desse fenômeno —os fãs. Pezzato afirma que o portal, o maior sobre o BTS na América Latina, interrompeu por quatro dias postagens com assuntos da banda para falar do Black Lives Matter, compartilhando informações sobre racismo no Brasil e incentivando os seguidores a doarem dinheiro para a causa.

A estudante e os colegas que coordenam a página decidiram se pronunciar ao se darem conta da influência que conseguiam exercer sobre 300 mil seguidores. “Não teria acesso a eles pessoalmente, mas por essa plataforma tenho o poder de mudar a cabeça de alguém”, diz ela.

Vale notar que o próprio BTS doou cerca de R$ 5 milhões para o movimento —e seus fãs, apelidados de "army", ou exército, arrecadaram o mesmo valor nas redes. Considerados um dos grupos mais politizados da cena, foram dos poucos a fazer mais pelos protestos do que postar uma hashtag.

Antes do apoio ao Black Lives Matter, Pezzatto e membros de outros fã-clubes afirmam que as comunidades só faziam campanhas para arrecadar fundos para causas apoiadas pelas bandas, como saúde mental, resgate de animais e violência contra crianças e adolescentes, temas menos controversos que o combate ao racismo.

A exceção foram as eleições presidenciais no Brasil, há dois anos. Quando a vitória do presidente Jair Bolsonaro foi anunciada, páginas de diferentes fã-clubes adotaram uma imagem negra, lembra Graziele Chaves, administradora de um portal sobre o grupo Big Bang.

Segundo ela, a comunidade tem muitos membros LGBT e temia ataques homofóbicos. Na data do segundo turno, ela chegou a discutir com apoiadores do atual presidente nas redes sociais. “Nem imaginava que a comunidade poderia se importar tanto com política, mas tudo aconteceu de forma gradativa, porque certas atitudes ofendiam muito diretamente as pessoas.”

Outro fator de influência nos protestos de agora é o uso de guerrilha do TikTok, aplicativo com alto poder de viralização e ainda imune à ação de robôs que espalham mensagens políticas, a exemplo do que acontece no Twitter.

Não tinha visto nenhum movimento político até agora no TikTok. Mas o negócio tem potencial", diz Alexandre Bessa, professor de canais digitais da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM. Segundo Bessa, no entanto, é difícil creditar o esvaziamento do comício de Trump a essa mobilização, "mas é interessante estudar pelo movimento".

Miranda Ruth Larsen, americana estudiosa do k-pop na Universidade de Tóquio, compartilha da opinião de Bessa e entende ser complicado atribuir o fiasco do comício à ação dos fãs. Segundo ela, a imprensa embarcou na história por querer "uma narrativa de bem-estar sobre o ativismo de jovens cidadãos dos Estados Unidos".

Por outro lado, Larsen enxerga uma mudança na conscientização dos fãs, que estão sendo chamados para conversas fora de suas rodinhas devido à grande atenção que a mídia dá ao gênero e à globalização do pop coreano. Há 99 milhões de fãs de k-pop espalhados por 98 países, segundo a Korea Foundation, instituição filiada ao Ministério das Relações Exteriores sul-coreano.

Embora o ativismo dos fãs esteja ganhando protagonismo, não se pode enquadrar todos eles como progressistas, ela afirma. "Acho que ter uma expectativa de ação e se referir aos fãs de k-pop como um bloco monolítico é muito perigoso. Fãs individuais tomam suas próprias decisões para se envolver e depois coordenar outros."

A projeção internacional dos fãs mais engajados é nova, mas na Coreia do Sul eles já haviam se unido em torno de grandes causas, conta Hanna Kim, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da ESPM. Há quatro anos, alunas da Universidade de Mulheres Ewha, em Seul, lideraram protestos contra a presidente Park Geun-hye, durante os quais cantavam versos da faixa “Into the New World”, do grupo feminino Girls’ Generation. A presidente sofreu impeachment no ano seguinte.

O próprio surgimento do k-pop, no início da década de 1990, teve conotação de protesto. Em seus primeiros anos, o gênero foi um movimento de oposição à censura e ao direcionamento de conteúdo exercido por governos autoritários na cultura sul-coreana durante as décadas anteriores.

Foi a partir da democratização da Coreia do Sul, em 1987, que a música local se abriu para influências externas, dando mais espaço para a livre expressão de sentimentos e pensamentos. “Alguns artistas do início do k-pop, como Seo Taiji & Boys, tinham músicas de tom crítico social, além de trazerem a diversidade do rap, hip-hop, rock, o lado fashion e coreografias impressionantes”, afirma Kim.

Passada a primeira década, o mercado falou mais alto e o posicionamento político dos grupos, que nunca foi forte a ponto de ser uma marca distintiva, foi se amainando. Os ídolos surgidos a partir do ano 2000 —movimento que culminou, em 2012, com o hit global “Gangnam Style”, de Psy— falavam sobre temas universais, como amor, paixão, desilusão e desenvolvimento pessoal, sem incentivar posturas combativas.

Há uma possibilidade de que o ativismo digital de agora se repita em outros momentos políticos relevantes, a exemplo das eleições presidenciais americanas de novembro, considerando o tamanho e o poder de influência desses grupos.

"Por que não usariam essa força que têm para lutar pelo que acreditam? Principalmente, pela liberdade de poder se expressar e serem respeitados como indivíduos, conteúdo sempre presente nas letras de k-pop", finaliza Kim.

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